rancores

.: É coisa engraçada, isso de feridas antigas. Rancor também, eu acho que é uma coisa engraçada. As pessoas se servem cinicamente dessas palavrinhas – ferida antiga, rancor, mágoa de cabocla – e acabam atravessando a prerrogativa alheia de perdoar. Rancor, e essa definição quem me deu foi a Maria Rita Kehl, eu acho que só sente quem se resignou com uma ofensa, quem engoliu a falta de retratação e fica brigando consigo mesmo pra perdoar, mesmo sem ter sido solicitado a isso. Eu nunca deixei de protestar com os vadias e bifes que me atribuíram, nunca. Escrevi e falei e briguei o quanto pude, e por não ter recebido, nem na época nem depois, nenhum tipo de pedido de desculpa*, nenhuma reavaliação do que foi dito em nome d*O Feminismo*, estive à vontade pra tomar a última palavra de várias pessoas como sua opinião consolidada.
Retomando pois algumas das avaliações emitidas (apenas as mais leves, que este é um blog de Bem), eu e a lu fomos equivocadas, burras (ou agimos de má-fé, não sei, as pessoas não conseguiam decidir) e attention whores por termos participado do LD, fomos maniqueístas e imaturas por termos brigado com as feministas desrespeitosas e agora somos rancorosas e carecemos de pia de louça suja por tirarmos sarro dessas mesmas pessoas, seus argumentos e discurso habitual. Saquei. Só que meu ponto é: quem não se retrata, quem não revisa um insulto cometido, quem não apara as arestas do que disse num momento de impulsividade e/ou inconsistência intelectual, pior, quem continua achando que nem ofensa houve, não tem lá o direito de cobrar que o ofendido tenha desculpado ou esquecido, né não?! Autrement dit, quem não tem culhões pra admitir que foi grosseira não pode ousar esperar que eu tenha estômago pra aguentar tanta papagaiada que eu leio por aí ;)

*uma pessoa se desculpou. privadamente, com muitas ressalvas, mas se desculpou.

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5 Respostas

  1. amoladores de facas, li

    • opa. uma constelação deles :)

  2. Independentemente desse debate antigo que eu não acompanhei, achei muito bem pensado esse reparo à idéia corrente de “rancor”.

    • tem um ranço meio católico nessa expectativa pelo perdão compulsório, na ideia q depois de depois de um tempo tudo deve ser esquecido.

      não se deve esquecer tudo, eu acho. a gente protege o futuro lembrando do passado. e não perdoar, sobretudo se o ofensor nem pediu perdão, não é (necessariamente) “rancor”.

  3. Grande parte da história do ocidente pode ser compreendida por meio de uma arqueologia e uma genealogia da culpa: é o elemento constitutivo mór que une o mundo cristão – judaico-helênico -, servindo de pilar principal da maneira como opera o recalque cá desse lado do mundo (que, afinal de contas, se universalizou no processo chamado ‘globalização’). A língua portuguesa, inclusive, guarda uma curiosa palavra em seu léxico: desculpa. Isso ajuda a explicar grande parte da construção moralista que serve de motor para esse pseudo-feminismo d’antanho que vemos por aí.

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