o abraço

.: Tem assunto que parece que é intratável, e sempre será. Mas felizmente há muita gente no mundo e, mais cedo ou mais tarde, alguém acaba dizendo ou fazendo algo único em relação àquele assunto, e então a tendência é as coisas ficarem mais fáceis. Por coisas eu quero dizer o pensamento, a crítica, a elaboração. Estupro é um desses assuntos intratáveis, na minha opinião. Difícil demais de lidar. Quando a Lu voltou de uma viagem longa, ela estava com esse livro pra me presentear: O abraço, da Lygia Bojunga. Ela provavelmente me disse do que se tratava, mas não registrei e por isso meu susto, quando na primeira página li que era sobre o estupro de uma menina de 8 anos, foi enorme. A Lygia, no entanto, tem essa delicadeza ímpar tanto na percepção quanto na expressão dos acontecimentos, deu que o livro é uma preciosidade.

.: Na noite do aniversário de 19 anos, Cristina vai a uma festa, na casa de um amigo, e assiste à encenação de um conto no qual uma mulher mascarada, no estilo veneziano, fazia o papel da Morte. Mais tarde, essa mulher misteriosa dá um abraço na Cristina e isso imediatamente desperta, nela, um conjunto de memórias de sua infância. Grande parte do livro é narrado, portanto, pela própria Cristina, abalada pela recuperação das tais memórias. O abraço da Mulher Mascarada lembra os abraços que Cristina recebia de Clarice, uma amiga de infância muito querida que desapareceu quando tinha 7 anos. E esse desaparecimento, por sua vez, remete a outro abraço, que é aquele que Cristina recebeu de um homem, aos 8 anos, num dia de sítio e pescaria. Que não fiquem dúvidas: o abraço do homem é o estupro propriamente, toda a ação de envolver, possuir e penetrar o corpo da Cristina, é assim que ela registrou o acontecimento e nesses termos ela conta sua história.

Mas nada é muito transparente, a linha narrativa da Cristina é caótica, reticente, extremamente subjetiva. Então as lembranças da perda da Clarice e do estupro passam a se confundir e se tornam, de certa forma, um constante desdobramento um do outro. Cristina lembra, por exemplo, que o Homem da Água que a violou chamava-a de Clarice, e que ele parecia obcecado em possuir Clarice e não deixa-la “morrer de novo em seu abraço”. Lembra, também, que durante um tempo, depois do estupro, Cristina via e conversava com Clarice em alguma instância onírica ou delirante, quando afinal elas passam a brincar de se dar abraços e conversar sobre o Homem da Água. Ficamos nós assim, entre não saber exatamente o que separa a menina Cristina da Clarice, as interferências dos sentimentos e sonhos da Cristina adulta sobre sua própria história e as especulações sobre o que teria de fato acontecido à Clarice.

.: A história é, até aqui, muito bonita e sensível. Mas fica genial, mesmo, a partir do momento em que Cristina encontra um palhaço de circo e reconhece seu estuprador. Genial, eu disse. Lírico, profundo, único.  Depois desse reencontro, ela fica obcecada por ele, curiosíssima em saber mais dele e entender quem ele é. E num encontro que Cristina marca com o Palhaço, ou Homem da Água, numa das passagens mais bonitas do livro, ela percebe que está atraída, que sente tesão por aquele homem. E diante desse sentimento tão inesperado, controverso, tão ambíguo, ela tenta entender a si própria. A Mulher Mascarada, com quem Cristina também se encontra, e que assume a persona da Clarice, trava com ela conversas muito duras sobre nunca esquecer, sobre estupro, aniquilação, morte e impunidade, sobre nunca dar naquele homem um abraço de perdão.

.: E depois do afloramento do tesão da Cristina, esse é meu segundo ponto preferido no livro: o embate aparentemente insolúvel, mas compreensível e necessário, entre os efeitos individuais e sociais da violência. A inflexibilidade da Mulher Mascarada tem o respaldo da dor de todas as vítimas e do triunfo do machismo mais obtuso e avassalador, é um discurso cuja mágoa se justifica e ecoa nas estatísticas e em cada ocorrência de agressão sexual. Ela diz, a umas tantas, que tanto faz se ela é a Clarice, se é uma mulher de 19 que foi estuprada na praia, se é outra que foi morta com uma gravata. Então, para nós e para Cristina, ela é todas as mulheres que já foram estupradas. E exige uma coisa apenas: não esquecer, não ceder, não perdoar. Mas a individualidade da Cristina, – mais do que isso, sua singularidade, aquilo que a torna única e humana, digamos assim – além da dor e do fato de sua vitimação, comporta o desejo, a curiosidade, a volição, a criação. E aí, precisamente, abre-se o espaço pra que ela redefina sua relação com a vida e seus traumas, que ela esteja livre para conferir significados outros a si mesma, sua sexualidade e àquele homem que uma vez a feriu e violou. É notável que a fragilidade dela desaparece, e a ameaça dá lugar ao fascínio.

