zwazo

.: O francês é uma língua meio irritante de se aprender. Demora um tempo até você conciliar a grafia, que é intimidadora, e a sonoridade, que é bonita. Custei a me conformar, por exemplo, que o esforço de escrever, na correta ordem, as oito letras de beaucoup resultava apenas numa palavrinha tão curta e fácil que escapava à boca ao ser pronunciada: bocu. Deve ser por isso que na minha faculdade a gente só entra em contato com literatura antilhana depois que a língua francesa, com os séculos que separam sua escrita imaculada de sua pronúncia atual, está devidamente assimilada.
Foi um escândalo conhecer o créole. O créole é uma orgia linguística deliciosa, cheia de humor e dinamismo, afeita às aproprições e subversões, é a língua do colonizado que não dá a mínima para l’òtograf des zoreille, é a língua que se fala nas ruas – e que nas últimas décadas passou a engendrar uma literatura belíssima. Porém, tout pwoblèm que os escritores nativos enfrentam na hora de grafar a língua que falavam suas mães, avós, vizinhos, a gente do mercado, os pretos todos, é assunto pra outra vez. Por ora, contento-me em registrar aqui algumas das minhas palavras favoritas, que eu encontrei nesses livros e colecionava para rir sempre um pouco mais. Zoreille talvez seja a preferida: ela aparecia para fazer referência ao homem branco, o francês vindo capital europeia. Zoreille, os orelhas, era como os pretos chamavam, às escondidas, seus colonos. Eles que se puxavam as orelhas para entender o que diziam os créoles, eles que eram orelhudos, eles que vinham bisbilhotar e relatar tudo à metrópole. Outra que me encanta é zwazo. Por sua poesia, mesmo. Zwazo é les oiseaux, mas despidos da rigidez ortográfica dos zoreille. Como o créole é a língua de quem aprende as palavras escutando e repetindo-as, a sonoridade tende a ser preservada o máximo possível. Zwazo é uma palavra incrível, mesmo, oscilante em seu equilíbrio como um pássaro meio pesado que alça voo.

.: Lembrei disso por causa do livro Por uma vida melhor, centro das mais recentes inquietações quanto à qualidade do ensino no país – como você já deve saber. Independente de ser a favor ou contra esse método, é preciso que você saiba que toda língua, em qualquer que seja o registro, segue suas regras e determina suas estruturas, quero dizer, não acredite no falso argumento de estão ensinando que “pode tudo” na gramática dos novos tempos.  Não existe “pode tudo” quando se fala de língua; mas reconheço que há maneiras e maneiras de se tratar a gramática e transmiti-la, e, sim, há um “pode nada” versus um “pode mais”. Quem deseja que a norma culta seja obedecida como os dez mandamentos dentro das paredes de uma sala de aula ignora, muitas vezes voluntariamente, as potencialidades da língua, a criatividade e os recursos expressivos que ela permite. Ignora, também, e muitas vezes involuntariamente, a bagagem cultural do próprio aluno, que chegou à escola já dominando sua língua materna e que ao longo da vida fará usos dela que nenhum professor pode prever ou corrigir.

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3 Respostas

  1. Delícia de post, Aline. E realmente, o créole é uma delícia pra quem apanha tanto do francês. Sabe que eu, como perdi a prática, quando tenho que mandar um e-mail pra alguém, volto pra colocar todos os “s” nos seus lugares, porque escrevo pensando, falando baixinho e claro, os “s” não estão lá. E zwazo é uma palavra linda!

  2. *e a sonoridade, que é bonita quando falada por outros que não os franceses.

    Pronto corrigi pra você!

    Xeu perguntar… cê conhece Amadou et Mariam?

    • conheço, sim! são uns fofo :)

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