rancores

04.11.11 - 5 Respostas

.: É coisa engraçada, isso de feridas antigas. Rancor também, eu acho que é uma coisa engraçada. As pessoas se servem cinicamente dessas palavrinhas – ferida antiga, rancor, mágoa de cabocla – e acabam atravessando a prerrogativa alheia de perdoar. Rancor, e essa definição quem me deu foi a Maria Rita Kehl, eu acho que só sente quem se resignou com uma ofensa, quem engoliu a falta de retratação e fica brigando consigo mesmo pra perdoar, mesmo sem ter sido solicitado a isso. Eu nunca deixei de protestar com os vadias e bifes que me atribuíram, nunca. Escrevi e falei e briguei o quanto pude, e por não ter recebido, nem na época nem depois, nenhum tipo de pedido de desculpa*, nenhuma reavaliação do que foi dito em nome d*O Feminismo*, estive à vontade pra tomar a última palavra de várias pessoas como sua opinião consolidada.
Retomando pois algumas das avaliações emitidas (apenas as mais leves, que este é um blog de Bem), eu e a lu fomos equivocadas, burras (ou agimos de má-fé, não sei, as pessoas não conseguiam decidir) e attention whores por termos participado do LD, fomos maniqueístas e imaturas por termos brigado com as feministas desrespeitosas e agora somos rancorosas e carecemos de pia de louça suja por tirarmos sarro dessas mesmas pessoas, seus argumentos e discurso habitual. Saquei. Só que meu ponto é: quem não se retrata, quem não revisa um insulto cometido, quem não apara as arestas do que disse num momento de impulsividade e/ou inconsistência intelectual, pior, quem continua achando que nem ofensa houve, não tem lá o direito de cobrar que o ofendido tenha desculpado ou esquecido, né não?! Autrement dit, quem não tem culhões pra admitir que foi grosseira não pode ousar esperar que eu tenha estômago pra aguentar tanta papagaiada que eu leio por aí ;)

*uma pessoa se desculpou. privadamente, com muitas ressalvas, mas se desculpou.

ocupem a lua

03.11.11 - Uma resposta

.: Eu mencionei uma vez que gosto da literatura antilhana, deu vontade de comentar um dos meus livros preferidos. Pays sans chapeau, de Danny Laferrière, é muito bom (porque) e fala de zumbis, a dificuldade é que nenhuma tradução ainda foi publicada no Brasil, mas com uma googlada é possível encontrar teses que contenham uma tradução feita com todo o cuidado. Pra quem tem noções razoáveis de francês, recomendo muito. É um livro delicioso de se ler.

.: É de certo fascinante que a grande piada da obra seja sua intenção autobiográfica: a narrativa falha em seus propósitos de instituir uma linha temporal que organize a vida e reconcilie um homem com sua terra, sua memória e sua herança depois de décadas de exílio no Canadá, e falha porque Danny Laferrière/ Vieux Os, o autor-narrador, constata que 20 anos o tornaram um homem diferente mas em nada modificaram seu Haiti. Pois então o concílio é impossível, mas tenta-se, de todo jeito. O livro é, em alguma medida, essa tentativa desde sempre fracassada de sentir-se em casa novamente, de encontrar, nos amigos, namoradas e familiares os resquícios dos afetos e intimidade de antigamente. É sem malícia que eu chamo essa reconstrução precária do cotidiano de a grande piada; a saga minuciosa do repatriado é, sem dúvidas, feita com a sutileza e bom humor que geralmente encontramos nos cronistas. Elejo, entre várias possíveis, a cena em que Danny lembra e descreve seu coup de foudre, o arrebatamento amoroso, de vinte anos atrás, por Antoinette, hoje esposa de seu antigo melhor amigo. É uma passagem bem bonita:

