o único final feliz para uma história de amor…

é um acidente. Do J.P. Cuenca.

.: Devo reconhecer que meu ponto de partida é um olhar viciado. Eu gosto de mitologia, gosto muito, e acontece, com frequência, de eu conduzir minha leitura por essas águas. O último livro do Cuenca, com um título tão convidativo quanto grande, eu encomendei sob influência dos vários elogios e algumas resenhas que encontrei, até porque O dia Mastroianni não me agradou tanto assim. Agora que o li, penso que a análise do Sérgio Rodrigues é ótima e dá conta do que é mais interessante no romance (ou novela, como ele prefere).
O que me motiva a escrever o post é mais esse meu gosto particular por mito que encontrou, no livro, uma brecha. (falarei, portanto, da brecha.)
Eu não gosto de resumir nada, e se você não leu o livro eu provavelmente vou estragar toda a graça dele, mas lá vai: tudo se passa em um futuro próximo na cidade de Tóquio e é centrado na figura de Shunsuke Okuda, um jovem funcionário de uma multinacional. Conquistador inveterado, ele cria uma identidade para cada namorada que conhece nos bares do distrito de Kabukicho. Mas sua rotina é abalada pelo aparecimento de Iulana, uma garçonete polonesa por quem fica obcecado. Iulana é apaixonada por uma dançarina e mal fala japonês, mas nada disso impede que os dois mergulhem numa relação conturbada. O maior problema, contudo, é que estão sendo observados. O pai de Shunsuke, sr. Okuda, paira sobre o livro como uma figura onipresente e maligna que parece querer destruir qualquer chance de felicidade do filho, ao mesmo tempo em que se dedica a uma boneca/ robô que aprende a sentir. Operando um complexo sistema de espionagem, Okuda grava os passos de Shunsuke, e põe em perigo a vida do casal. (tirado e levemente adaptado daqui)

.: Entre todas as coisas, a configuração da divindade do sr. Okuda foi o que me pegou, e ela depende da relação do velho com o filho e com a boneca. Como há, no primeiro plano, o romance entre Shunsuke e Iulana, a tensão entre Shunsuke e seu pai Atsuo Okuda fica mais livre para determinar aspectos fundamentais da narrativa, e é aí mesmo que a coisa fica boa, na minha opinião. Quero dizer, tudo no livro está ligado à imensidão da personalidade do pai, que muitas vezes se confunde com um deus, com um monstro, e a instabilidade de sua representação provoca o que Sérgio Rodrigues tão bem definiu como “um narrador realista sonhado por alguém“. Se eu parto da premissa que Atuso Okuda, um brilhante e excêntrico poeta, figura uma espécie de deus, posso facilmente estender sua divindade e encontrar a partir daí dois esboços de cosmogonia diferentes que, por sua vez, geram duas criaturas diferentes, que construirão narrativas diferentes.
Grosso modo, cada comunidade desenvolve e elege suas histórias a respeito da origem do universo de acordo com suas idiossincrasias. Vamos decantar, daí, duas modalidades de mito cosmogônico, que eu resumo da seguinte maneira: um deles está relacionado ao caos pré-criação, geralmente oriundo de culturas politeístas que tenham configurado pra si uma espécie de teogonia. Assim, a criação do cosmos vem de um Drama, de um conjunto de ações, muitas vezes violentas, entre as divindades, que resultam em deuses vencedores e deuses vencidos. Em um segundo sistema mitológico, a criação do cosmos não é oriunda de um conflito anterior entre deuses, até porque não há sequer uma teogonia que torne possível e propícia qualquer disputa e caos. Neste caso, toda a existência origina-se num ato de fala, na Palavra, e portanto ela é fechada no momento específico da enunciação divina. No princípio era o verbo e etc.

