Nada a dizer, de Elvira Vigna

Prezada Elvira,

Devo dizer que se soubesse que você leria meu post, certamente eu o teria baseado mais nas minhas impressões do seu livro e menos na obra de Sophie Calle, e não o contrário. Não cogitava fazer um comentário mais demorado e cuidadoso do Nada a dizer, mas sua passagem aqui no blog muda um pouco as coisas.

Por isso, começo este post agradecendo a honra de sua visita.

atenciosamente,
aline

.: Nada a dizer é um romance de leitura fácil, fluente, agradável. O texto, em seu ritmo e concatenação, tem uma qualidade inegável e torna a narrativa um bom objeto de análise e conversa.
Quando comparo com Prenez soin de vous, da Sophie Calle, faço isso consciente das diferenças que separam uma obra e outra, diferenças que começam nas linguagens adotadas, nos percursos escolhidos, na execução toda e terminam em pontos como esse que a autora levantou, de não ter havido propriamente um abandono no romance. De fato. Traição é uma coisa, abandono é outra. Contudo, nossa narradora, traída e magoada, muitas vezes experimenta e relata algo como um abandono emocional, e esta solidão inesperada, a perda da confiança e da imagem positiva de unidade do casal, a aproximam, na minha opinião, da figura que Sophia Calle projeta de si mesma com o seu Prenez soin de vous.
Para que fique claro, o que eu vejo nessa figura projetada de Sophie Calle é aquela da mulher de meia idade cujos investimentos emocionais se vêem frustrados pelo companheiro, por um motivo qualquer – mas geralmente outra mulher, quase sempre mais jovem – e que desenvolve, a partir do fracasso da relação, um discurso que, compadecendo e ironizando a si mesma, fere mais contudentemente a imagem do homem que a magoou. Assim, quando digo que o consolo da mulher abandonada é afirmar sua superioridade moral, não estou contando apenas ou necessariamente com uma fala consciente, deliberada e valorativa da mesma, mas com a manutenção de um lugar culturalmente constituído e reservado a todas as boas mulheres, as mães de família, as fiéis, as companheiras e apoiadoras que, eventualmente, são confrontadas com “a ideologia atual” e as complicações dos relacionamentos modernos.

Enganada, traída, largada para trás, igual a qualquer outra. Rá, rá. No olhar dos outros, inscrito o que minha mãe chamaria de destino de mulher. Nasceu com boceta? Vai ser enganada. Traída, humilhada. E o melhor é não ligar, minha filha. Levante o nariz e siga em frente. (p. 140-141)

.: O grau de complexidade e sofisticação da narradora de Nada a dizer permite que a traição desencadeie um processo reflexivo que, entre avanços e recuos, busca, perde, recolhe os pedaços e consolida sua própria voz e subjetividade, na contramão de Sophie Calle, que se omite e empresta das outras mulheres as interpretações e conclusões de seu pequeno drama pessoal. Nada disso impede, todavia, que a elaboração da narradora ganhe tons moralistas e erga o altar do martírio e ascenção da mulher traída, pois a contrapartida dessa figura batida é outra figura, também batida: a do homem superficial.
A inércia de Paulo, marido da narradora, beirando a incapacidade de comprometer-se e importar-se com as emoções alheias, aliás, beirando a incapacidade de ter amores genuínos, pra mim, é um dos traços marcantes do romance. Quando leio que Paulo trepa com N. (e com as prostitutas) sem um motivo ou interesse específico, mas apenas “porque podia” (“Mas eu continuava sem entender como ele podia meter o pau dele em qualquer buraco só porque podia. Não porque queria. Mas porque podia. (…) Assim simples. Assim capitalista. Assim quanto-mais-melhor. Assim burro” p. 106), entendo que a mediação dele com o mundo se dá num espaço negativo que  não comporta paixões, mas contingências dos papéis de classe econômica e, principalmente, de gênero. E quando a narradora, estarrecida, conta que ele leva a amante para o mesmo motel que costumavam frequentar juntos sem, contudo, lembra-se dela, eu percebo sinais que revelam, como tenho tentado dizer, um conjunto de pressupostos que determinam as dinâmicas de um casal convencional, uma modalidade conservadora de amor.