Como se pode ficar com ciúmes de seu melhor amigo? Sim, quando se trata da mulher dos nossos vinte anos. Mas hoje meus vinte anos têm vinte anos. E ela está lá, como na primeira vez que eu a vi sob a chuva. Era um jogo entre o velho Racing Club e a Águia Negra, e nós estávamos os quatro sentados na arquibancada do estádio Sylvio-Cator quando começou a chover canivetes. Isso nos deixou como loucos. A gente gritava. A gente urrava. O jogo seguia apesar do fato de o terreno ter ficado visivelmente impraticável. Um enorme lago cheio de patos. Os jogadores cobertos de lama. E nós na arquibancada não parávamos de berrar. Eu tirei a camisa e o grupo seguiu meu gesto. Em um dado momento, eu me virei e a vi. Como eu nunca a tinha visto até então. Como eu nunca mais veria uma mulher. Ela estava lá em seu vestido amarelo. Estávamos em abril.  Tudo estava perfeito. Eu não podia tirar meu olhar dela. Esses olhos. Essa boca. Esse peito. Eu estava com a cabeça vazia. Eu não conseguia olhar além. Senhor, eu pensei, eu vou perder a cabeça. E eu a perdi.

.: Os capítulos referentes à vida cotidiana de Vieux Os se alteram com os dedicados à investigação que Danny faz junto a cientistas, políticos, autoridades, militares, cidadãos sobre o espírito haitiano e a condição dos mortos-vivos no país – pois, como eu disse, o livro é também sobre eles. Assim, aquilo que o romance teria de mais debochado e fantástico constitui, na verdade, sua leitura de uma história nacional violenta e absurda. Pays sans chapeau é livro de zumbi, mas não exatamente do jeito que a ficção científica, com seus filmes, seriados, livros e HQs tem tratado. Não há uma explicação pontual, nem um acidente nuclear, maldição ou um histórico de epidemia a ser narrado, não há ameaça nem comportamento canibal, uns relatos dizem que são mortos que foram acordados para formar um exército barato e obediente em tempos de guerra, outros dizem que são pessoas que não puderam abandonar o mundo dos mortais porque é preciso ganhar a vida, mesmo quando ela já está perdida. O zumbi de Pays sans chapeau flana no mundo dos vivos, é uma criatura faminta, insistente, quase poética, quase cômica, trabalha no setor informal, é um estorvo terceiro-mundista, mas não se engane, é um zumbi.

.: Com bastante frequência e até um pouco (mas só um pouco) de razão, a crítica pega atalhos no entendimento desse romance e o considera um elogio ao folclore local e ao pensamento mágico e, como antagonismo simétrico imediato, uma afronta à racionalidade ocidental e materialista. O olhar preguiçoso e demagógico sobre o nativo costuma não ver muito além disso mesmo, o exótico, o irracional, o primordial e desconsidera toda dimensão política de suas demandas e especificidades na mesma valsa em que ignora o comprometimento social que pode ter uma narrativa moderna que bebe das águas da tradição oral e mítica.
É verdade que o morto-vivo figura diversas lendas haitianas e propõe questões transcendentais como os limites entre a morte e a vida, a confluência entre passado e futuro; porém, para um conjunto de obras contemporâneas – nas Antilhas como nos países africanos de expressão portuguesa – o zumbi tem assumido, por sua marginalidade sócio-política reformatada em condição fisiológica, um não-lugar que precisava mesmo ser reclamado e discutido. Ali, no país sem chapéu, não há nada senão uma espécie de presente expandido: não há passado nem futuro, não há perspectivas nem perdas, se todas as coisas estão fixadas em sua condição. O zumbi do Laferrière é esta criatura que, presa ao conceito que a resume, não precisa de absolutamente nada senão continuar existindo tangencialmente, interferindo de leve nas cidades dos vivos, apenas para tirar o mínimo para si.

