paródia não é bagunça

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.: Estou falando de coisa de 5 anos atrás. Às vésperas de um Congresso de Estudantes da universidade, umas pessoas se juntaram lá numa das salas da História pra elaborar uma tese a ser publicada no caderno de teses do referido Congresso. Todos participantes do movimento estudantil, todos de saco bastante cheio de como o movimento estudantil se organizava e insistia em métodos e discursos de sei lá, algumas décadas de idade. O título era algo como “ATENÇÃO: tudo o que está escrito neste caderno pode ser (e em muitos casos será) balela“, o teor da tese não era nada melhor do que isso. Se bem me recordo, o texto continha reivindicações estapafúrdias, obsoletas e irrelevantes para a comunidade universitária, mas sempre, em alguma medida, respaldadas por encaminhamentos e deliberações de outros congressos; no meio da tese o grupo descrevia seu racha entre “ranzinzas radicais” e “ranzinzas redimidos”, grupos com divergências inconciliáveis, mas terminava convindando todo mundo pra uma cerveja e uma conversa, depois da assembleia final. Posso atestar que a tese não foi bem recebida pelos demais congressistas, parece que teve moção de repúdio e tudo. Ou seja, sucesso.
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.: Dois anos depois, um amigo dessa mesma laia me apresenta The Yes Men. Pelo pouco que eu ouço falar deles, suponho que não sejam muito conhecidos – então o mais urgente é recomendar com entusiasmo os dois filmes (2003 e 2009), com torrent etc. Gosto mais do primeiro porque gosto de estreias, porque a primeira vez é a que fica, porque ele me arrebatou. Andy Bichlbaum e Mike Bonanno, por bons impostores que são, fazem as vezes de membros da OMC em reuniões, entrevistas, palestras e, sob essa máscara, dizem as coisas mais inadmissíveis, as mais exageradamente cruéis. De tão absurda, não me escapa a lembrança do filme Brazil sempre que vejo a cena em que Andy expõe a impassíveis representantes de multinacionais as vantagens de uma roupa cujo gadget é um sensor no reto que leva a um imenso suporte fálico com uma televisão que permite monitoramento dos empregados africanos que trabalham por centavos/dia (juro).
O título do segundo filme, The Yes Men Fix the World, anuncia a mudança tática: ainda se passando por homens poderosos, Andy e Mike desta vez invertem os sinais da equação e anunciam decisões que deveriam ser tomadas, fosse o mundo um lugar mais justo, fossem as empresas e os governos menos cínicos. Por exemplo, se passam por funcionários do governo federal e prometem às vítimas do Katrina a reabertura das moradias públicas e a construção de novos conjuntos habitacionais. Noutra ocasião, em nome da Dow Chemical, anunciam na BBC World que todas as vítimas do incêndio de Bhopal serão indenizadas com o dinheiro da venda da planta industrial – arrematando com uma dose de ansiolítico aos acionistas: “não se preocupem, vocês não terão prejuízo. apenas um pouco menos de lucro”.
Se no primeiro filme o tour de force era chegar até o limite da atrocidade sem despertar em seus “pares” nenhuma reação ou confusão, e assim extrair deles, indiretamente, um “referendum” dessa mesma atrocidade, no segundo eles obrigam que, em cada caso, as instituições desmintam publicamente a boa notícia falsa, contorcendo-se com a evidência: a não resolução, o não alívio, a não reparação são efeitos colaterais de suas ambições. Antonio Candido disse recentemente que “a face humana do capitalismo foi o socialismo que arrancou”, e isso não bastando, aplaudo os ativistas que, em sua farsa, em sua mentira, arrancam detrás do cinismo capitalista a face mais dura, a mais deslavada, que lhe é tão precisa e verdadeira.
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.: Eu acredito que a paródia, em maior ou menor grau, é sempre política: quando arremeda discursos opressores ou inadequados, quando esgota um modelo de análise, quando encontra a justa medida de exagero capaz de expor as falhas conceituais e contradições internas às causas, quando forja uma figura ridícula que, diante do abismo mais intratável, acaba por denunciar que o rei está nu – e disso ri. O simulacro da crueldade capitalista pode ser a força motriz de uma militância profundamente humanista; é mais ou menos por aí que eu sigo. A paródia, se eu fosse arriscar uma definição, é uma maneira de subverter uma lógica sem quebrar-lhe os preceitos (ao contrário, explorando-os ao máximo), e disso extrair uma possibilidade de inovação, de resistência, de alegria, inclusive.
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10 Respostas

  1. Não conhecia a dupla. Gostei principalmente da proposta do segundo filme, pois não há nada pior do que ter que desmentir boas notícias.

    Segundo eu soube, o desmentido à notícia sobre a tragédia de Bhopal foi um desastre de relações públicas para a Dow Chemical, que perdeu bilhões de dólares com a queda de suas ações.

    • talvez a proposta do segundo filme seja melhor, mesmo. mais bem amarrada, mais positiva, e causou mais danos, pelo que sei.

      esse caso da dow chemical deu nisso mesmo, as ações caíram coisa de 3 pontos em poucos minutos, perderam 2 bilhões. e a repercussão foi ótima, o rp da dow chemical disse que era crueldade dar “falsas esperanças às vítimas”, os yes men foram até a índia pra conversar com as pessoas sobre a ação deles. é muito bom.

      bjo

  2. Bom lê-la de volta, A.

    • vc é um querido, antonio =****

  3. Venho por meio desta pedir que você pare de ser genial com os assuntos dos outros, ou que publique esse último parágrafo num artigo científico em revista. Porque os inevitáveis velhos chatos da minha banca vão chiar muito quando virem a citação retirada de blog.

    • hahahaha que exagero

      (cê jura que estuda paródia? em literatura africana né?)

      • (Tou exagerandinho. Não é meu assunto, mas vou ter que falar um pouco sobre. Estive lendo Jameson e Hutcheon, e acho que vou parar por aí, senão eu faço a pesquisa só sobre paródia… A não ser que você tenha uma indicação.)

        • ai de mim!
          não sei bibliografia não, o pouco que sei sobre isso é graças um autor que eu gosto, na autobiografia ele explica como a paródia pode ser o único antídoto contra o cinismo, como ela oferece ferramentas de desconstrução e reconstrução discursiva e blá. a obra inteira dele é uma paródia, então foi mais ou menos daí que eu tirei :)

        • Tarde demais, agora eu quero o nome!!!

        • le vent paraclet, de michel tournier ;)

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