o monstro

(Ou: o que eu acho da feiura da Susan Boyle e do Paul Potts)

.: É uma das coisas nas quais eu gosto muito de pensar: essas nossas mitologias. Que passam batido como cultura pop bem debaixo do nariz de um monte de gente. Ópera é total haute culture, mas um vendedor de celular no Britain’s got talent cantando ópera é pop. Mas então. Eu quase escrevi no outro post que a trajetória do Potts e da Boyle segue um modelo de narrativa heroica. Porém, é uma bobagem. Eles certamente são prodigiosos, mas não são heróis. O herói já nasce herói e absoluto, ele tem é que proteger todas as outras pessoas do mal, seja lá o que mal signifique em cada história. O herói desempenha uma função conservadora da sociedade, na medida em que ele tem que garantir a manutenção da tranquilidade do universo. Mesmo que esse universo seja só uma cidade, uma comunidade, uma rua. Acho engraçado que o herói conte com alguma anomalia que o torna especial, geralmente mais forte e ágil,  e ainda assim exista a serviço da normalidade da vida e dos regimentos de convívio.
.: Eu fiquei tentando achar uma imagem boa o bastante pra descrever que tipo de personagem é essa que A Susan Boyle e o Paul Potts desempenham. O Corcunda de Notre Dame é o maior e melhor exemplo, mas também ele é apenas uma versão do que eu vou chamar de monstro aqui. Não quero que essa palavra evoque todos os possíveis significados, sobretudo os moralmente pejorativos, do senso comum à filosofia moderna. Estou pensado em uma definição específica do Michel Tournier, que ele usa em um romance seu: o monstro é aquele que se mostra, para quem os dedos apontam e exigem evidência. O monstro é fisicamente estranho, incômodo, engraçado, feio e, por isso, alvo de escárnio, de rejeição e finalmente, de desprezo. Como eu disse, o Corcunda de Notre Dame ilustra bem a situação. A moralidade, o caráter, os sentimentos e habilidades dessa figura grotesca não entram na ocasião de sua definição. Só é monstro porque as pessoas fazem dele o que elas veem, e se o que veem é desagradável, a definição fica como está. A superficialidade é necessária pra que a história dele aconteça.
A trajetória do monstro existe apenas na medida que ele consegue superar a própria condição, que não se dá no eixo Bem x Mal. Esse é o campo do heroísmo. Diferente do herói, o monstro tem que proteger a si mesmo. E o faz de duas maneiras: fugindo do escárnio e mantendo-se recluso – e assim, não há narrativa. Ou expondo a si mesmo e sua qualidade prodigiosa, alcançando a consagração. É essa passagem de criatura risível a admirável que emociona tanto e que dimensiona a ironia da situação. O monstro se baliza numa gangorra de expectativas e vai do nada ao tudo num único movimento. Fica fácil perceber o esquema nos desenhos animados e notar a mensagem que se reitera: acreditar em si mesmo, não desistir, não acreditar nas aparências. Ainda assim, a cada vez que um monstro acena, imediatamente a gente se coloca na multidão.
.: Entendo que é mais ou menos por aí que um Paul Potts ou uma Susan Boyle caminham pra fazer a gente se emocionar assim, no meio de uma tarde ordinária: é que a trajetória deles é arrebatadora. Não estou falando das pessoas que eles são, porque isso não nos é dado conhecer. Estou falando daquilo que eles encenam quando vão num programa desse porte. Eles expõem uma figura que causa estranhamento, que coloca as expectativas lá embaixo, ainda que todas as pessoas saibam que a capacidade de cantar não tem nada a ver com a beleza física, então o julgamento não deveria vir atrelado. E contudo, vem. Depois de tantos filmes, tantas cantigas e provérbios, a gente ainda deixa a expectativa cair no pé quando um desajeitado entra no palco e timidamente diz que vai cantar uma música grandiosa. Não cabe sequer uma crítica pessoal ao sistema ou aos padrões de beleza que sufocam as pessoas e blá. Se a simples aparição do Paul ou da Susan não mexem em nada com suas expectativas é porque você não se interessa pela trajetória que eles prometem. Provavelmente, nem aperta o play do vídeo. Não é interessante e ponto. Fica quem aceita a função de multidão. E aí você estranha , aponta e ri junto da plateia. Mas também se espanta, se emociona e se converte com ela. E acaba se tornando mais um narrador da passagem do monstro: ninguém dava nada por ela, mas ela mostrou que tem uma voz incrível e todos ficaram maravilhados. É assim, com o monstro. Do nada ao tudo. Do desprezo à consagração. Por isso é tão dramático. E tão irresistível. É uma mitologia nossa, essa. A gente simplesmente ama esse tipo de história.