E enquanto a Mulher Mascarada a acusa de ser cúmplice do crime, ainda que passivamente, por ter perdoado e esquecido, Cristina se defende dizendo apenas “Mas eu não perdoei!”. Essa é uma coisa que ela não consegue explicar: como pode sentir desejo pelo homem sem ter perdoado o estuprador? E se o discurso da Mulher Mascarada é compatível com as noções mais cristalizadas sobre a violência sexual, de fato jamais caberia nele a complexidade que permite que Cristina olhe pro Homem da Água como mulher, intrigada e excitada, sobretudo na mesma época em que transbordam as memórias daquele crime.

O que eu acho é que escapa à Mulher Mascarada esse gradiente que separa a Cristina menina da Cristina adulta, e portanto, ela sempre verá, na mulher, a vítima que ela foi quando criança. Ou melhor: ela tão-somente verá a vítima eclipsando a mulher, como se a violência tivesse determinado (ou devesse determinar), de uma vez por todas, a dimensão e a natureza dos sentimentos de Cristina.  Mas não são incompatíveis, a menina e a mulher, tampouco são “identidades” estanques. É preciso lembrar, sempre, que Cristina está no centro da narrativa e dela emanam todos os elementos da trama, e por isso o desejo e a curiosidade pelo Homem da Água devem ser entendidos como pistas de sua força, sua grandeza e independência em relação à própria dor – nunca como concessão à violência ou ao violador, o que revelaria, pelo contrário, pequenez e fraqueza de espírito.

.: Nesse sentido, sua narrativa corrobora minha hipótese de que Cristina é uma força individual bastante rica. Tudo o que ela conta, na verdade, ela só conta porque depois da discussão com a Mulher Mascarada, ela decide ir, a convite da própria, a uma festa para tentar ver o rosto da Mascarada, confirmar/ desmentir se ela é sua Clarice e descobrir, afinal, o quanto e se o Homem da Água destruiu sua amiga. Ela precisa que alguém lhe dê uma carona até a casa onde vai acontecer a tal da festa. A pessoa que surge é seu interlocutor direto no livro, e coincidentemente é também o autor (ou autora) do conto que foi encenado lá naquela primeira festa e do qual a Morte era personagem. Isso me fez suspeitar, inclusive, que a Lygia se projeta na trama, e que ela seria a receptora da história da Cristina e o livro, um registro posterior. Não que importe muito identificar com precisão esse ouvinte generoso que acolhe Cristina e a leva ao endereço, mas gosto de pensar que sim, que a autora se colocou literalmente como condutora da personagem. Outra coisa: com isso a personalidade da Cristina se mostra definitivamente dinâmica e corajosa, porque para além do resgate de suas memórias e da ousadia em constatar e aceitar seu desejo pelo Homem da Água, ela banca dar continuidade à história. Deseja, sim, e não recua: nem por causa do passado, nem por causa de um mau presságio quanto ao futuro. No que se refere ao registro de experiências violentas, portanto, Cristina foge completamente à regra e não se apresenta quebrada, nem receosa, nem paralisada. A menos que você considere, como a Mulher Mascarada, estranha ou doentia essa atração da Cristina pelo Homem da Água, e entenda sua reação como um sintoma ou algo negativo – e aí vai de cada um, mesmo.

Enfim, todo esse comentário pra, mais do que contar o fim, dizer por que eu discordo tanto dele. Lendo da primeira vez, eu não percebi direito que depois da discussão Cristina dá sinais de que o estupro a estava incomodando mais do que nunca, “só agora eu começo a entender a gravidade”, ela diz. Eu achei que esse seu esforço em tirar a máscara da mulher era sinal de que ela queria resgatar também a Clarice daquele limbo em que ela se encontrava, daquela persona coletiva e ensimesmada, para restituir-lhe a individualidade, os desejos e seu compromisso com a vida – não mais com a morte. Mas a Lygia, que se declara velha conhecida da Morte, preferiu colocar na casa onde Cristina desembarca a Mulher Mascarada e o Homem da Água, e ali, sem nenhuma explicação, sem que ela saiba se a mulher era ou não sua amada Clarice, ele a mata enforcada com uma gravata. E quão chocante foi, pra mim, ver toda a simbologia que a Lygia tinha feito, toda a trama, terminar assim trágica e negativamente – e eu juro que tentei entender o que significava aquela morte tão repentina e dolorida, tão anti-libidinosa, tão sufocante.