.: Lembrei desse zumbi haitiano peculiar esta noite, quando vi minha timeline se indignar com um petista (um dos raros, tenho certeza) pouco familiarizado com a situação das comunidades indígenas do Xingu e esquecido de uns dois ou dezoito preceitos dos Direitos Humanos que, para defender a construção de Belo Monte, dizia que os índios são nômades e que sequer perceberiam que a usina foi feita (sic). Lembrei, na verdade, de uma passagem do livro em que Danny conversa com um vizinho e este conta que Neil Armstrong, quando esteve na lua, encontrou lá um haitiano faceiro a lhe pedir um cigarro. Diante da incredulidade de Danny, o vizinho explica que a história foi abafada pela NASA e pelo governo dos Estados Unidos para que John Kennedy pudesse se reeleger. A explicação, em suma, era de que os haitianos foram os primeiros a pisar na lua pois estão sempre em vários lugares ao mesmo tempo, viajando espiritualmente, desprendidos das condições materiais e de seus corpos.
Me ocorreu, sei lá, perguntar se não podem os índios brasileiros povoar a lua e deixar o Xingu pros vivos desfrutarem.

abelhas

17.10.11 - 8 Respostas

.: Esse rapaz trabalhava na secretaria da faculdade onde ele também estudava. Numa dessas matérias de licenciatura, que mistura gente de tudo que é curso pra discutir didática e políticas de educação, ele viu uma menina que o encantou. Então usou, com alguma discrição, a lista de chamada para descobrir o nome dela e depois atreveu-se a consultar o sistema da universidade. Foi assim que ficou sabendo que ela era da biologia e que pesquisava abelhas. De volta à sala de aula, sentou-se cirurgicamente ao seu lado, cumprimentou como quem não quisesse nada e começou a desenhar abelhas nos cantos da folha do caderno (que na verdade o descarado nem usava); ela notou e puxou assunto, disse que ele estava desenhando errado, que eram tantas patas e tantas listras, que havia este tipo e aquela espécie, e ele, como eu disse, um descarado, se fez muito interessado e surpreso com a expertise da colega no assunto enquanto comemorava, internamente, que a paixão dela por abelhas tivesse servido tão bem a sua estratégia de cortejo.

.: Minha imensa prova de amizade é não revelar seu nome completo, viu, Leo.

“ela não me representa”

13.10.11 - 5 Respostas

.: Eu comecei uma comparação entre os movimentos negro, gay e feminista e não terminei; ficou faltando dizer que eu suspeito que a relação mais bem resolvida entre os dois primeiros e as representações dos corpos nos veículos de comunicação de massa se deve ao fato de os conceitos de negritude e homossexualidade estarem melhor lapidados que o de “feminilidade” para as respectivas militâncias. Esses conceitos, negritude e homossexualidade, desdobram-se em políticas afirmativas e discursos positivos que não deixam, por sua vez, que o ódio e o preconceito contaminem, esgotem ou imobilizem os conceitos fundamentais da causa, ou seja, as próprias negritude e homossexualidade. Na prática, o orgulho negro, o orgulho gay, as paradas, os beijaços, a demanda por cotas e direitos civis, são faces de movimentos que encaram as agressões como elas devem ser encaradas: como episódios lamentáveis e decorrentes do preconceito, e não como contrapartida da existência da negritude ou da homossexualidade. Isso explicaria por que, mesmo com tantos casos de violência contra gays na Paulista, não ouvimos e provavelmente nunca ouviremos um defensor GLBT sugerir que os gays evitem andar na Paulista numa certa hora, ou de mãos dadas, ou que deixem de dar pinta. Igualmente, nunca ouviríamos que os negros devem ser menos negros ou tomar cuidado para não agirem como estereótipos de negros; falas assim, quando não absurdas, já são claramente percebidas como carregadas de homofobia e racismo.