.: O antagonismo entre a esposa e a amante, ainda mais necessário na equação que eu aponto,  é conduzido, naturalmente, pela mesma mão. N., a mulher sem nome próprio, a amante jovem, gulosa, corpulenta, consumista, frívola, dissimulada, expansiva e invasiva, é uma configuração tão batida quanto a do marido infiel e superficial e a esposa ferida; ela é um corpo estranho num mundo de estabilidade aparente, herdeira imérita de conquistas políticas e culturais da geração anterior. Para uma orgulhosa sobrevivente de tempos de ditadura e normas comportamentais rígidas, a fatura que a narradora cobra da amante é até bem alta:

Vinte anos mais moça que eu e Paulo, N. se movia muito segura de si, satisfeita consigo mesma, sem questionamentos políticos ou sociais de tipo algum. Cumulativa. (…) Trepar com quem quiséssemos seria, para mim e para Paulo, sempre uma liberdade que nos orgulhávamos de ter, por tê-la conquistado arduamente. Temos com o assunto a cerimônia que dedicamos às coisas que não vêm de graça. (…) E N. não tem nossa biografia. Trepar para ela é corriqueiro, não é coisa que mereça rituais ou excepcionalidades. Ela não assume os riscos, se protege, se pergunta O que tem aí pra mim? (p. 42)

Essa postura possessiva dos direitos e conquistas, ressentida das gerações posteriores, amarra-se numa concepção de sexo que contradiz a anteriormente anunciada defesa da liberdade sexual. A relação da narradora com a sexualidade de modo geral é problemática, predisposta e submetida a obrigações de ordem afetiva, política, de consciência. Isso, francamente, nem é um problema em si. Personagens contraditórios, imperfeitos, perversos até, podem ser grandes personagens. A questão é que eu não acho que estou diante de um personagem assumidamente incongruente, eu acho que a narradora é pura e simplesmente a porta-bandeira de um discurso alienante e moralista, mas consolidado e vigente na nossa sociedade, e que o usa para articular uma narrativa sem lacunas, problematizações, desconstruções. Quero dizer, lacunas, problematizações e desconstruções há, mas todas se dão num nível mais imediato, psicológico, auto-analítico, pretensamente amoral, de uma individualidade que, no fim das contas, se debate sozinha contra a possibilidade de ser um clichê – talvez, ironicamente, seu movimento mais ousado, sua camada mais profunda.

Paulo fez o teste de HIV. Depois mostrou, condescendente. Li em seu rosto que ele achava que me fazia bem eu considerar N. uma mulher promíscua. Que eu, a esposa traída de meia-idade, me sentiria melhor se ele não refutasse a hipótese de sua amante ser uma puta. Eu afundava, mais e mais, em estereótipos, e Paulo continuava a me ajudar para que assim fosse. Agora, eu era a mulher merda, banal, medíocre, imbecil que tinha sido traída. E era também a a mulher merda, banal, medíocre, imbecil que tinha a reação típica de todas as mulheres merdas, banais, medíocres, imbecis ao serem traídas: pedir teste de HIV. (p. 110-111)

Assim, o que há de conflituoso na narradora se concentra no fato de que suas expectativas, história e representações de amor não comportam uma experiência sexual e extra-conjugal de seu marido, e que em decorrência disso, ela tem meios e respaldo para elaborar uma narrativa que, sob pretexto de entender e reformular a si própria, logra mais em desconstruir a imagem do marido e da amante e naturalizar, um pouco mais, um modelo de entrega afetiva e sexual minimamente descendente do matrimônio, da monogamia, da ausência de fronteiras entre os membros de um casal.

