tributo à festa da nokia

.: O crusp, conjunto residencial da usp, foi construído para alojar atletas que vieram participar de um panamericano, faz quase 50 anos, isso. Depois do tal evento, aqueles prédios mostraram-se obsoletos e foram, assim, ocupados por alunos. Sei que durante um tempo a gestão daquele espaço foi feita inteiramente pelos estudantes-moradores. Quando a coseas, que hoje é o órgão responsável pelas políticas de auxílio estudantil, foi criada, o argumento era que as vagas não estavam sendo adequadamente distribuídas e que a autogestão era leniente com não-alunos que moravam lá imerecidamente.
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.: Em 2000, um grupo de aproximadamente 20 alunos ficou de fora da seleção de vagas da coseas. Oriundos, todos eles, de cidades do interior e sem condições de pagar pensão ou aluguel, arrombaram o térreo de um dos prédios – justo o de um destinado exclusivamente a pós-graduandos – e transformaram em alojamento as duas grandes salas e dois vestiários que então constituíam um depósito. O alojamento do crusp, conseguido, portanto, a base de ocupação, em 2001 pôde abrigar, em seu auge, 70 alunos. Eu mesma, entre eles. Devo dizer que uma das experiências mais enriquecedoras que tive, nos meus anos de graduação, se deve a esse espaço e grupo de estudantes. Se 2000 foi o ano da ocupação, 2001 foi o ano da queda de braço com a coseas. A política do alojamento era de acolher qualquer aluno que precisasse de um canto pra dormir, tomar banho e guardar as roupas, foi assim, inclusive, que chegamos à lotação de 70 pessoas ali. As assistentes sociais e os alunos de pós consideravam aquela apropriação do espaço indevida, como consideravam inadequados o convívio e organização daquele número crescente de estudantes (além disso, nossas festas eram reconhecidamente as melhores do crusp). Em 2002, com todos os ex-alojados distribuídos em apartamentos, o espaço foi reformado e passou a conter pouco mais de 20 vagas, então gerenciadas pela burocracia e critérios questionáveis das assistentes sociais.
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.: Eu ainda morava no alojamento, naquela semana em que tiraram as esculturas do gramado da frente do mac, o museu que fica ao lado do crusp. A gente descobriu que se tratava de uma festa patrocinada pela nokia quando começaram a instalar a decoração. Naquele dia eu fui pra biblioteca, lá pelas 18h, e vi uma cama elástica ser posicionada ao lado dos canhões de luz, como vi uns 5 colegas de alojamento sentadinhos na calçada, observando a movimentação na frente do mac. Às 21h, quando voltei, já não eram 5, mas uns 15 ou 20 estudantes ali agrupados. E lá pelas 23h, enquanto eu falava com meus pais pelo orelhão, ouvi alguém gritar “COMIDAAAA”. Olhei pro corredor que liga os prédios do crusp e vi um cara correndo com uma torta na mão. Outros gritos e palavras de ordem, agora de “queremos caviar”, “fora faap”, “a festa é de quem quiser, quem vier” etc. A festa da nokia aparentemente mal tinha começado, o staff estava lá, uns alunos da faap, que fariam apresentações artísticas, também, uns poucos convidados chegaram e agora eles estavam todos dentro do mac, acuados, enquanto dezenas de estudantes comiam maçãs verdes e espetinhos de muzzarela de búfala, tomavam champagne e pulavam na cama elástica. Os garçons que não se refugiaram no mac serviram salgadinhos aos estudantes como se convidados fossem, chegaram mesmo a rir. Depois de um tempo, os verdadeiros convidados saíram, protegidos por um cordão de isolamento feito pelos seguranças, enquanto gritavam “maloqueiros”, “mortos de fome”, etc. O que não foi consumido acabou sendo carregado para os apartamentos e, claro, o alojamento – e foi assim que eu passei uma semana levando maçã verde pra comer no intervalo das aulas, até enjoar de maçã verde.
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.: Acho louvável que as pessoas se preocupem com a preservação do patrimônio público, com a segurança dos alunos, com a manutenção de um ambiente adequado ao ensino e pesquisa na sua maior e melhor universidade. Eu, 10 anos mais velha, percebo certas reivindicações e atos dos quais participei com outros olhos, com um pouco de indulgência, alguma reprovação até. Mas também acho que esses outros olhos, mais maduros e menos extremistas, dependeram muito dessa postura “foda-se a nokia, a universidade é pública, a festa é nossa” dos meus 17 anos. E penso, aliás, que cada uma das ocupações e greves de que fiz parte não apenas foram importantes para a minha formação política, como acrescentaram, de alguma forma, algo para universidade da qual fui aluna e pesquisadora. Diversas críticas e ressalvas eu teria a fazer sobre as ações e discursos do movimento estudantil, mas o pragmatismo que se cobra dele em relação à polícia militar, hoje, é o mesmo pragmatismo incapaz de oferecer o tipo de soluções e possibilidades que o próprio movimento estudantil já conquistou. Pois, convenhamos, se ocupações e greves garantiram a existência de uma moradia estudantil que atende, atualmente, mais de 1200 alunos, garantiram abertura de vagas para docentes e pesquisadores, melhorias e ampliação de prédios, salas de aula, bibliotecas, extensão de benefícios e políticas de auxílio a estudantes, se é assim que os alunos têm conseguido manter aberto o debate público sobre tantos aspectos das nossas universidades, acho que dá pra dizer que essas greves e ocupações, em que pesem todas as suas consequências negativas e medidas censuráveis, ainda nos causam mais bem do que mal.
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.: Porra, Pondé.
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19 Respostas