.: O corpo que os movimentos GLBT e negro visam proteger, afinal, é um corpo que ama e trepa com pessoas do mesmo sexo e não se conforma com as regras de gênero, (ou) é um corpo com pele escura e cabelos crespos; não há preconceito que consiga impregnar esse corpo a ponto de torná-lo irremediável e previamente vulnerável, e, mais do que isso, não há violência que modifique os conceitos mesmo de negritude e homossexualidade a ponto de participar de sua constituição. É nesse sentido que eu quero dizer que negritude e homossexualidade, elaboradas como estão nos discursos da militância que trabalha em sua defesa, seguem apartadas dos preconceitos que procuram minar e inibi-las; diferente do que faz certo tipo de feminismo que absorve cada episódio de violência contra a mulher, reitera a universalidade da condição desgraçada, da vulnerabilidade, da falta de possibilidades. Pra esse feminismo, o corpo a ser protegido e defendido é um corpo atrelado às potenciais violências, agressões, ameaças, é um corpo que, sob o menor descuido, se vê desumanizado e transformado em objeto, em receptor dos desejos alheios. Assim, quando uma musa como Scarlett tem suas fotos nuas hackeadas, logo aparecem textos e mais textos de mulheres se solidarizando e partilhando da angústia de ter sua privacidade invadida, pois na dor de ser mulher à mercê da sexualidade predatória somos todas irmãs. Quando Gisele, musa do mesmo porte de Scarlett, aparece na tv de lingerie seduzindo o marido, a primeira (e pra muitos, única) hipótese aventada é que aquela é uma situação de submissão e que, no mais, “ela não me representa“, “eu não tenho nada a ver com essa mulher“. Todas somos Scarlett se ferrando, nenhuma somos Gisele seduzindo. A receptividade desse feminismo diante de situações ligadas à feminilidade oscila, portanto; determinados aspectos e comportamentos simplesmente parecem negativos e são rejeitados quando reproduzidos em comerciais, ou novelas, etc. Estes aspectos, não raramente, estão ligados ao exercício da sexualidade, à beleza, à sensualidade – posto que este é o campo no qual, ainda segundo esse tipo de feminismo, a mulher está em desvantagem e sob ameaça de “objetificação” e violências.

.: Que a violência contra uma mulher incomode a todas é algo desejado e benéfico; os agressores saberão, cada vez mais, que seus atos não passam despercebidos e impunes. Mas a relação desse feminismo com a violência é de tal forma mal resolvida que, tomemos por exemplo, mesmo num evento que se dizia afirmativo da sexualidade feminina – sim, a Marcha das Vadias – podia-se notar, aqui e ali, cartazes pedindo para “não sermos tratadas como pedaço de carne“, ou “mulheres têm medo de usar saia” (e olha, eu nunca conheci uma biscate que tivesse medo de usar saia, muito pelo contrário). Enfim. Eu acho que o interessante é manter a violência contra a mulher no mesmo âmbito em que racismo e homofobia são mantidos pelos movimentos afirmativos: perto o bastante para serem denunciados, desconstruídos, questionados, combatidos, mas longe o suficiente para não integrarem o próprio conceito que se quer promover, o corpo que se quer libertar.

mas Amélia não tinha a menor vaidade

11.10.11 - 22 Respostas

.: Não faz tanto tempo, eu costumava ver muita semelhança na militância dos movimentos negro, gay, feminista. Embora, ainda hoje, eu ache que esses grupos são primos-irmãos e comutam um ideal libertário, em suas linhas gerais, tendo a reconhecer naqueles que combatem racismo e homofobia um traço que me agrada e que os distancia do discurso feminista de maior alcance atualmente.

