espaguete e hidrogênio

“Meu argumento sempre foi o de que é a natureza que nos dá o corpo, que implantou o poder da fertilidade nos corpos. Nascemos num mundo e nos tornamos cidadãos quando nascemos. O Estado não tem controle sobre o meu corpo. Ao mesmo tempo aceito o argumento da direita de que aborto é assassinato. Eu digo, sim. Pessoas do meu lado não têm sido honestas em admitir que é uma terrível decisão ética que uma pessoa tem que fazer: acabar com uma vida, a vida de um feto. (…) O que eu estou dizendo é uma combinação das duas coisas: o Estado não tem o direito de dizer a nenhuma mulher o que ela deve fazer com o seu corpo. Sim, a mulher tem o direito de abortar. Mas eu digo: você está cometendo assassinato. Sim, você está. Mas você tem o direito de fazê-lo”. Camille Paglia (link aqui, grifo meu)

.: Eu ainda não sei fazer concessões. Talvez essa seja uma das coisas que la trentaine ensina pra gente, e se for isso mesmo, está explicado porque eu ainda não aprendi. Mas o caso é que eu não sei fazer concessões, pelo menos não desse calibre aí que a Camille Paglia fez. Há quem tenha achado corajoso, até poético (há poesia em quase tudo) que uma feminista, militante pró-escolha tenha dito assim, de peito aberto, que aborto é assassinato. Ela mesma diz que falta honestidade aos pro-escolha para reconhecerem o fato: aborto é assassinato, é, sim.

.: O que eu aprendi, até agora, discutindo aborto, é que o diálogo é sempre um pouco estranho, sempre um pouco surdo. Demorei a perceber que antes de qualquer coisa, questões linguísticas se apresentam e atravancam qualquer possibilidade de debate e conclusão, pois nenhum direito será concedido, ou reconhecido, enquanto os interlocutores não concordam quanto à natureza daquilo que discutem.
A facilidade do ponto de vista dos pró-vida, justamente, é esta: o feto é uma pessoa, o aborto é um assassinato. Pronto, cabou. A ânsia descritiva do discurso pró-vida é prioritária e poderosa, de tal maneira que ela tende a contaminar os argumentos, que desdobram-se todos a partir daí – determinar a partir de quando a vida do feto “conta”, o que é ou não uma pessoa, onde começam seus direitos, precisar se a atividade cerebral é suficiente ou não, contextualizar a fecundação e o abortamento em paralelo a outras situações-limite como pena de morte, eutanásia, homicídio, infanticídio, etc. Existe uma verborragia do discurso pró-vida que me incomoda demais, porque repleta de metáforas e comparações absurdas, de hipóteses desnecessárias – ninguém argumenta mais com o “e se…” do que eles! – e, sobretudo, repleta de descrições e nomenclaturas definitivas.

.: É muito difícil opor-se a um discurso assim articulado, especialmente se, do lado de cá, somos um pessoal que percebe o mesmo evento com outros olhos e que não pode – porque não consegue e talvez nem queira – descrever um aborto de maneira categórica e definitiva. A experiência de interromper uma gestação, para além das questões morais, éticas e sensíveis, nos mobiliza por aquilo que de mais complexo temos: a linguagem. A tomada da decisão é apenas uma das etapas pelas quais a mulher passa quando se submete a um abortamento; o tempo que decorre depois disso é extenso e exige um esforço muito grande de assimilação, de compreensão, de elaboração. O exercício de organizar uma experiência triste, quando não traumática, numa fala, não é coisa que se deva subestimar, muitas vezes é necessário “inventar” uma morfologia, uma sintaxe que contemple cada camada da sua experiência e que configure, da maneira que for possível, aquilo que aconteceu e como aconteceu.
Não é minha intenção fixar uma bandeira de “coitadismo” sobre as mulheres que abortam, ainda que seja evidente que sua posição é de fragilidade. Quero assinalar, pelo contrário, que nas tentativas de entender a si e narrar, ao outro, um evento tão singular e íntimo e ambíguo, nós ultrapassamos, em milhares de quilômetros, a capacidade sensível de nossos interlocutores anti-escolha. Há que se ter muito estofo para expressar as tantas contradições que envolvem a aspereza de precisar interromper uma gravidez e conquistar, com isso, a liberdade, o alívio, o futuro. Ou para explicar como se atravessa as expectativas sociais que estão coladas ao gênero feminino sem perder, no processo, as balizas da própria feminilidade, e como se declina uma vocação maternal compulsória. Não é nada que caiba numa palavra, asseguro. E, por isso, me arrisco a dizer: “assassinato” sequer arranha a possibilidade de descrever o que é ter que acabar com uma gestação. Questiono esta comparação não porque dela pode-se extrair que um ou outro é mais covarde, ou mais doloroso, ou mais errado – qualquer que seja o adjetivo que os pró-vida escolherem – mas porque comparar aborto e assassinato é como comparar espaguete e hidrogênio (é hora de usar as metáforas a nosso favor).