como alguém pode achar que uma experiência forte, como a de um relacionamento sexual-amoroso, não modifica seus participantes diretos e não afasta deles os que dele são excluídos. Meu relacionamento com Paulo sempre foi exclusivo. (…) Mas ainda que não fosse. Como achar que, se eu trepo com fulano, o beltrano, com quem eu também trepo, não terá sua presença modificada na minha vida pelo simples fato de eu ter vivido uma experiência forte que o excluiu. (p. 114)

.: Eu disse “pretensamente amoral” porque não acredito que um registro literário, porque psicologizado, consiga ser neutro quanto a questões morais. Como todo discurso, aqui estão implicadas escolhas estéticas que, mais ou menos explicitamente, configuram uma visão de mundo. Minha leitura, como eu disse desde o começo, é que essa visão de mundo está pautada – e também engendra, convicta – num tipo psicológico já estabelecido no acervo destes nossos dias: a mulher de meia idade, intelectual, traída, afetivamente frustrada, cujo consolo é afirmar, direta ou indiretamente, sua superioridade moral em relação ao marido canalha e à amante hedonista. À amante, principalmente.

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17 Respostas

  1. Aline,
    Gosto muito do blog e venho sempre aqui. Suas análises são profundas e bem fundamentadas, sem serem chatas nem pedantes. Escreva mais, e escreva sempre! Um abraço!

    • fico feliz em saber. muito obrigada :)

      beijo

  2. Off tpopci total.
    Aline, você lê o Xico Sá? Enfim, queria saber sua opinião disso: http://xicosa.folha.blog.uol.com.br/arch2011-09-04_2011-09-10.html

    bjs
    M

    • eu o conheço, mas não leio muito não, só qdo alguém compartilha alguma coisa dele no reader etc.
      eu acho que isso que ele descreve nessa crônica é tipo o pão com ovo dos relacionamentos, é “material” de stand-up, daqueles que só querem a camada mais superficial pra poder fazer piada em cima.
      um cara que desaparece da vida de uma mulher, que foge dela mesmo, porque “prevê” que ela vai querer namorar, casar… esse cara é tonto. agora, a mulher que separa os homens entre “frouxos” e “cafajestes” , sendo que a diferença entre eles é que um mente e promete uma relação duradoura e o outro não, bem… essa tbm é meio tonta ;)

      bjos

  3. aline:
    tentarei ser tão precisa quanto você.
    diz você: Nada disso impede, todavia, que a elaboração da narradora ganhe tons moralistas e erga o altar do martírio e ascenção da mulher traída, pois a contrapartida dessa figura batida é outra figura, também batida: a do homem superficial.
    digo eu: a respeito do ‘martírio’:
    tua ironia, com o sintagma religioso, fica deslocada. a personagem narradora ri de si mesma, não se vê como martirizada.
    a respeito da ‘ascenção’:
    não há. ela reconhece a necessidade de mudança. não se eleva de jeito algum. pelo contrário, admite que o melhor lugar é um quarto de hóspede, temporário como tudo mais.

    diz você: E quando a narradora, estarrecida, conta que ele leva a amante para o mesmo motel que costumavam frequentar juntos sem, contudo, lembra-se dela, eu percebo sinais que revelam, como tenho tentado dizer, um conjunto de pressupostos que determinam as dinâmicas de um casal convencional, uma modalidade conservadora de amor.

    digo eu: o pressuposto, que vale para qualquer relacionamento, é o de confiança.
    não é preciso ser um ‘casal convencional’.
    aliás, não precisaria sequer ser um casal.
    lugares especiais também ocorrem entre amigos, pais e filhos.
    levar outras pessoas – e escondido – significaria, em qualquer dessas circunstâncias, uma sensação de alijamento por parte de quem não foi.