.: O movimento negro, como o GLBT, entende e lida com a cultura de massa de maneira muito mais lúcida e eficiente, e é por isso que a recente questão da Caixa Econômica e seu Machado de Assis branco expõe, àqueles que se prestam a comparar, os vícios de leitura nas manifestações contrárias à Hope de Gisele Bündchen. É perfeitamente cabível protestar contra uma representação que nega a identidade racial de Machado de Assis e que o aparta, assim, da comunidade que o tem como uma de suas figuras mais caras. Com isso, quero dizer que a convergência entre preconceitos de qualquer natureza e veículos de massa é sem dúvida algo sobre o qual devemos nos debruçar. Campanhas publicitárias, personagens e enredos de novelas, programas de tv, as coisas estão aí para serem discutidas. O que me causa estranheza quando algum desses veículos incita reação de parte das feministas é que nas críticas à “representação estereotipada da mulher”, muitas vezes, parece pressuposto um abismo que separa mulheres em diferentes categorias e que, a depender da situação, uma não encontra, na outra, identificação nem empatia. Quando, por exemplo, a Secretária Nacional de Combate à Violência contra a Mulher diz que

Aparecida diz se sentir ofendida pela propaganda, já que, como ela própria descreve, “é baixa, gorda e índia” e não se vê representada na peça publicitária. Ela afirma que o objetivo da Secretaria de Políticas  para as Mulheres (SPM) é questionar que tipo de imagem da mulher brasileira está sendo criado.

eu me pergunto, afinal, por que ela não se veria representada na peça publicitária. Pois no fundamento da resposta óbvia, e potencialmente cínica, de que ela, sendo baixa, gorda e índia, não se parece fisicamente com Gisele Bündchen, está a curiosa ideia de que a garota propaganda da Hope deveria apresentar os atributos de Aparecida e que, aí sim, despertaria no público feminino as devidas identificação e aprovação.
Soa bem mal resolvida a questão da unidade do corpo feminino que, de um lado, seria vítima de machismo e, de outro, merecedor de defesa e proteção. Quando Geisy Arruda é humilhada por centenas de colegas, quando Severina é estuprada por seu pai durante anos, quando Eloá é morta por um namorado ciumento, entra em cena um feminismo que, além de acolhê-las e apontar como machista a racionalidade que permitiu tanta violência, se prontifica a universalizar sua tragédia, declarando que agredir uma mulher = agredir todas as mulheres, e que a vitimação faz parte da condição feminina no mundo. Entretanto, numa situação de leveza e fruição, ainda que forjada numa campanha sem grandes pretensões a não ser estimular a vaidade da brasileira (e as vendas), em que a diva usa seu charme pra dar uma notícia ruim para o companheiro, a unidade feminina parece fraturada. Não basta, portanto, que Gisele Bündchen seja mulher para que as mulheres percebam-se nela, ela teria que ser baixa, e/ou gorda, e/ou índia para que, então, o público-alvo se sentisse tocado – o que pode parecer adequado num contexto de combate às tendências cristalizadas dos padrões de beleza, mas que, se isolado e radicalizado, é problemático. A ampliação das gamas de cor e forma nos instrumentos de comunicação de massa deveria trabalhar no sentido único de incluir tipos físicos, e não ser excludente daqueles que já são consagrados. Em outras palavras, é bizarro achar que o corpo loiro e magro da Gisele por si só veicula uma mensagem ofensiva ou machista, e o da Preta Gil, não.

.: E não apenas a aparência da Gisele Bündchen demonstrou-se repelente do reconhecimento das mulheres, mas também a maneira como a campanha explora sua condição de musa. É de se pensar por que, numa situação de infortúnio ou agressão, qualquer mulher encontra empatia junto às outras, e por que, numa situação positiva e erótica, uma determinada mulher se torna símbolo refratário à causa feminista. Há uns meses, Gisele, como garota propaganda da Sky, limpava o chão, buscava cerveja pro marido, um cara feio, gordinho, tapado, que dizia ter voltado pra casa só por causa da programação da tv. A declaração do diretor de criação da agência responsável, na minha opinião, não poderia ser pior:

“Nesse filme ela age como qualquer mulher esperando o marido. É a Amélia dos sonhos masculinos”, brinca John, autor do roteiro produzido pela O2 Filmes. “Mas as mulheres também vão se sentir vingadas ao ver a mulher mais cobiçada do mundo numa situação tão familiar.”