.: O que é irônico, e um pouco poético (há poesia em quase tudo), é que a dificuldade de formulação do discurso pró-escolha pode também constituir a sua força. Abandonar os termos pobres em que está posto o debate para, paulatinamente, assimilar as idiossincrasias das vozes de quem sabe de si e do que viveu, talvez, é um caminho possível para novos discursos, novos argumentos, novas políticas. Eu digo isso esperando, sinceramente, que a autonomia da mulher sobre seu corpo tome uma posição cada vez mais central na causa, que seja uma demanda maior até do que a saúde pública (que é urgente e grave, sim, mas contingente). Citando um texto que eu gosto muito, do Luis Antonio Baptista: “o autoritarismo dos ‘pontos de vista’ funda-se no esvaziamento da implicação coletiva e da construção histórica e sociopolítica do olhar e do outro. O preconceito remetido a uma questão pessoal esvazia suas tramas com o poder, sua eficácia política na manutenção e na desqualificação dos modos de existir”. A simplificação dos eventos e da vida serve bem à agenda dos conservadores, não há no horizonte deles muita chance de flexibilidade e abertura aos “modos de existir”. É por isso que eu, que acredito em diálogo e consenso, tendo a achar que nada de proveitoso pode sair desse debate em particular, pelo menos enquanto parte dos interlocutores insistirem em definições que só prestam para alarmar a gente e repetir “o aborto é um erro” – pois nem sempre é um erro.
E porque a vida me trouxe até aqui, recuso a sanha descritiva dos anti-escolha, recuso que alguém lhes faça concessões e tipifique esse evento no lugar de quem o experimentou, ainda que com a boa intenção – num tom meio tutelar pro meu gosto – de ajudar a garantir o direito de abortar se preciso for. Não, não nos falta honestidade, Camille Paglia.

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4 Respostas

  1. Aline, minha dúvida apenas é se isso que vc falou não vale pra tudo. Como dizia Kojeve, comentando Hegel, “A palavra é o assassinato da coisa”, quer dizer, quando nomeamos algo dizemos algo diferente daquilo a que nos referimos. Justamente porque a palavra não guarda correspondência estrita com a Coisa, mas envolve sempre o significado intersubjetivamente partilhado.

    Então, é certo que assassinato nem de longe esgota o que está contido no aborto. E mesmo a palavra aborto também não esgota. E na verdade, todo o discurso não esgotará. Mas a discussão sempre será discursiva, não tem jeito.

    Em resumo, pra concluir, o que estou tentando dizer é que lembrar que um discurso não esgota o real é meio redundante, porque nenhuma discursovai conseguir fazer isso.

    talvez esteja sendo injusto com seu argumento, mas minha leitura foi essa. Vou refletir mais a respeito, mas por enquanto é isso que pensei e queria compartilhar.

    • Sim, em último grau vale pra tudo, mas isso não me preocupa aqui. A questão é que há um esforço muito grande, no campo discursivo, em caracterizar o aborto como uma carnificina, uma afronta à humanidade, etc. e é preciso se desvencilhar disso. Eu não levaria essa conversa até as últimas consequências, destituindo, por exemplo, a palavra “aborto” como inadequada ou insuficiente para a experiência em si. Em termos práticos, a associação do aborto ao assassinato dificulta que a legislação e as mentalidades mudem, em termos sensíveis (digamos assim) é muito ofensivo e doloroso ouvir que a mulher que aborta é uma assassina.
      E tem outra coisa, que eu ia dizer no post e não disse: eu não consigo pensar em nada que se compare ao aborto. Nenhum dilema parece que se assemelha, que fornece material para comparação e tal. E só por isso, eu enfatizaria a necessidade de se coletar com mais cuidado as palavras usadas para descrever e tentar solucionar o impasse em que a nossa sociedade – democrática, mas conservadora e religiosa – se encontra.

  2. Você tem razão que é preciso se desvenchilar desses termos que mais atravancam o debate que ajudam. Mas, sendo menos filosófico, no fim das contas quase toda grande questão está envolta nesses mesmos problemas.

    A greve é de vagabundos, baderneiros, preguiçosos, comunistas etc.

    A droga é coisa de viciado, vagabundo, traficante etc.

    O que não significa, é verdade, que o esforço de nos desvencilharmos da carga ideológica desses termos todos tenha de ser deixada de lado. Nesse ponto você está certíssima mesmo.

    Enfim, pensando bem acho que não tem discordância não. Só vou deixar o comentário porque acho que esclrece meu comentário anterior.

  3. Acho também a fala da Camille Paglia equivocada – você começa a entrar pelo cano quando aceita discutir nos termos do seu adversário. Não sei como foi a tradução, mas a escolha do termo “assassinato” foi muito infeliz. Há que se esclarecer uma confusão comum entre matar e assassinar. O verbo do Hebraico [ratzach], do mandamento “não matarás” seria traduzido melhor como ‘Não assassinarás’, matar por motivo torpe ou fútil. Mas acho que na grande maior parte dos abortos não é caso de se falar nesses termos de jeito nenhum. Mesmo porque, dentro dessa lógica, você acaba concordando com os puritanos que proibiam a masturbação e a sodomia por serem desperdícios da semente humana!

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