a verdadeira Paris

.: Teve uma vez, no meio de uma aula, em que uma aluna anunciou que iria a Paris em breve e queria saber se eu podia ajuda-la com recomendações de passeios e coisas do tipo. Antes que eu pudesse responder, outros alunos, empolgados, começaram a listar museus, parques e monumentos parisienses. Não que todos eles já tivessem feito a viagem e conhecido cada um desses lugares pessoalmente, mas a França, em especial Paris, é muito bem sucedida em políticas de difusão cultural, e os cursos de língua acabam sendo catalisadores disso. Perdi as contas de quantos alunos meus sabiam de cor estações do metrô parisiense, curiosidades e endereços da cidade, por pura vontade de conhecer essas coisas. Também nunca soube definir ao certo se essa gana de viajar vinha com a empolgação do aprendizado da língua, ou se ela já estava lá, anterior, motivando meus alunos a aprender francês para curtirem mais e melhor a viagem.
O que me marcou naquela aula foi um rapaz, entre todos os outros, que, numa epifania meio pedante, mencionou um determinado café num canto do Quartier Latin e arrematou dizendo à colega que se ela não comer um crèpe de amêndoas sentada naquelas mesas, ela não terá conhecido a verdadeira Paris. É coisa gozada de se dizer; e embora muitos discordem da supremacia daquele crèpe sobre todos os outros, ou daquele café sobre outros estabelecimentos, e mesmo de Paris sobre outras cidades, suspeito que todos seríamos capazes de eleger um lugar de tal maneira imprescindível que sua ausência no roteiro comprometeria o proveito do viajante. Sei que quando eu anunciei minha estadia na França foi mais ou menos assim, ganhei de uma professora uns guias de viagem previamente anotados, listas de afazeres de colegas, recomendações infinitas da vizinhança. Tudo muito sério, sob pena de não aproveitar Paris em seu máximo possível. Confesso que às vésperas da viagem eu já estava meio aborrecida de tudo isso.

.: Mas tira-se algo de todas as coisas. Durante a viagem, numa manhã improvável de tão feia, fui visitar o cemitério de Montparnasse. Não foi de propósito, mas coincidiu de eu estar bastante triste naquele dia e, olhando o guia no meio de uma caminhada, constatei que estava nos arredores e que podia ver o túmulo do Baudelaire. Andando por lá, um velhinho se aproximou de mim e me perguntou, de primeira, se eu estava procurando o túmulo do Baudelaire. Eu confirmei, surpresa, e ele explicou que eu tinha jeito de estudante e que, geralmente, é esse que os estudantes mais procuram lá. Monsieur Marcel, como se chamava, me contou que cresceu naquele cemitério porque o pai trabalhava ali, então estava acostumado a dar seus passeios e acompanhar a rotina ao longo dos anos. Depois do túmulo do poeta, ele me levou pra ver o do Cortázar, depois a Simone de Beauvoir e o Sartre, sepultados lado a lado, e então Bracuzzi, Ionesco, Gainsburg, outros ilustres. Passamos depois aos desconhecidos cujas lápides eram mais notáveis, trabalhadas e bonitas, depois aos desconhecidos de lápides ordinárias. Monsieur Marcel ia contando as histórias de algumas daquelas pessoas, dizendo se morreram antes ou depois dos filhos, se muito tempo passou entre uma morte e outra. Mas não quero que pareça mórbido, pois não foi. Ele ia me contando tudo com muita tranquilidade e até algum senso de humor, como se fossem antigos conhecidos seus e com quem a convivência e a intimidade apenas tivessem acontecido de trás pra frente: a partir de sua morte, pra que então le monsieur se desse conta de suas vidas, suas famílias, seus rastros.
Acho que se passaram umas quatro horas nesse passeio pelo cemitério, conversando com monsieur Marcel. Fez-me um bem danado ouvi-lo, porque a cidade, através de seus causos, era viva e receptiva, acho que foi a primeira vez, naquela viagem, que eu senti como se Paris estivesse realmente aberta pra mim, como se eu estivesse de fato conhecendo alguma coisa única, que me pertenceria dali em diante. Veio a calhar, também, pra que aquela tristeza anterior encontrasse a delicada perspectiva dos mais velhos e se pusesse no devido lugar, ou seja, bem longe. Quão irônico é encontrar conforto num cemitério – mas, meninos, eu vi. Quando nos despedimos, pedi ao monsieur que me desse seu telefone para marcamos outro passeio, numa dessas tardes, onde ele quisesse. Talvez no Père Lachaise, quem sabe? Ele foi cortês na recusa: certas coisas é melhor deixar que aconteçam por acaso, eu não marco encontros, mademoiselle. Enchanté de faire votre connaissance, merci beaucoup, adieu. Não voltei naquele cemitério, e claro, nunca mais vi monsieur Marcel.