Não que eu acredite que a campanha alcançou a boa receptividade por parte das mulheres que esperava o diretor, felizmente, mas também não provocou indignação nem debates no mesmo grau que a campanha da Hope. Indiferente a isso, eu sublinharia essa última frase dele, que é bem babaca e machista, mas que conta com o suporte do senso comum que opõe mulheres bonitas, glamurosas e consagradas a mulheres “normais”, “reais” – suporte esse que deu as caras, justamente, na reação à campanha da Hope. Não estou dizendo que Gisele é gente como a gente, certamente que não. Mas é preocupante que sua feminilidade possa dialogar mais facilmente com a nossa quando instrumentalizada numa campanha que a tire do pedestal e coloque como dona de casa limpando o chão, do que quando la Bündchen tira a roupa pra seduzir o companheiro ao dar uma notícia ruim.

.: E há outra coisa, nessa história toda, que chamou minha atenção, menos por uma questão de conceituação feminista e mais por capacidade de intelecção, mesmo. Em entrevista concedida à Carta Capital, a ministra Iriny Lopes solta um apanhado de expressões que mereceriam, já que este é um debate sério e ela é uma pessoa com um cargo cheio de responsabilidade, um pouco mais de cuidado.

CC: Na propaganda, a Gisele Bündchen se coloca como uma mulher que põe o corpo à disposição para compensar uma má notícia. Muitos críticos diziam ter medo de que a piada se espalhasse, e que os homens dissessem para suas mulheres e amigas, mesmo que na brincadeira: “ok, você fez bobagem, agora tira o sutiã que fica tudo certo”. É um exagero?
IL: 
Esse é o perigo. Tudo ali era subliminar. Havia uma mensagem subliminar quando era mostrado um carimbo dizendo que dar o recado com roupa era errado. Qual é a intenção ao mostrar isso? É essa coisa da mulher-objeto, que para manter uma relação precisa de um nível de erotismo.(…)

A entrevista toda é meio pobre; e essa pergunta já traz uma leitura completamente pronta da campanha, afirmando, por exemplo, que a Gisele usa o corpo como compensação para uma má notícia. Aí a ministra responde que tudo ali era subliminar. Eu, pessoalmente, passei pelos anos 90 e agora vejo o mal que aqueles sites freaks e correntes de e-mails sobre a palavra sex numa cena de Rei Leão e a imagem pornô camuflada em Bernardo e Bianca fizeram ao nosso entendimento. O fantasma da mensagem subliminar, negativa, maliciosa, prejudicial, que é deliberadamente escamoteada para manipular e inserir vontades e ideias no subconsciente dos telespectadores volta com força sempre que uma campanha supostamente machista cai na roda de discussão. Ainda que eu concordasse que a campanha da Hope é nociva às mulheres, respeitaria meus anos de estudo e jamais afirmaria que há algo nessa campanha que seja subliminar. Pode-se facilmente argumentar que ela resgata clichês como a má direção das mulheres, o consumismo, a relação próxima com a mãe, até a fama de sensuais que as brasileiras temos no mundo (que, em si, também não é machista nem ofensiva); essas coisas, contudo, estão articuladas numa peça publicitária que é bastante explícita e objetiva e, para entendê-la, não é preciso nenhum poder aguçado de interpretação.
Interpretação, que, vamos deixar bem claro, permanece aberta e dependente de valores e referências pessoais, escolhas ideológicas, recortes, etc. Isso quer dizer que a submissão da Gisele, equivocadamente chamada de Gisele Amélia Bündchen por aí (só que Amélia não tinha vaidade, respeitem as mitologias da MPB), assim como a suposta reação violenta do companheiro que recebe a má notícia, são algo que as pessoas formulam e acrescentam ao comercial. E a afirmação de que elas estão lá, prévias, atuantes e fixadas, implica em universalizar uma convicção sobre a condição feminina que deveria, pelo menos, ser objeto de questionamento – se você não for do tipo que curte vitimizar a vítima, claro.