ocupem a lua

.: Eu mencionei uma vez que gosto da literatura antilhana, deu vontade de comentar um dos meus livros preferidos. Pays sans chapeau, de Danny Laferrière, é muito bom (porque) e fala de zumbis, a dificuldade é que nenhuma tradução ainda foi publicada no Brasil, mas com uma googlada é possível encontrar teses que contenham uma tradução feita com todo o cuidado. Pra quem tem noções razoáveis de francês, recomendo muito. É um livro delicioso de se ler.

.: É de certo fascinante que a grande piada da obra seja sua intenção autobiográfica: a narrativa falha em seus propósitos de instituir uma linha temporal que organize a vida e reconcilie um homem com sua terra, sua memória e sua herança depois de décadas de exílio no Canadá, e falha porque Danny Laferrière/ Vieux Os, o autor-narrador, constata que 20 anos o tornaram um homem diferente mas em nada modificaram seu Haiti. Pois então o concílio é impossível, mas tenta-se, de todo jeito. O livro é, em alguma medida, essa tentativa desde sempre fracassada de sentir-se em casa novamente, de encontrar, nos amigos, namoradas e familiares os resquícios dos afetos e intimidade de antigamente. É sem malícia que eu chamo essa reconstrução precária do cotidiano de a grande piada; a saga minuciosa do repatriado é, sem dúvidas, feita com a sutileza e bom humor que geralmente encontramos nos cronistas. Elejo, entre várias possíveis, a cena em que Danny lembra e descreve seu coup de foudre, o arrebatamento amoroso, de vinte anos atrás, por Antoinette, hoje esposa de seu antigo melhor amigo. É uma passagem bem bonita:

Como se pode ficar com ciúmes de seu melhor amigo? Sim, quando se trata da mulher dos nossos vinte anos. Mas hoje meus vinte anos têm vinte anos. E ela está lá, como na primeira vez que eu a vi sob a chuva. Era um jogo entre o velho Racing Club e a Águia Negra, e nós estávamos os quatro sentados na arquibancada do estádio Sylvio-Cator quando começou a chover canivetes. Isso nos deixou como loucos. A gente gritava. A gente urrava. O jogo seguia apesar do fato de o terreno ter ficado visivelmente impraticável. Um enorme lago cheio de patos. Os jogadores cobertos de lama. E nós na arquibancada não parávamos de berrar. Eu tirei a camisa e o grupo seguiu meu gesto. Em um dado momento, eu me virei e a vi. Como eu nunca a tinha visto até então. Como eu nunca mais veria uma mulher. Ela estava lá em seu vestido amarelo. Estávamos em abril.  Tudo estava perfeito. Eu não podia tirar meu olhar dela. Esses olhos. Essa boca. Esse peito. Eu estava com a cabeça vazia. Eu não conseguia olhar além. Senhor, eu pensei, eu vou perder a cabeça. E eu a perdi.

.: Os capítulos referentes à vida cotidiana de Vieux Os se alteram com os dedicados à investigação que Danny faz junto a cientistas, políticos, autoridades, militares, cidadãos sobre o espírito haitiano e a condição dos mortos-vivos no país – pois, como eu disse, o livro é também sobre eles. Assim, aquilo que o romance teria de mais debochado e fantástico constitui, na verdade, sua leitura de uma história nacional violenta e absurda. Pays sans chapeau é livro de zumbi, mas não exatamente do jeito que a ficção científica, com seus filmes, seriados, livros e HQs tem tratado. Não há uma explicação pontual, nem um acidente nuclear, maldição ou um histórico de epidemia a ser narrado, não há ameaça nem comportamento canibal, uns relatos dizem que são mortos que foram acordados para formar um exército barato e obediente em tempos de guerra, outros dizem que são pessoas que não puderam abandonar o mundo dos mortais porque é preciso ganhar a vida, mesmo quando ela já está perdida. O zumbi de Pays sans chapeau flana no mundo dos vivos, é uma criatura faminta, insistente, quase poética, quase cômica, trabalha no setor informal, é um estorvo terceiro-mundista, mas não se engane, é um zumbi.

.: Com bastante frequência e até um pouco (mas só um pouco) de razão, a crítica pega atalhos no entendimento desse romance e o considera um elogio ao folclore local e ao pensamento mágico e, como antagonismo simétrico imediato, uma afronta à racionalidade ocidental e materialista. O olhar preguiçoso e demagógico sobre o nativo costuma não ver muito além disso mesmo, o exótico, o irracional, o primordial e desconsidera toda dimensão política de suas demandas e especificidades na mesma valsa em que ignora o comprometimento social que pode ter uma narrativa moderna que bebe das águas da tradição oral e mítica.
É verdade que o morto-vivo figura diversas lendas haitianas e propõe questões transcendentais como os limites entre a morte e a vida, a confluência entre passado e futuro; porém, para um conjunto de obras contemporâneas – nas Antilhas como nos países africanos de expressão portuguesa – o zumbi tem assumido, por sua marginalidade sócio-política reformatada em condição fisiológica, um não-lugar que precisava mesmo ser reclamado e discutido. Ali, no país sem chapéu, não há nada senão uma espécie de presente expandido: não há passado nem futuro, não há perspectivas nem perdas, se todas as coisas estão fixadas em sua condição. O zumbi do Laferrière é esta criatura que, presa ao conceito que a resume, não precisa de absolutamente nada senão continuar existindo tangencialmente, interferindo de leve nas cidades dos vivos, apenas para tirar o mínimo para si.

.: Lembrei desse zumbi haitiano peculiar esta noite, quando vi minha timeline se indignar com um petista (um dos raros, tenho certeza) pouco familiarizado com a situação das comunidades indígenas do Xingu e esquecido de uns dois ou dezoito preceitos dos Direitos Humanos que, para defender a construção de Belo Monte, dizia que os índios são nômades e que sequer perceberiam que a usina foi feita (sic). Lembrei, na verdade, de uma passagem do livro em que Danny conversa com um vizinho e este conta que Neil Armstrong, quando esteve na lua, encontrou lá um haitiano faceiro a lhe pedir um cigarro. Diante da incredulidade de Danny, o vizinho explica que a história foi abafada pela NASA e pelo governo dos Estados Unidos para que John Kennedy pudesse se reeleger. A explicação, em suma, era de que os haitianos foram os primeiros a pisar na lua pois estão sempre em vários lugares ao mesmo tempo, viajando espiritualmente, desprendidos das condições materiais e de seus corpos.
Me ocorreu, sei lá, perguntar se não podem os índios brasileiros povoar a lua e deixar o Xingu pros vivos desfrutarem.

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Uma resposta

  1. Tenho lido teu blog e adorado. Mas lendo pela primeira vez esse post mais antigo, tenho agora que comentar! Valeu pelo texto. Fantástico. Zumbis são, sem dúvida, personagens que se prestam a explorações muito interessantes, uma das razões sendo justamente o fato desse grupo informe, sem pensamento ou nuance, servir tão bem para representar os grupos que na nossa cabeça preconceituosa são exatamente iguais a Zumbis (índios, etc.). Como alguém que gosta de todo tipo de coisa zumbificada, posso dizer que o texto do Laferrière é uma das coisas mais interessantes envolvendo o tema em tempos recentes. Pena que, como você mostra muito bem, às vezes o trabalho dele tenha caído nas mãos de alguns dos grupos mais reacionários e xenofóbicos que conheço: os intelectuais e críticos (bando de Zumbis…). Obrigado por trazê-lo de volta ao mundo interessante dos vivos!

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