.: Eu só pensei nisso porque, como eu disse, tudo leva ao pai Okuda, e dele tudo emana também, inclusive as modalidades narrativas e os destinos das personagens – e essa divindade dele me interessa. Apequenando o conceito de criação do cosmos, temos, por exemplo, uma boneca robô que inaugura o livro, que se torna narradora (como eu amo essa palavra!) de sua própria existência; existência, aliás, que só emerge do nada e da escuridão “a partir do momento em que o sr. Okuda abriu a caixa e disse a palavra. Ele disse: Yoshiko“. Quero dizer, o romance começa com um simulacro da Gênese, mas no lugar do universo temos a criação, pelo desígnio do nome, de uma subjetividade individual, articulada, poética. A partir de sua criação, Yoshiko segue uma trajetória positiva e humanizante, paralelamente à história dos demais, apartada de uma trama que a envolva em ações e consequências. A única coisa que Yoshiko faz é ouvir os poemas do sr. Okuda, e aprender com eles a sensibilidade e a miséria humana. O ponto máximo de sua história é descobrir o ciúme e vislumbrar, coerentemente ao mito de Adão, a revolta contra seu criador, quando pensa em envenenar o poeta Okuda.
O contraste está, pois, no tão próximo capítulo 3, quando Shunsuke nos adianta aos acontecimentos e narra sua morte. Não é uma morte qualquer, a dele e de Iulana, é uma morte violenta, num vagão de metrô que explode a mando do pai. Talvez essa seja a passagem mais bonita do livro inteiro; descrita minuciosamente por um observador atento e maravilhado diante de um espetáculo assombroso. O ferro torcido, os corpos rasgados, a última vez que os namorados se olham, o som, o ar, o tempo, o instante da morte: o caos, ali, engolindo tudo. Se há algo meramente parecido ao Drama da criação, ao confronto de forças e gênios inconciliáveis, tal é o momento mais intenso da relação entre o pai Okuda e o filho – cujos precedentes levamos todo o romance para saber, através da narrativa de Shunsuke.
Tantas comparações podem ser feitas entre a boneca e o filho, eu acho. A relação de Yoshiko com o mundo é simples e neutra, Shunsuke está sempre sufocado numa cidade hostil, numa família conturbada, em relacionamentos amorosos destrutivos. Diferente da boneca, que tende ao lirismo e à interioridade, ele se dedica à descrição do presente em seu núcleo mínimo (“o que vemos agora…“), à exaustiva catalogação dos detalhes externos e formais. Projetada na sua relação com o objeto de desejo, a mecanicidade de Shunsuke gera um cacoete interessante: ele se refere à garçonete, por muitas páginas, com o epitáfio “a mulher que iria substituir Misako“, e não por seu nome Iulana. Uma terceira observação sobre o desempenho de Shunsuke como narrador: a passagem da explosão no metrô é constantemente retomada nos capítulos seguintes. Retomada e modificada, aliás, porque os detalhes iniciais reaparecem sem que a explosão ocorra, então temos variadas versões e desfechos de uma cena específica em que o casal passeia no metrô e observa as pessoas e as coisas que acontecem ao redor, dias antes de sofrerem o acidente. O que eu entendo disso é que o estilo de Shunsuke vai na contramão da linearidade quase cartesiana de Yoshiko, a narrativa dele é retroativa e instável, repleta de indícios da tragédia anunciada, de confluências e descontinuidades temporais; ou seja, a despeito da personalidade obsessiva, controladora e repetitiva de Shunsuke, ele não escapa do caos porque não escapa da sombra do velho. Eu disse, aliás, que ele narra a morte mas isso é meia verdade: quem morre no acidente é apenas Iulana. Ele sobrevive, fica paralítico e preso ao ciclo de aproximação, confronto e destruição do pai.

.: A imagem do sr. Okuda varia com os discursos a respeito dele, e também a “essência” de sua divindade. Diante de Shunsuke, que o apelida de Lagosta Okuda, ele é tão onipresente e devastador que se transforma e protagoniza uma cena de destruição dos prédios, no mesmo estilo dos monstros japoneses agigantados por máquinas e vilões mirabolantes; para Yoshiko, porém, ele é mais uma entidade severa e delicada que lhe confere uma alma, que compartilha de sua atemporalidade. Quanto mais contraditório e misterioso é o sr. Okuda, mais poderoso é seu alcance na trama. Mas há outra coisa que o ajuda e empodera: Submarino, o sistema de espionagem megalomaníaco que registra todo e qualquer canto de Tóquio. Gosto dessa versão de Big Brother que o romance traz consigo, porque lhe cai bem. Subtraído das questões políticas, do governo e do controle de massa, o que resta aqui é uma espécie de distopia familiar cujo centro é o pai com vocação para deus. Os elementos próprios à ficção científica – como a decadência e a sobrevida da humanidade – são individualizados, enxutos e cedem lugar para as dimensões exageradas do mito, e eu acho que aí o tom híbrido meio-realista-meio-fantástico da narrativa acerta em cheio. E, curioso, por abrir a guarda pra uma coisa arcaica como o mito, ele também permite que aflorem queixas modernas já bastante batidas: a solidão na cidade grande, o isolamento na tecnologia, a superficialidade dos amores. Não creio que a abordagem profunda e analítica da miséria humana seja intenção do romance – se fosse, teria malogrado – , e disto eu até que gostei: a leveza da infelicidade das personagens nem me deixou lembrar muitas vezes que a história é triste e pessimista até o osso.

.: Começa, dia 28 agora, a Copa de Literatura edição 2010/2011. Comprei três dos romances que estão na disputa, os que me pareceram mais promissores. Eventualmente, eu compro outros e/ou escrevo sobre eles aqui, sobretudo se a discussão por lá me interessar. Resta torcer pro preço deles baixar.

 

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4 Respostas

  1. Ô meu Deus, danou-se, agora vou ter que comprar esse livro de qualquer jeito :(

  2. […] Massacre, de Rodolfo Walsh, para o jornal Rascunho. A Aline, do blog Godot não virá, falou sobre O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de J.P. […]

  3. Estou lendo. Passei um pouco da metade.
    Gosto de ler comentários até para checar se percebo o mesmo que leitores qualificados.
    Na maioria das vezes, aprendo a enxergar e interpretar outras camadas literárias.
    De qualquer modo concordo quando você escreve que “a história é triste e pessimista até o osso”.

    Abraço,
    Klotz

    • ah, eu evito ler comentários antes pra não influenciar demais a leitura do livro. mas nem sempre eu obedeço minha regra, claro.

      abraço :)

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