ensaio de 10 linhas

.: Uma coisa que aquele professor fazia e eu adorava, era os ensaios de 10 linhas. Nem mais, nem menos. Havia sempre um ponto de start. Ele dava uma palavra. Translúcido, por exemplo. Ou então ele lia um poema, um conto, mostrava algum vídeo. E depois lia os melhores ensaios na sala. No começo, as pessoas se ocupavam em definir a palavra que ele dava. E passavam 10 linhas definindo. Ou descrevendo, quando era um objeto. Depois a maioria começou a redigir breves opiniões. E ele sempre dizia que estava ruim e não era isso que ele queria. Era um inferno, e obrigava a gente a pensar a forma, manipular a linguagem para não sair reproduzindo o óbvio, o imediato, o mínimo. Ao longo do curso, os alunos iam aprimorando a forma e tendiam ao poético, ao novo, ao singular. Das melhores lições que eu já tive.

.: Uma vez, ele leu esse texto como disparador:

Ela disse que a venda negra nos olhos até o tornava atraente, misterioso. Ele estava completamente bêbado e falou que as pessoas precisam se conhecer até o fundo. Arrancando o olho de vidro, jogou-o dentro da laranjada dela. Disse que se ela bebesse com o olho dentro do copo, ele ficaria apaixonado para sempre. Ela bebeu.

Romeu e Julieta in Minificções, de Sérgio Sant’Anna

E a Fli escreveu isso:

Escura, sombria, queda de Massada, carne suja e fria. Vida, outra, ida, passada. Água pobre, escorre, se esfrega devagar e corre, lamenta e morre. Conhaque? Primeiro, a que desafiou todas as minhas certezas. Horas? Olha a lua. Olha como a lua está inexplicável hoje. Como era aquela palavra tão bonita? Era… Inefável. Inefável está a lua hoje. Agora, tu, minha dúvida. A venda? É um hábito, coloco pra todo mundo. Mas nunca me disseram que fazia diferença. Achas mesmo? Já te pedi tantas e tantas vezes que partisses desta casa instável que não se cansa de pulsar por uma vida à toa, mas és insistente, sempre insistente, como no dia em que nos conhecemos. Não era verde, era azul. E aqui comigo, sempre a dúvida. Viva-me, então. Podes? Beba-me, e fica tudo certo. Está tudo cer……………………………………………………………………

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.: Sou encantada por esse texto dela desde sempre, em tão delicada combinação com o do Sant’Anna. Nem sei se aqui no blog dão as 10 linhas, mas na folha de fichário em que ela escreveu, dava.

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3 Respostas

  1. Meu, assim você me mata. Que coisa mais linda isso. Chorei, chorei, chorei. Saudade de tudo, muita.

  2. O bom e velho J. Groppa, esse sacana! Também me viciou na escrita, e na loucura de ler tudo do avesso. Somos muitos os que ele salpicou com o vírus, e que continuamos a envenenação da palavra.

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