    diz você:O antagonismo entre a esposa e a amante, ainda mais necessário na equação que eu aponto, é conduzido, naturalmente, pela mesma mão. (…)ela é um corpo estranho num mundo de estabilidade aparente, herdeira imérita de conquistas políticas e culturais da geração anterior.

    digo eu: não,não é. ela também é casada, não se esqueça. e preza o casamento de forma bem clara, escondendo-se para não ser desmascarada, encontrando-se com o amante apenas dentro da quatro paredes. não, você está totalmente errada. não há nada que a amante mais preza do que sua, sua dela, ‘estabilidade aparente’.
    e sim, ela é ‘herdeira imérita de conquistas politicas e culturais da geração anterior’. é imérita porque mente, porque arma uma rede de fraudes e enganos, contra o que a geração da narradora lutou para destruir.

    diz você: Essa postura possessiva dos direitos e conquistas, ressentida das gerações posteriores, amarra-se numa concepção de sexo que contradiz a anteriormente anunciada defesa da liberdade sexual. A relação da narradora com a sexualidade de modo geral é problemática, predisposta e submetida a obrigações de ordem afetiva, política, de consciência.

    digo eu: você está errada outra vez. não há posse. há um acordo, que pode ser rompido a qualquer momento por qualquer um dos acordantes. se paulo deseja trepar com outras mulheres, é só dizer.
    posse nenhuma, aline.
    o que ele não pode é decidir, além da vida dele, a vida da narradora.
    se ele deseja a liberdade de trepar com outras mulheres, precisa avisar.
    para que ela, a narradora, também possa decidir sua vida.
    se continua com ele, se vai embora.
    que posse?
    justamente por não haver posse não há motivo para mentira.
    quer? fica.
    não quer? vai embora.
    o que vale para todos.

    diz você: A questão é que eu não acho que estou diante de um personagem assumidamente incongruente, eu acho que a narradora é pura e simplesmente a porta-bandeira de um discurso alienante e moralista, mas consolidado e vigente na nossa sociedade, e que o usa para articular uma narrativa sem lacunas, problematizações, desconstruções. Quero dizer, lacunas, problematizações e desconstruções há, mas todas se dão num nível mais imediato, psicológico, auto-analítico, pretensamente amoral, de uma individualidade que, no fim das contas, se debate sozinha contra a possibilidade de ser um clichê – talvez, ironicamente, seu movimento mais ousado, sua camada mais profunda.

    digo eu: a personagem ‘porta-bandeira de um discurso alienante e moralista’, aline, é paulo e sua amante. são os dois que armam um esquema profundamente reacionário porque pretendem continuar casados. se o que desejam é trepar um com o outro e continuar casados precisam negociar isso com seus respectivos cônjuges. o que é ‘consolidade e vigente na nossa sociedade’ é pegar o atalho mais fácil, evitar o confronto, tentar obter tudo sem precisar escolher. não vejo isso como um problema dos dois personagens, alias, vejo como um problema da infantilização da nossa cultura.

    diz você: Assim, o que há de conflituoso na narradora se concentra no fato de que suas expectativas, história e representações de amor não comportam uma experiência sexual e extra-conjugal de seu marido, e que em decorrência disso, ela tem meios e respaldo para elaborar uma narrativa que, sob pretexto de entender e reformular a si própria, logra mais em desconstruir a imagem do marido e da amante e naturalizar, um pouco mais, um modelo de entrega afetiva e sexual minimamente descendente do matrimônio, da monogamia, da ausência de fronteiras entre os membros de um casal.

    digo eu: é verdade. a narradora se conflita porque ‘suas expectativas, história e representações’ não só do amor, mas da confiança mútua entre pessoas não comportam uma experiência sexual e extra-conjugal do marido que não seja aberta, dita. caso tal experiência acontecesse e fosse anunciada claramente, não haveria o conflito. poderia haver escolhas, mas não conflitos.