E então minha dificuldade, naquele momento da aula, era: como explicar à aluna que, durante sua viagem, se ela não fosse gentilmente confortada, num desses dias ruins, pelas histórias do monsieur Marcel, num passeio pelo cemitério do Montparnasse, significa que ela não conheceu a verdadeira Paris?
Não expliquei. Recomendei-lhe um bom guia turístico e desejei boas surpresas. O resto nos escapa.

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7 Respostas

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Doni, Flavia Penido, Tiago Koyano, EMC, a n a and others. a n a said: RT @doni: Ai ai, @tdbem, que texto incrível http://migre.me/2QIOh […]

  2. Que lindo isso. Eu não fui a nenhum cemitério em Paris, e tenho certeza de que minha experiência não é nem menos rica que a sua, só é diferente. Acredito piamente que não existe “o verdadeiro” nada, babaquice isso de dizer que só determinada experiência legitimiza alguma coisa. Minha Paris com certeza é tão rica quanto a sua, deve ter alguns pontos de contato, mas em outros aspectos deve ser bem diferente. E não é essa a graça da vida?

    • a ideia é toda esta, não há *a verdadeira* cidade. mesmo uma cidade turística e “óbvia” como paris depende das experiências que cada um vive lá, e como as interpreta :)

  3. Aline, ótimo como sempre. Adoro a sua sensibilidade. Nem te conheço e já to ficando seu fã. Mas olha que isso é difícil, viu? Sou fã de pouquíssimas pessoas. Tem umas três pessoas de quem gosto muito, entre as que convivem comigo. Na internet só do Celso NPTO.

    Mas queria dizer mesmo é que lembrei de Casablanca. “Nós sempre teremos Paris”. O que é meio isso. Se não existe a verdadeir Paris, cada um pode ter a sua Paris. A sua é ótima. Espero que a minha, qdo eu a conhecer, tbm seja.

    saudações
    Manoel

    • Há, que beleza. Vc sacou uma das melhores frases do cinema! :)

      Fico lisonjeada com o que vc disse, claro, ainda mais sendo aproximada do Celso, que tbm conta com minha admiração. Obrigada mesmo, Manoel.

      abraço,
      Aline

  4. Texto lindo. Também me incomoda um pouco esse negócio de “você não pode perder tal coisa”, “se não for a tal lugar não conhecerá a verdadeira não sei o que lá”, mas também já me vi falando coisas parecidas. Só que é exatamente como você citou, há momentos e lugares que só podem ser experimentados de formas diferentes e é inútil tentar impor nossos roteiros a outros. Até porque, o melhor mesmo são as surpresas e peculiaridades que cada viagem proporciona.

  5. Não fui ao Cemitério, apesar de estar na minha “lista” de prioridades. As prioridades mudaram em Paris. Uma delas, que ocupou o espaço de outras, foi andar livre pelo Quartier Latin, e sentar em uma brasserie e pedir beauf bourguignon. E uma jarra de vinho da casa. E deixar o tempo passar. Tivese lido antntes o post, ia procurar o monsieur Marcel. E, mesmo que ele não estivesse lá, de alguma forma eu o teria encontrado. Adorei.

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