miettes

.: Paulo veio me contar que um cometa vai passar raspando pela Terra. Ele sempre usa uma tática sensacionalista pra chamar minha atenção; eu arregalo os olhos, ele ri e explica melhor. – Vai passar na altura da lua, parece. – Então é longe… – Mas pras dimensões do universo isso é passar raspando. – É. – É.
É disso pra uma conversa sobre Pioneer One, um seriado quase que feito à mão, meio caseiro, com contribuição de fã, numa vibe o seriado mais bonito da cidade.  É sobre um satélite russo que estava em órbita desde a Guerra Fria e volta pra Terra, e dentro tem um cara, o único humano que nasceu fora do planeta. Mas um humano, ainda assim. Todo doente, morrendo. Esse tipo de coisa comove o Paulo, o que eu acho fofo. Invertemos tudo, agora eu falo coisas grandiosas chupinhando a introdução daquele livro da Hanna Arendt, que ele não leu, Paulo arregala os olhos, fica impressionado com o que eu digo mas eu continuo falando como se não notasse.
É disso pra olhar o relógio e constatar que já é tarde. – É. – É, bora dormir.

.: Meses atrás um amigo me escreveu pra dizer que a mulher dele estava grávida, mas a situação era muito delicada porque o “feijãozinho”, como ele dizia, não tava querendo ficar no lugar certinho e tudo estava por um fio.  Ele disse também, naquela época de incertezas, que
“Não temos nenhum sentimento de paternidade ainda, apesar de a Tel achar que é um menino, e se assim for, o nome será Antonio, talvez até Antonio Eto, um nome africano para o garoto ter uma força extra para enfrentar o mundo”

Felizmente o feijãozinho vingou, e nasceu sábado passado, e chama mesmo Antonio Eto (essa ideia da força do nome africano me deixou comovida por dias). Os esforços agora estão concentrados em influenciar o máximo possível na escolha do time de coração do moleque, o que vai ser bem difícil se o Neymar e o Ganso continuarem no time do coração do meu amigo.

.: Essas coisas todas estavam na minha cabeça quando eu escrevi o post anterior. Tem tanto amor, tanta vontade e aceitação envolvendo uma gravidez desejada, é tudo tão bonito e assustador, que me aborrece deveras pensar em quanta confusão e infelicidade são criadas quando as pessoas falam, levianamente, sobre gestação e aborto. Eu penso, também, que antes mesmo de comparar aborto e assassinato, há um equívoco em se comparar uma gravidez desejada com uma indesejada. Faz toda a diferença você estar aberto e disposto a dizer sim pra continuidade, pra descendência, pra gestação. Nós deveríamos ser capazes de perceber isso e deixar que as pessoas adultas façam suas escolhas na vida e seu melhor possível na manutenção da espécie – participando dela ou não.

.: Esqueci de comentar que eu escrevi para o projeto 3meia5. Saiu um post meio triste, num dia meio estranho. Foge um pouco do tom habitual daqui do blog, mas não renegarei nenhum texto meu, nem mesmo um fatalista.

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6 Respostas

  1. A gente não é feita só de carne, né? Somos feitas de todas as expectativas que antecederam o nosso nascimento, todas as condições, todo afeto, toda a subjetividade. Que funciona de maneira diferente não só na gravidez indesejada x desejada, mas de acordo com o momento vivido, como transcorre a gestação, o parto. Eu sei que não é científico isso, mas acho interessante essa coisa da mulher que esconde a gravidez e a barriga não crescer tanto. Uma prima do meu marido descobriu que estava grávida com 4 meses e meio já. Magrinha e não tinha nada de barriga. É como se não houvesse mesmo espaço físico pra gravidez. Daí descobre, lida com a situação (não planejada, mas bem recebida depois de alguma reflexão) e duas semanas depois tá lá o barrigão. E nas que planejam, às vezes com 2 meses já tá lá a barriguinha. Porque tá gestando todo um projeto, que muitas vezes começou muito antes do exame dar positivo. Completamente diferente de quem não pode ou não quer, eu imagino.

    • eu penso isso também, que a os pais “criam” um espaço no mundo pro filho que vai vir, e que nesse trabalho a vida dele vai adquirindo sentido, consistência, possibilidade. e isso nenhuma lei pode obrigar.

  2. Curiosidade: pq miettes?

    • miettes é “migalhas” em francês, é uma palavra que eu gosto, acho a sonoridade bonita. e tbm pq são posts com vários temas, observações curtas… migalhinhas de posts reunidas num só.
      por isso :)

  3. conheci um homem que tava de passagem por aqui e em uma semana nesse país rodou por mais canto do que muito brasileiro em vida. daí ele voltou pra casa dele na europa – não sem antes dar um pulinho em montreal – só pra seguir caminho; falei com ele nem duas semanas depois de vê-lo e ele estava em moscou, indo pra singapura, voltando da coreia. acho que pra ele passou raspando mesmo, esse cometa…

  4. que bonito esse post. eu deveria vir mais aqui :)

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