    diz você: Eu disse “pretensamente amoral” porque não acredito que um registro literário, porque psicologizado, consiga ser neutro quanto a questões morais. Como todo discurso, aqui estão implicadas escolhas estéticas que, mais ou menos explicitamente, configuram uma visão de mundo. Minha leitura, como eu disse desde o começo, é que essa visão de mundo está pautada – e também engendra, convicta – num tipo psicológico já estabelecido no acervo destes nossos dias: a mulher de meia idade, intelectual, traída, afetivamente frustrada, cujo consolo é afirmar, direta ou indiretamente, sua superioridade moral em relação ao marido canalha e à amante hedonista. À amante, principalmente.

    digo eu: aline, aqui eu fico achando que você está tão empenhada em manter uma posição prévia, que sequer conseguiu ler o livro direito. a narradora não é frustrada nem afetiva nem sexualmente. pelo contrário. e seu consolo é trepar mais e mais com o homem de quem ela gosta, e afirma aliás, textualmente, que gosta. assim como ele a ela.

    • Prezada Elvira

      Tentadora a ideia de debater sobre o quão reacionário pode ser um caso extraconjugal porque os amantes querem, além de trepar um com o outro, manter seu casamento. Tentadora porque eu me veria, afinal, na posição engraçada de dizer que, felizmente, superamos alguns binarismos estabelecidos em 68 e, hoje, querer preservar um casamento (apesar de ter um ou vários relacionamentos extraconjugais) não implica, necessariamente, num esquema “profundamente reacionário”. E que se este é o caso, como talvez seja, é porque amante e marido são personagens estereotipados, adequados à ideia comumente concebida do marido acomodado e infiel e da amante oportunista. Então eu não vou ficar girando em círculos por aqui.

      Talvez eu tenha comprado um exemplar defeituoso de Nada a dizer, pois faltou nele o anexo com a explicação da autora para que os leitores “consigam ler direito” o romance, sem contaminação de nenhuma “posição prévia”. Mas em faltando o anexo explicativo, é de muita eficiência esse serviço de Interpretare Letteratura Personalité que vc oferece àqueles que se propõem a escrever “errado” sobre seu livro.

      Atenciosamente,

    • Na verdade, eu acho que o livro não merece essas análises todas. É um livro fraco.

  4. bem, aline, aqui me despeço. sua agressividade me confirma um medo, a de que você estivesse desde o começo defendendo uma posição pessoal em vez de ler um texto – o que supõe uma abertura. ciau.

    • Elvira

      Definitivamente, seu forte não é psicologia.

      Abraço =)

  5. será q é um romance autobiográfico?

    • Não sei, e não me importo. Se o romance é publicado como ficção, como ficção o tratarei. Esse negócio de cavar, no autor como no leitor/crítico, motivos pessoais pra dizer isso ou aquilo numa obra, ou sobre uma obra, é besteira, infantilidade mesmo.

      • ok. eu tb gostaria de saber como vc refutaria os argumentos que a elvira vigna apresentou… se isso não te deixar irritada claro.

        • Antonio

          Eu poderia, naturalmente, continuar a conversa e responder aos argumentos dela. não o fiz por dois motivos:

          1) meu interesse em discutir a validade das escolhas das personagens é relativo. não quero discutir seu caráter, como se fossem pessoas reais, atuando e vivendo no mundo real. Vou provavelmente concordar com ela de que o esquema do marido e da amante é um esquema reacionário e careta, mas veja, o resultado disso não é uma obra revolucionária e inovadora, meu ponto é praticamente todo esse: a estereotipação deles ou é fruto de uma narradora enciumada, frustrada, vingativa (o que poderia ser interessante, mas da maneira como esta narrativa está arranjada, não ficou muito, não), ou é fruto de uma autora que projetou seus personagens assim, uma narradora completamente ciente e superior, diante de dois personagens que, não apenas são rasos e conservadores, figuram uma crítica prepotente ao comportamento de uma geração, de um tempo. Toda minha questão está na construção da voz narrativa, que pode ser brilhante quando feita através de um personagem imperfeito, que deixa escapar suas lacunas em seu discurso – meu exemplo preferido é dom casmurro. Minha impressão é que a narradora é um clichê na mesma medida em que seu marido e a amante, apenas um clichê com mais voz e um pouco mais de complexidade, mas apenas o suficiente pra que uma postura moral seja elogiada e outra veementemente recusada.
          Eu tbm sustentaria que a amante é, sim, um corpo estranho numa aparente estabilidade pq ela, no triângulo amoroso que se forma, é e será N. a amante, o terceiro elemento. consideralá-la inexoravelmente como uma mulher casada é reforçar que o status social está acima da subjetividade da personagem, o que torna, portanto, a narrativa mais problemática. E há, na verdade, um esforço da narradora pra dizer que N. só quer o status, um substituto pro marido, aliás, a narradora deixa a sugestão de que N. pode ter matado o marido. De novo, seria mais interessante se N. não fosse considerada apenas uma caça-marido, “herdeira imérita da liberdade sexual”, e que suas experiências extraconjugais fossem tomadas em si. Ela, como amante, tem seus desejos e especificidades que nem a narradora deveria ou poderia alcançar – mas como ela é um clichê, a Elvira vem que me dizer que mesmo quando é amante, N. é uma esposa conservadora e reacionária. Então fica difícil tentar achar profundidade aí.

          2) Meu limite pra debate está ali onde meu interlocutor questiona minha capacidade intelectual de lidar com o objeto. Em outras palavras, a Elvira é bem-vinda pra vir e questionar e avaliar como “errada” minha leitura – por mais descortês que isso seja da parte dela – mas não me disponho a conversar com quem diz que minhas posições prévias me impedem de “sequer ler o romance direito”. Eu não deduzi nenhuma inclinação ou paixão prévia da autora para defender com tanto afinco sua narradora. Minhas observações, pq é assim que eu lido com literatura, estão voltadas única e exclusivamente às questões narrativas, de construção de personagem, de escolhas estéticas. Jamais procurarei cavar motivações pessoais de um autor, sobretudo numa obra que acuso de moralista. Em suma: por não querer defender minhas convicções quando meu assunto era literatura, achei melhor não me alongar.

          Não que eu tenha me irritado. Recebi comentários anônimos, que apaguei sem hesitar, me chamando de grossa, reacionária e equivocada no entendimento da obra. Certamente não sou eu quem está irritada :)

        • O que é curioso nessa discussão toda é que a autora queira ensinar como é que o leitor deve ler o livro dela! Já pensou o Machado falando, ó, a Capitu não traiu não, isso é leitura machista. Quem lê assim tá errado. Ou então, é claro que traiu, os sinais tão todos lá, lê direito…

          Então, essa postura de o autor ensinar a ler o livro, é meio ridícula. Já é meio ridícula quando é um crítico literário. Quando é o autor, pior ainda.

        • “lê direito” é delícia né?

          teve uma gênia no tuiter que disse que é preciso ter “bom senso” pra entender esse livro. hahhahahahaha

  6. Curiosa a postura da autora, que defende a narradora como defende a si mesma; no discurso dela, ambas se confundem, e sua posição é defendida como se fosse a da verdade. Narrador em primeira pessoa não conta com onisciência… Desse jeito, invés de “Nada a dizer”, um título mais apropriado pro livro seria “Desabafo” ;)

    • vc tem razão, e é bem primário isso: a totalidade não está ao alcance de um narrador em primeira pessoa, e soa deslocado que a autora venha aqui defender, tão enfaticamente, não sua obra, mas sua personagem e a moralidade que ela – a personagem – sustenta em seu discurso.
      vai ver me falta o bom senso (também conhecido como senso comum) pra me compadecer do drama da narradora-protagonista corneada…

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