  1. Belo relato.

    Na verdade o movimento estudantil até que tem sido bastante pragmático, o problema foram essas correntes de ultra-esquerda que se acham tão donas da verdade revolucionária que ignoram até a democracia do movimento.

    Essa coisa de fazer assembléia paralela porque não concordou com a decisão da assembléia principal, francamente, é coisa que não se via no meu tempo de estudante.

    Não que justifique a repressão, é claro.

    • concordo com tudo o que vc falou. tanto que me dá até vontade de apagar o post qdo lembro das últimas assembleias de que participei… hahahahaha

  2. Puts, eu tambem fui a essa festa da Nokia e ate comi uma maca verde da decoracao :-p foi no ano em que me formei.

    Excelente artigo, admito que meus inconfessos 30 anos tinham me impedido de ver a coisa por esse lado (e que o aspecto revoltadinho da USP representa uma parte grande da minha formacao e da minha personalidade). Mas, sim, tenho uma porcao de ressalvas quanto a esse ultimo movimento…

    Beijo!

    • hahahaha mentira que vc tava lá tbm <3 <3 <3 <3

  3. Texto preciso. Obrigada. Os olhos borrados devem ser de memórias (e não, não comi maçã verde, minha Universidade foi outra, mas os anos mais velhas são quase os mesmos).

  4. Puta texto bom, bem escrito pra cacete. O que me assusta um pouco no que está acontecendo hoje é o fato de que o pessoal que foi pra reitoria jogou uma banana pra assembleia na fflch. Se o movimento estudantil for rachar desse jeito, se não tiver nem mesmo o bom e velho centralismo democrático, não acho que dê pra chegar em alguma coisa muito efetiva…

    • obrigada! :)

      nem sei se é uma coisa tão ruim, esse estiramento entre posições. o mov estudantil precisa se reinventar, aliás, até essa necessidade de se reinventar já está completando uns bons anos. as ocupações, como esta última, podem até não resultar em nada efetivo mas vão mantendo a instabilidade, a inquietação, o enfrentamento como possibilidade imediata. a gestão do rodas, que já leva nas costas um déficit de legitimidade inegável, tem mais isso a engolir. de repente esse é o solo fértil pra um mov estudantil mais criativo, mais contundente etc.

  5. Gente, onde eu tava que eu não lembro disso?

  6. Oi,

    Acabei chegando por aqui pela Iara aí de cima. Eu acabei de me formar e, talvez pelo fato de ter acompanhado muito o movimento estudantil na minha universidade, com este rebu todo que vem acontecendo na USP comecei a repassar as greves e ocupações das quais participei, se faziam sentido, se serviram para minha formação política e pessoal se conquistaram algo.

