os olhos buscam prazer onde ele esteja

“Guido prefere ver apenas. Ora, a isenção em meio de contradições é coisa de eremita ou é privilégio. Em princípio, o mundo poderia deixar de lado quem não se ocupa dele. Guido, entretanto, se abstém a partir de uma posição de força, de cineasta. O mundo vem em sua procura ao invés de abandoná-lo. Há privilégio, mesmo que o privilégio fino de não respeitar, ao menos visualmente, privilégios sociais ou normas repressivas. A postura contemplativa – os olhos buscam seu prazer onde ele esteja – pressupõe uma república satisfatória, que não existe. Prova é que ao corpo não se permite a poligamia ativa e farta permitida aos olhos, cujo democratismo natural, cuja capacidade imediata de interesse e simpatia não derrubam, por sua vez, as diferenças sociais. Os olhos são progressistas enquanto o corpo obedece ainda uma legislação retrógrada.
(Roberto Schwarz, “8 ½ de Fellini”, em A sereia e o desconfiado, p. 196)

.: Entre os ensaios sobre cinema, este é um dos meus preferidos, e nele, este é um dos meus trechos preferidos. Tornou-se uma dessas passagens que a gente lê e não esquece, e carrega consigo e cita de vez em quando, porque elas reverberam. O post que eu quero escrever tem nada a ver com o filme do Fellini ou o ensaio do Schwarz, aliás o post que eu quero escrever é sobre coisas que eu não entendo quando se trata do movimento anti-pornografia. Confesso um certo pudor em escrever desse jeito, “movimento anti-pornografia”, porque eu o entendo tão pouco que me parece deboche escrever assim, como se fosse sério. Bem, talvez seja mesmo um deboche.

.: Eu posso, num exercício, a princípio, aceitar a premissa de que um dos efeitos da pornografia é caracterizar desfavoravelmente as mulheres e estimular preconceitos, que a atuação permissiva e hipersexualizada das atrizes, além de degradante em si, reforça no imaginário coletivo uma figura feminina sempre submissa e vulnerável ao desejo sexual masculino – o que, em último caso, resulta em casos de violência dos mais variados graus. Além disso, posso por na conta da pornografia eventuais demonstrações de descrédito à inteligência das mulheres, baseadas no senso comum “mulher gostosa não pensa/ só consegue o que quer através do sexo”, etc. Pois muito bem.
Se isso tudo é verdade, ou melhor, se é fato essa relação entre a pornografia e os preconceitos que geram violência e prejuízos às mulheres numa sociedade machista, eu gostaria muito de entender onde estão os limites estéticos que separam aquilo que é aceitável do que não é. Em que pesem as previsíveis objeções ao teor artístico dos filmes pornôs, eles ainda são filmes; são pensados, dirigidos, produzidos, distribuídos de acordo com as regras e técnicas da indústria cinematográfica. Vale o mesmo para os ensaios fotográficos de nudez e sexo: são igualmente considerados pornografia e, portanto, são nocivos. Sei que o problema não está na técnica empregada, antes, é a própria captação do objeto – o corpo nu, o ato sexual, o gozo – pelas câmeras, e sua divulgação, que engendra o círculo vicioso entre pornografia e machismo.

Mas nunca ficou claro, pra mim, se filmes e fotos esgotam o material que precisa ser evitado, quando não combatido, em nome da luta feminina na sociedade. É que a captação e exposição do corpo, do sexo e do gozo não estão restritas ao filme pornô e à revista masculina: mangás e HQs eróticos, pinturas, gravuras, desenhos de todo tipo, feitos com ou sem modelos nus que inspirassem os artistas – eles contribuem para a objetificação das mulheres? Estátuas, também?  Ficar excitado com as prostitutas do Courbet, ou contemplar Vênus de Milo, a gordelícia primordial, e engraçar-se por seus peitos pequenos e firmes é mais, menos ou tão degradante para as mulheres quanto folhear a Playboy da Cléo Pires? Importa a malícia na intenção de quem, artista ou não, criou a obra (a estátua, a foto, o quadro, o filme), importa a eventual excitação que essa obra causa no observador, ou importa o contexto (cof, cof) específico da exposição daquele determinado corpo? Porque eu desconfio que a controvérsia toda se restringe à produção da pornografia recente, malgrado suas ligações e séculos de herança de obras que exploravam o erotismo, e se é assim mesmo, trata-se de um anacronismo meio patético aliado a um certo elitismo que conceitua e rejeita o que considera vulgar.

