Sophie Calle

peça de Mercedes Erra, publicitária, para Sophie Calle

.: A carta do amante da Sophie Calle é tão clara e franca que a única coisa que eu não entendi naquele livro Prenez soin de vous é o que foi que a Sophie não entendeu nesse rompimento que precisasse, enfim, da intervenção de 107 mulheres “notáveis em seu talento ou profissão”. Eu achei bastante razoáveis os argumentos de G., entre os quais o principal é que Sophie havia lhe pedido para não procurar suas outras amantes enquanto estivesse com ela, que este pedido foi atendido tanto quanto ele pôde mas que a partir daquele momento já não garantia nada, então dommage, adieu mon amour. Ter um Soneto da Fidelidade por aqui ajuda um pouco, mas convenhamos que o conceito de “eterno enquanto dure” não é em nada impressionante ou inalcançável.

.: E digo mais: além de uma despedida, a carta é um longo e aberto elogio à Sophie Calle. Eu me atrevo na desconfiança de que se não fosse seu tom laudatório, tal carta nunca seria tratada como foi, esmiuçada, multiplicada, esgotada numa obra que abriu o campo para que, de um lado, o elogio à Sophie fosse publicamente anunciado e reconhecido e, de outro, o amante negligente e egoísta fosse despido. Não que a avaliação moral negativa do ex-amante seja unânime entre as 107 consultadas, mas é majoritária, coletiva, previsível, linear; parece que o triste canto da mulher abandonada cujo consolo é afirmar sua superioridade moral configura um modelo irresistível demais pra algumas*. Pra mim continua parecendo coisa de gente que lida mal, muito mal, com o amor.

*Li o Nada a dizer, da Elvira Vigna. E minhas impressões são, apartadas algumas questões formais, praticamente as mesmas.

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3 Respostas

  1. caro godot. no meu ‘nada a dizer’ a mulher não foi abandonada. o personagem paulo declara que a amante não era ‘importante’. é sobre a estratégia de se fragmentar para evitar uma entrega – o que sempre pode gerar dor – que o livro fala. vi a exposição de calle em são paulo. fiz uma crítica que concorda em parte com a tua. veja em http://aguarras.com.br/2009/07/17/sophie-calle/

  2. inclusive, godot, o livro não enfoca a questão moral. em nenhum momento é dito ‘o que é melhor’. enfoca, sim, a questão política de uma entrega, de uma conformidade, de uma subjetividade adaptada à ideologia atual.

  3. […] dizer se soubesse que você leria meu post, certamente eu o teria baseado mais nas minhas impressões do seu livro e menos na obra de Sophie […]

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