.: Agora, o que não pode é confundir um palco com uma calçada. Caso um deles cantasse miseravelmente, mereceria tantas risadas quanto qualquer beldade desafinada. O importante é lembrar que esse monstro de que eu estou falando é uma figura, um elemento narrativo. É algo que esses dois, por exemplo, se tornaram no momento em que pisaram no palco. Eles entraram lá sabendo que se consagrariam. E, se cantassem mal e ainda assim se submetessem voluntariamente à apreciação e julgamento do público e dos jurados, estariam encenando uma comédia. Que é um gênero que também existe, funciona, lava a alma. Mas não causa, nem de longe, a comoção necessária para provocar mais de 2 milhões de acessos em dois dias, internet adentro, mundo afora.

.: publicado em 15/04/2009 no blog antigo.
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4 Respostas

  1. Este texto continua sem comentários, não é? Imaginei.

    E ele me pareceu muito mais intrigante que o anterior que virou posterior (no momento em que escrevo, o de antes está aparecendo depois).

    Porque parece que tem uma relação com o anterior, mas eu não consigo apontar bem qual seja (e sempre tem a possibilidade de eu estar viajando, e só estou achando que tem por causa da proximidade, e vai que você upou ele à toa, mas quer saber? Duvido).

    Enfim, cheguei a me perguntar até se era uma defesa sua se erguendo. Vou fingir que não perguntei e guardei a pergunta pra mim (mas ó, zero comentários, ele tá abaixo do post em que o couro come, ninguém mais vai clicar na caixa de comentários. Quase juro).

    Só que eu ando muito pré-romântico. Sabe essa possibilidade de separação entre beleza exterior e mundo interior? Não tá rolando não. Minhas monstras são monstras andam monstras mesmo: são feinhas por fora, e não sabem nem pensar nem escrever muito bem. E minhas heroínas têm sido umas lindas.

    • hahahahahahhahaa

      então, tem a ver mas só um pouco, não é nada que seja assim muito significativo. mas as leituras estão abertas, e pelo menos uma coisa os dois posts tem em comum: fui eu quem escrevi, e minha opinião é mais ou menos a mesma, embora tenha passado tanto tempo. eu pus ele embaixo pq eu fui muito visitada hj e resolvi deixar aquele post logo de cara, assim que o entra e sai passar e eu voltar à frequência habitual, o monstro volta a ficar por cima =)

      talvez eu escreva, sim, alguma defesa, mas não tenho pressa, e definitivamente eu posto algo sobre o segredo dos seus olhos antes, que isso tá empacado há um tempão e, francamente, tem assunto que simplesmente não tem urgência. tem pros outros, mas aqui, longe do tom apocalíptico e histérico com que os fatos costumam ser interpretados, o cinema bem que ocupa um lugar privilegiado. cinema antes, antídoto pra dramalhão depois. aqui é assim. :)

      um beijo de quem vestiu a carapuça de heroina e linda ao mesmo tempo, uhuu \o/

  2. Cê me fez lembrar de como eu chorei que nem criança quando vi o vídeo da Boyle.

    • oun. eu fiquei arrepiada com a performance dos dois, muito mesmo. até hj eu curto ver.

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