Também me confunde o papel de outras modalidades artísticas além da pictórica, como a dança, e em especial a literatura. Pode-se dançar tango de maneira muito sensual, isso constitui objetificação como o strip-tease, ou o funk? Um conto que narre detalhadamente uma cena de sexo, um poema que descreva em minúcias o corpo e o comportamento lascivo, promíscuo de uma mulher, também isso não serve à manutenção dos mesmos preconceitos e representações machistas que os filmes e revistas masculinas estimulam? Não conheço, contudo, ninguém que tenha incluído contos e romances eróticos em seus protestos anti-pornografia, o que reforça minha desconfiança acerca do recorte que geralmente se faz ao denunciar a objetificação. Não que eu queira ver as narrativas eróticas na lista da inquisição, até porque, se a moda pega, arrisca alguns de meus livros preferidos entrarem na baila, como a poesia de Gregório de Matos, O cortiço ou Decamerão, que são uma putaria deliciosa.

.: Eu tiro sarro, porém são dúvidas sinceras. Eu acredito realmente que, no geral, os anti-porn não são avessos ao sexo, e também suponho que eles achem um descabimento censurar literatura erótica, mas aí eu não entendo por quê. Eu cismo mesmo com o recorte – para além de todas as minhas discordâncias quanto à premissa que acatei inicialmente – pois ele não dá conta da natureza das críticas que se faz à pornografia, uma vez que elas estabelecem uma relação de representação estética entre obra e corpo/ condição feminina, estendendo a suposta degradação da nudez, do ato da atriz pornô às mulheres de modo geral, como se aquela mulher representasse A Mulher, e ali estivessem depositadas as projeções e expectativas coletivas a respeito do gênero feminino. A rigor, se uma forma de representação é ruim, todas são – então que se despache como objetificação quadros, gravuras, estátuas, contos, poemas, mangás, tudo o que propuser uma figuração sexualizada do corpo feminino e for oriundo de um contexto social que não é ou não foi igualitário na questão dos gêneros.

Two men and a woman making love; Pompeian wall painting, from one of the Therms (baths), the south wall of the changing rooms - painted around 79 BC.

.: Conferir universalidade à condição do indivíduo é uma das possibilidades da arte, mas é irônico que a recepção crítica da pornografia se apoie numa estratégia de leitura na qual a estética já não confia muito; mas eu já falei sobre isso por aqui e não pretendo me repetir. Quando eu selecionei essa citação do Schwarz eu estava pensando nesse caráter repressivo de “interdição do olhar” que o movimento anti-pornografia pode ter, mesmo sem objetivamente almejá-lo. Mirando tão certeiramente em fotografias e filmes pornográficos e atribuindo-lhes uma vocação opressora, os anti-porn não apenas condenam a captura em película do sexo, do corpo, da intimidade como também pré-determinam a maneira (e os porquês) de as pessoas, as mais variadas, consumirem aquelas imagens. Esquecem, eu suponho, que há um hiato entre os corpos retratados e o olhar do observador, uma lacuna onde cabem as fantasias, a imaginação e o lúdico, a busca por fruição, as mitologias individuais, processos de auto-conhecimento, demônios que se quer exorcizar. E há uma diferença, que é preciso explicitar, entre os modos de ver a pornografia e o modo de os anti-porn nos verem vendo pornografia; esse olhar necessariamente masculino, superior, potente, abstrato e escravizante que pronto é colocado no lugar daquele que vê pornografia configura mais uma projeção, adequada à crítica anti-pornografia, do que o olhar que, de fato, contempla as imagens de nudez e sexo.
O olhar é profundamente livre, sempre muito mais livre e espontâneo do que o corpo, justamente, e toda vez que eu tento citar essa passagem, acabo dizendo algo como “nós tocamos com os olhos aquilo que o corpo não alcança”, e depois penso naquela metáfora “comer com os olhos”, que tão bem traduz a relação do olhar com o desejo. Acontece que eu não vejo problema nenhum no desejo, e por extensão eu não vejo problema nenhum no olhar (e é aqui que eu abandono aquela premissa): há que se olhar o que é belo, o que é prazeroso, os olhos buscam o deleite mesmo, não ouso coibi-los e tampouco atribuir a eles o poder assustador de desumanizar – que é outro jeito de dizer objetificação – quem quer que seja, quem quer que se veja.

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9 Respostas

  1. Acho mesmo muito curioso… pessoas, que frequentemente se proclamam libertadoras das mulheres, reclamam da insistência da indústria pornográfica em retratar uma forma de erotismo em que a mulher é supostamente submissa e a solução pra isso é… extinguir a pornografia, claro. Em lugar disso, podiam discutir e até mesmo tentar engajar a própria indústria pornográfica no desafio de melhorar e diversificar os retratos que faz.