Não sei ainda. Provavelmente um dia eu desistirei de tentar entender e me acomodarei como puder no desconforto, na discordância. Não é do meu feitio, sabe, não aceitar morte de personagem ou discordar das decisões do autor. Mas nesse caso, especificamente, não consegui ter outra reação porque em duas passagens eu achei que estava diante de um discurso muito interessante e corajoso sobre a morte, a dor e a violência – e suas contrapartidas possíveis como a superação e a afirmação; então receio que esse final assim triste renegue o que de mais bonito eu vi naquelas passagens. Em seu momento mais cruel, naquela discussão, a Mulher Mascarada diz pra Cristina que “você é mesmo uma infeliz, você merece o pior”. E nada, pra mim, parece pior do que morrer querendo tanto viver e estar aberta às coisas, mesmo as mais difíceis e intratáveis. Não é só a morte que chega até Cristina, eu acho, o meu receio é ela ter sido morta por um certo moralismo (mas duvido tal seja a intenção da Lygia), e que triunfe a máxima de que vítima é vítima, algoz é algoz e fora disso não há nada. Mas enfim. Talvez um dia eu me conforme com o destino que teve a Cristina. Ou reescreva aqui um final alternativo, nunca se sabe.

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8 Respostas

  1. Esse livro aí eu não li; nunca li Bojunga, pra dizer a verdade (pronto, achou um autor que eu nunca li!). Antes eu ficava doente da vida com algumas resoluções literárias e certas mortes me faziam ter vontade de dar um jeito de esganar o autor e essas coisas todas. Mas com o tempo, fui parar pra pensar e percebi que, na maior parte das vezes, a merda da vida é assim mesmo. Vou dar um exemplo prático: eu tinha um grupinho de amigos na adolescência e havia uma garota que era a alma da festa. Linda, inteligente, engraçada, alegre, fazia das tripas coração pra ajudar todo mundo no que pudesse (e a gente tinha um monte daqueles amigos suicidas, sabe? Adolescente em crise e tals), um verdadeiro amor de pessoa. Uns meses atrás, ela estava voltando de um show com o namorado e uns amigos. A pessoa que estava dirigindo não bebe, eles não estavam acima do limite de velocidade nem nada, mas o carro acabou capotando. Todos os passageiros tiveram ferimentos leves, exceto a minha amiga: quando o carro capotou, deu um tranco no pescoço dela e uma vértebra foi esmagada. Agora ela está no hospital, tetraplégica. Sente os estímulos, mas não se mexe nem fala (tiveram que fazer uma traqueotomia); já teve dois comas e um princípio de AVC. Aí você pára e pensa: gente, aquela menina, que era a melhor de todos nós, por que com ela? Às vezes, muitas vezes, a vida é um baita anti-clímax, uma bela duma empata foda, então eu me acostumei a aceitar isso dentro da literatura e até mesmo a dar valor a alguns desses expedientes como traço de verossimilhança e boa mímese.

    Não acho que a morte da personagem seja um convite à aceitação do moralismo tonto que ruleia por aí. Acho que é uma lembrança da autora de que devemos estar preparados para que qualquer merda aconteça a qualquer momento e que precisamos estar com as contas em dia com a vida. Carpe diem e esse lixo todo que virou clichê, mas no qual a gente deve parar pra pensar a sério de vez em quando. A garota (pela sua resenha) parecia, finalmente, estar bem consigo mesma.

    Beijo.

    • Sério? Nem a bolsa amarela? Isso é surpresa :)

      Sim, se o pressuposto for que as personagens estão à mercê do acaso, ou das mesmas regras que estamos nós. E em vários casos é isso mesmo. Mas nesse livro… parece estranho, sabe? Qualquer escolha do autor é uma escolha estética e significativa, mesmo quando ele pretende reproduzir da maneira mais fiel possível o mundo real, a vida etc. Não tem como a Lygia se furtar de escolher como acabar o livro, por mais que ela ache que “assim é a vida”, vários outros desfechos também seriam perfeitamente possíveis e coerentes com esse pensamento.
      Outra coisa, é uma trama meio irreal, com muito simbolismo e arquétipos, tá bem longe de ser uma narrativa realística ou algo assim. Mais um motivo pra eu achar que o final não combina, não encaixa no que estava sendo escrito.