    Ao ler o teu texto acabei vendo o por que hoje ao ler as coisas sobre a invasão da PM na USP e tantos atos de desrespeito a direitos humanos – que aconteceram na USP, mas são mais recorrentes nas ações da PM pela periferia e tal – percebi que tá aí a importância do ME, deixar uma fagulha de tormento na mesmice que vem tomado a universidade e sociedade em geral.

    No mais uma coisa me incomoda muito, o fato da ocupação da reitoria ter acontecida passando por cima de uma decisão de assembléia, por uma minoria do movimento. Fico pensando até que ponto realmente a construção da política no movimento é feita de forma coletiva ou é feita da forma se vocês não querem do meu jeito eu vou sozinha.

    No mais, gostei muito do texto… Espero voltar mais vezes.

  7. Dude, que inveja. Essa invasão à festa da Nokia era lendária no meu tempo. Por muitos anos eu fiquei pensando se eu ia participar de um negócio tão alopradamadamente magnífico (isso foi antes de eu perceber que eu sou meio bundão. Mas greve de 2002 com Wisnik cantando Anhangabaú da Felicidade na escadaria da Casper, pau no cu é bom tem gente que gosta e que tais é bem legal de ter no currículo).

    Eu fiquei putinho com a galera que decidiu ocupar a reitoria no começo, mas vou tentar fazer o advogado do diabo aqui:

    Uma coisa que sempre vai me emputecer é aquela galera do “ah, mas essa assembléia não tinha gente suficiente, ela não é democrática, não me representa whiskas sachê”… aí a assembleia seguinte tem 2000 mil pessoas, eles têm que sair correndo da sala pra votar na posição fixa deles (que geralmente é sempre não — não greve, não invasão, não ocupação, não paralisação, não sair de casa), a posição perde na votação com todo mundo,e aí foda-se que agora eles participaram, eles não vão cumprir mesmo assim. E a gente sabe que às vezes eles correm pra assembleia só pra deixar o nãozinho deles lá, e numa assembleia em períodos mais desmobilizados às vezes esse não que se recusa a debater, que se recusa a ouvi, que se recusa a argumentar além do vocês são vagabundos, nós queremos estudar ganha. Enfim, aparentemente, foi um pouco o que aconteceu quando da desocupaçãoda administração da fflch: já tinha um pessoal que estava pela desocupação, e baixou lá uma galera só pra votar pela saída. Porra, sabe? Deve ser muito triste ter que aguentar uma maioria que sempre se recusa a deitar no chão duro contigo. Então eu não concordo inteiramente, mas eu entendo a assembleia alternativa.

    • ah, emil, mas faz parte do jogo né? se é no voto que se decide, cabou. voto é voto. é o mesmo que dizer que eleição não devia contar voto de gente que não tem consciência política e blá. quem não quer greve e vai lá votar está fazendo o que lhe é de direito fazer. cuzões, acomodados, cínicos, vc pode chamar do que quiser, mas eu acho que ou o movimento estudantil respeita as regras do jogo através dos quais ele atua, ou reinventa as regras. fazer assembleia paralela não é se reinventar, é ser meio calhorda.

      ps. o “seu tempo” é meu tempo tbm, ô seu =P (e pô, foi demais… tem mais detalhe na história, eu dei uma simplificada, me cobra de te contar depois)

      =**

  8. Vou cobrar sim, podeixar.

    E eu sou um advogado do diabo de merda, porque é meio calhorda mesmo. Mas ei, stalinismo encanta porque em algum nível it gets shit done.

  9. Ótimo artigo! =)

  10. Texto sensacional, Aline.

    É sempre bom ler o que você tem a dizer, ainda mais sobre essas coisas tão pesadas que nos cercam – justamente porque, mesmo a respeito delas, você consegue escrever do seu jeito cativante e afetivo, o que tem lá seu valor, sobretudo para uma pessoa como eu, que só é capaz de (mal)traçar uma poucas linhas de análise fria e dura mesmo sobre o que é belo na vida.

    A enorme “perversão do desejo gregário” que testemunhamos nesses últimos dias, seja na USP ou na Rocinha, são processos tão assombrosos que tem lá sua beleza masoquista.

    Qualquer um que conheça o movimento estudantil – e eu estou de cabeça nele, por ora – sabe o quanto é triste toda essa cultura de atropelos e autoritarismo, mas nada justifica esse uso massivo de força policial no campus.