    Suspeito que a proposta de extiguir a pornografia não traduz uma vontade de se libertar de alguma forma de opressão… acho justo dizer que está mais para um sinal da vontade de extinguir (na prática interditar) o assunto em si… o que é típico do puritanismo, bem o oposto de uma libertação.

    Em homenagem à liberdade do olhar, preciso contar um segredo… quando um homem vê a imagem de uma mulher se masturbando, não há nenhuma regra genética que o obriga a se imaginar penetrando aquela mulher no lugar dos dedos dela. Isso seria a forma como os anti-porn vêem os homens vendo essa cena… como se todos os homens achassem que uma mulher serve apenas para isso. Eu, por exemplo, gosto simplesmente de perceber que ela está tendo prazer.

  2. Maravilha(!)

    Mas é estranho mesmo levar a sério uma anti-pornografia.

    Me parece que um problema da pornografia é que ela “tem” que ser escondida. Quer dizer, o problema não é que ela exista, mas que, volta e meia, venha à luz, saia às ruas, para ser vista pelos olhos, justamente aqueles olhos sobre os quais não temos o poder de interdição que temos sobre o corpo.

    Mas na verdade nem mesmo sobre o corpo temos esse poder, pois tão logo os olhos veem, o corpo reage. Podemos ficar excitados diante da pornografia, mas o que queríamos era justamente não ficar. Não naquele momento.

    Então, a diferença da pornografia pra, digamos, o conto erótico, ou a vênus de Milo é que elas permitem disfaçar melhor as reações do corpo. Ou, se não tanto, ninguém se sente descoberto em seus desejos que queria ocultar. Ou seja, tudo se passaria como se, diante do pornô, as pessoas se sentissem acuadas, questionadas, em xeque, pois não seria possível esconder a sexualidade que aflora. Nos outros casos, sendo possível esconder o corpo (ou pelo menos acreditando ser possível, e basta acreditar) a reação não é tão grande.

    Enfim acho que fui confuso. Se não deu pra entender, avisa aí que tento esclarecer. Mas que o texto é ótimo, é. E a citação é mais maravilhosa ainda. Desconhecia, obrigado por trazê-la aqui.

    • Obrigada (não achei nada confuso, não).

      Só acho que em alguns casos, é problema que a pornografia exista, uma vez que é publicamente que ela se caracteriza enquanto tal. Uma foto de uma namorada sua, que vc guarda pra si, talvez nem entre na crítica. (Ou sim, vai saber)

  3. Eu já tinha achado que você desistiu do blog… que bom que não!
    Gostei muito desse post, parabéns.

    beijos

    • Desisti não, só não tenho escrito com frequência :)

      beijos

  4. Olha eu aqui estragando um bom texto com um comentário marginal!

    Mas sabe o que isso me lembra? O conceito de fetiche (o do barbudo comunista, e não do barbudo charuteiro). Às vezes a gente atribui feições de sujeito àquilo que não tem capacidade de deixar de ser objeto. (só pra deixar marcado que dá pra pensar em objetificação em outros termos. Mas essa a gente chama mais de reificação e tal.) Daí de repente essas coisas: pornografia com superpoderes advindos de si e gerados por si mesma. Mais legal que o superman, que ainda precisa do sol.

  5. Eu sempre me confundo quando tento explicar para alguém o que é pornografia e o que é, sei lá, “nu artístico”.

    O problema é que o conceito de pornô, por mais que se tente definí-lo com conceitos “isso aqui é arte; isso aqui é pornô”, tem limites bem elásticos que variam de pessoa para pessoa. O que é pornográfico para alguns, para outros não é; assim como o que é erótico imagino.
    Tipo, para os índios brasileiros a nudez é algo comum, enquanto para a sociedade puritana norte-americana do século XVI ela era quase satânica. :)
    Talvez nunca se chegue a um consenso sobre isso, mas a chave para conceituar pornografia e erotismo você já nos apontou: esta nos ‘olhos’ do observador. Nos olhos e no seu “background” cultural, eu imagino.
    bjo,

    • Eu acho que foi uma falha minha não ter deixado claro que minha intenção nem é relativizar os conceitos de pornografia, ou dar a entender que tudo é pornô e/ou tudo é arte. Vc tem razão, é subjetivo; e eu estou razoavelmente bem resolvida quanto ao que eu mesma considero pornografia e o que eu considero arte. Minha intenção era mais dizer que o discurso anti-pornografia se sustenta num recorte que a contradiz, que a enfraquece, que mostra seu alcance curto. Falar de representação não é apenas o campo em que eu me sinto mais à vontade, é também o ponto chave que elas, as anti-porn, levantam tanto: aquele corpo nu representa uma situação degradante para aquela mulher em particular e para todas no geral.

      Beijos :)

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