“ela não me representa”

.: Eu comecei uma comparação entre os movimentos negro, gay e feminista e não terminei; ficou faltando dizer que eu suspeito que a relação mais bem resolvida entre os dois primeiros e as representações dos corpos nos veículos de comunicação de massa se deve ao fato de os conceitos de negritude e homossexualidade estarem melhor lapidados que o de “feminilidade” para as respectivas militâncias. Esses conceitos, negritude e homossexualidade, desdobram-se em políticas afirmativas e discursos positivos que não deixam, por sua vez, que o ódio e o preconceito contaminem, esgotem ou imobilizem os conceitos fundamentais da causa, ou seja, as próprias negritude e homossexualidade. Na prática, o orgulho negro, o orgulho gay, as paradas, os beijaços, a demanda por cotas e direitos civis, são faces de movimentos que encaram as agressões como elas devem ser encaradas: como episódios lamentáveis e decorrentes do preconceito, e não como contrapartida da existência da negritude ou da homossexualidade. Isso explicaria por que, mesmo com tantos casos de violência contra gays na Paulista, não ouvimos e provavelmente nunca ouviremos um defensor GLBT sugerir que os gays evitem andar na Paulista numa certa hora, ou de mãos dadas, ou que deixem de dar pinta. Igualmente, nunca ouviríamos que os negros devem ser menos negros ou tomar cuidado para não agirem como estereótipos de negros; falas assim, quando não absurdas, já são claramente percebidas como carregadas de homofobia e racismo.

.: O corpo que os movimentos GLBT e negro visam proteger, afinal, é um corpo que ama e trepa com pessoas do mesmo sexo e não se conforma com as regras de gênero, (ou) é um corpo com pele escura e cabelos crespos; não há preconceito que consiga impregnar esse corpo a ponto de torná-lo irremediável e previamente vulnerável, e, mais do que isso, não há violência que modifique os conceitos mesmo de negritude e homossexualidade a ponto de participar de sua constituição. É nesse sentido que eu quero dizer que negritude e homossexualidade, elaboradas como estão nos discursos da militância que trabalha em sua defesa, seguem apartadas dos preconceitos que procuram minar e inibi-las; diferente do que faz certo tipo de feminismo que absorve cada episódio de violência contra a mulher, reitera a universalidade da condição desgraçada, da vulnerabilidade, da falta de possibilidades. Pra esse feminismo, o corpo a ser protegido e defendido é um corpo atrelado às potenciais violências, agressões, ameaças, é um corpo que, sob o menor descuido, se vê desumanizado e transformado em objeto, em receptor dos desejos alheios. Assim, quando uma musa como Scarlett tem suas fotos nuas hackeadas, logo aparecem textos e mais textos de mulheres se solidarizando e partilhando da angústia de ter sua privacidade invadida, pois na dor de ser mulher à mercê da sexualidade predatória somos todas irmãs. Quando Gisele, musa do mesmo porte de Scarlett, aparece na tv de lingerie seduzindo o marido, a primeira (e pra muitos, única) hipótese aventada é que aquela é uma situação de submissão e que, no mais, “ela não me representa“, “eu não tenho nada a ver com essa mulher“. Todas somos Scarlett se ferrando, nenhuma somos Gisele seduzindo. A receptividade desse feminismo diante de situações ligadas à feminilidade oscila, portanto; determinados aspectos e comportamentos simplesmente parecem negativos e são rejeitados quando reproduzidos em comerciais, ou novelas, etc. Estes aspectos, não raramente, estão ligados ao exercício da sexualidade, à beleza, à sensualidade – posto que este é o campo no qual, ainda segundo esse tipo de feminismo, a mulher está em desvantagem e sob ameaça de “objetificação” e violências.

.: Que a violência contra uma mulher incomode a todas é algo desejado e benéfico; os agressores saberão, cada vez mais, que seus atos não passam despercebidos e impunes. Mas a relação desse feminismo com a violência é de tal forma mal resolvida que, tomemos por exemplo, mesmo num evento que se dizia afirmativo da sexualidade feminina – sim, a Marcha das Vadias – podia-se notar, aqui e ali, cartazes pedindo para “não sermos tratadas como pedaço de carne“, ou “mulheres têm medo de usar saia” (e olha, eu nunca conheci uma biscate que tivesse medo de usar saia, muito pelo contrário). Enfim. Eu acho que o interessante é manter a violência contra a mulher no mesmo âmbito em que racismo e homofobia são mantidos pelos movimentos afirmativos: perto o bastante para serem denunciados, desconstruídos, questionados, combatidos, mas longe o suficiente para não integrarem o próprio conceito que se quer promover, o corpo que se quer libertar.

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5 Respostas

  1. Oi, Aline.
    Nossa, eu NUNCA pensei por esse ângulo!… nem nunca li ou ouvi uma colocação dessas. Muito interessante!
    Beijos,
    Olhar

  2. Pequeno elogio:

    Você sabe que um texto de internet é bom quando compartilha ele no facebook e as pessoas se diagladiam nos seus comentários também.

    Pequeno desabafo:

    Às vezes é muito difícil para mim que seus textos sejam os melhores. Em momento nenhum retiro que eles são necessários, e reitero que mecenas eu fosse, produção industrial eu cobraria. Entretanto, tem uma coisa na linguagem dos seus textos, tem uma linguagem que sempre foi a linguagem do meu oponente, e como me dói.

    Não que eu devesse aqui, mas eu sempre encarei — e na maioria das vezes corretamente — o hiperfoco na linguagem como obscurecedor de outras relações. Mas isso é detalhe, acho que o que dói mesmo é o desgaste de uma linha com a qual eu me identifico mais pela incapacidade de seus membros de desconfiar dos próprios pressupostos. É triste ver como um pensamento que deve muito a um método que queria estudar o mundo em movimento se tornar tão fixo quanto os pensamentos que esse método queria combater.

  3. E quem disse que nos movimentos negro e gay não há um “ela não me representa”. Ou os quadros do zorra total representam os gays tal qual são. O problema da Gisele não é a exposição da sexualidade: é a sexualidade para o Outro e nunca para si. Há um erro sim no movimento feminista: querer eliminar o aspecto erótico da mulher em confusão com tomar a sexualidade para si.

    • Tá, agora li o texto anterior…

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