    Não há explicação racional para isso – embora ser racional ou não, na verdade, pouco importe como se vê na adesão da massa midiatizada quase como um grande pelotão de linchamento.

    Mas a firmeza dos estudantes, desconstruindo as teses veiculadas na mídia, fazendo greve, forçando a saída da polícia, expondo os problemas da gestão Rodas, está me impressionando positivamente.

    Mais do que isso, essas pequenas resistências moleculares que operamos, como essa que você narrou, acabam sendo tão ou mais importantes, apontam eixos do que pode ser uma atuação constante: carnavalizar a política em vez de politizar o carnaval, se livrando das linhas rígidas da ortodoxia que engessam o ME – e o fazem se voltar para combater um inimigo que não existe mais, desviando-lhe de uma ameaça muito pior.

    beijos

  11. Gostei muito do seu relato! Acabei de conhecer o blog e voltarei por aqui para espiar as publicações.

    Sobre os ocorridos na USP… bem, não quero me alongar muito. Escrevi recentemente um longo texto falando de tudo (ou quase tudo) e deixo aqui o link: http://desmontadordeverdades.blogspot.com/2011/11/o-pesar-das-botas-rodas-e-o-leviata.html Mas o que posso dizer brevemente é que diferentemente de uma situação sem regramento (como era a moradia estudantil), a atual “crise” tem o tem mais amplo da estrutura de poder na universidade. A verdade é que acredito que todo tumulto interno na USP se deve a tentativa de um reitor biônico e sua tentativa de extrair do medo a legitimidade que ele não tem como tirar da democracia. Dessa forma Rodas busca causar um tumulto que divide a comunidade para conseguir se colocar ao lado de uma pretensa maioria. Nesse movimento ele atropela a própria organização dessa comunidade com um golpe de força.

    Nesse sentido Rodas quês precisamente colocar fim a essas organizações estudantis que tanto já conquistaram e construíram. Ele pretende se ver livre das vozes da comunidade e para isso está disposto a tudo. Não podemos falar em democracia, por que não é disso que se trata. A questão é apenas segurança. Alguns apenas não percebem que é da segurança do reitor e da manutenção de sua autoridade que se fala.

    Mas já falei de mais.

    Parabéns pela postagem.

    Abraço!

    Ivan de Sampaio
    Blog: http://desmontadordeverdades.blogspot.com/
    Twitter: @IvandeSampaio

  12. Tua escrita é tão serena e lúcida que fico chapado. ótimo blog, Aline.

  13. Aline, antes de mais nada… sua mãe tá boa? Puta que pariu, eu sinto falta dos meus colegas de faculdade (falar assim me deixa ainda mais velha).

    Lindo o seu texto. Porque a atitude (incluindo, nas acepções da palavra, seu melhor sentido) de “invadir” a festa da Nokia em muito se assemelha à atitude de “invadir”, agora, a reitoria. Garantir que a USP seja sempre um espaço público, laico e democrático é a função do movimento estudantil, e não há que se menosprezar os modos que os estudantes encontram para combater a privatização do seu espaço e o autoritarismo dos seus “gestores”, merecidamente entre aspas, mais do que nunca. Menosprezar não é caminho; afinal, quem menospreza está lá fazendo algo que preste? Quando ouço “Esses moleques são uns maloqueiros”, penso que a frase deve sair da boca dos mesmos que berram “Tudo é culpa do Lula”, “A PM tem mesmo que manter a ordem”, “Bicha tem que morrer” ou “O Brasil é uma merda, bom mesmo é qualquer país da Europa”.

    Não estou exagerando, estou?

    Sinto sua falta, de verdade. Queria ter você por perto.

    Um beijo.

    • Tá exagerando não.

      caraca, Fli, que saudade de vc! quase caí pra trás qdo vi comentário seu aqui nessa espelunquinha. tem tanta conversa que eu adoraria ter com vc, to pra te escrever há várias semanas (desde que eu desenterrei uma certa tese de congresso dos estudantes pra um post aqui). receba pois meu melhor abraço \o/

      (tá boa a mãe? HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA)

      muitos muitos beijos

      • Abraço recebido e sentido. E e-mail respondido. E mãe numa boa.

        Nossa, daria tudo por um chá com biscoitos!

        Beijos, beijos, beijos muitos.

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