      Mas provavelmente sou eu quem não entendi. Ah, se um dia eu esbarrar com a Lygia Bojunga. Pergunto mesmo, na cara dura.

      Beijos

  2. Não li o livro, claro, mas me lembrei de outro livro, A insustentável Leveza do Ser. Porque neste livro, aquestão é justamente até que ponto a leveza pode ser pesada, né?
    Essa história de não poder perdoar o agressor e tal, tem esse componente. A leveza é pesada, então não posso ficar leve, não pode.

    No livro do Kundera tem uma passagem, não lembro mais direito, em que o Tomás (acho que é esse) olhe pra um retrato da infância… Aí ele lembra dos dias feliz, mas eram também os dias de Hitler. E ele queria se sentir feliz e só (leveza), mas sabe que a leveza é pesada, pois ele tá deixando de lado o Hitler. Então o peso é importante tbm, mas é complicado, né?
    Em resumo, vendo seu texto, achei que tinha essa questão da leveza e do peso. As vezes a leveza é insustentável, mas o peso também é.

    Valeu pelo texto, ajudou um monte de coisas que tavam complicadas para mim. Vou até ver se blogo sobre isso.
    beios, adoro seu blog e twitter!

    • Eu vou contra-argumentar, mas da mesma forma que eu fiz com a Shibbo: sabendo que sou eu a não entender o fim do livro, que estou cheia de dúvidas em relação a ele.

      É perfeitamente possível, sim, que seja uma questão de incompatibilidade entre uma felicidade plena, o desejo da Cristina, e seu passado violento. Mas. Mas. Ainda assim me parece estranho, porque ela é uma personagem diferente. Esse não é um livro com o fôlego de Insustentável Leveza, sabe? Ele é curtinho, tem uma linguagem coloquial, personagens alegóricos e um clima meio fantasioso. Quero dizer, tudo estava armado de modo a escapar de um registro mais “realista”, ou cru, do trauma e do estupro. E tudo o que foi estruturado em 3/4 da narrativa simplesmente se desmancha, cede num único baque e não deixa espaço pra ambiguidade, não restou espaço nenhum pra felicidade e pro desejo da personagem, ela foi morta pelo Homem da Água com o consentimento da Mulher Mascarada, então ela estava, o tempo todo, alheia ao horror e à ameaça. É exatamente isso que eu receio, e minha leitura não dá alternativas senão entender a Cristina como uma personagem que se equivoca, que se perde, que vive o trauma do estupro de forma delirante e amena até, num confronto real com seu estuprador, ser destruída por ele. Esse final não dá nenhuma chance de leveza, eu acho, nem uma que seja dúbia, pesada, impossível.

      Mas, de novo: esse é meu jeito de interpretar as possibilidades.

      Muito obrigada, e beijos! :)

      • Noto que o objetivo de Lygia desde o início foi criar a base para uma história de relativo terror. Aquela que finais felizes nem sempre acontecem.
        Tal final me parece querer atingir mais fortemente o público feminino que esta propenso a esses atos abomináveis.
        Querendo mostrar assim o quanto estres podem modificar uma pessoa, como no caso da obra em fazer perdoas e ainda gerar certos sentimentos pelo abominável ser que forçou a considerada “indefesa” a fazer de sua vontade.
        Ela não apenas mostrou esse fato como também jogou na nossa cara usando a presença da infantilidade de Cristina, além de sua inocência após “O abraço”.
        Lygia demonstrou seu repúdio pela aparição da figura mascarada que representa a morte o qual o qual julga Cristina fortemente.Eu particularmente vejo este final apropriado, e acredito estar de acordo com a mensagem subjetiva porém explicita que aparece durante a obra.

  3. […] eu li esse texto da Aline, daquele blog que tem um dos melhores nomes de blog, Godot não virá, e meio veio à mente qual é […]

  4. gente esse livro é maraaa!!! recomendo a todos que apreciam uma leitura de verdade

    • Na minha opinião, a morte de Cristina simboliza o quao dificil é a possibilidade de superar o estupro, portantelo fica so a Clarice que nao o superou..

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