felicidade demais

.: O livro caiu nas minhas mãos como um convite, e mesmo quando a Diana disse que eu poderia escolher outra obra pra ler e comentar, eu achei que o melhor era aceitar o pacote tal como ele me fora dado: este livro, nesta hora. Enquanto lia, aliás, eu ficava me perguntando o que teria feito a Diana pensar que eu gostaria desse livro (e ela acertou, eu gostei mesmo). Meu primeiro palpite é que os contos – por ora, vamos chamar de contos – da Alice Munro tem uma vocação semelhante às narrativas de Cachalote, naquele sentido mais amplo de mostrar um mundo aberto e imprevisível dentro do qual as personagens tentam fazer o melhor possível para tocar a vida e os desejos.

.: Talvez por uma falha na formação do meu feminismo, frequentemente eu esqueço de prestar atenção na particularidade feminina que supostamente guia a narrativa quando se trata de uma autora. E Felicidade demais não é apenas escrito por uma mulher, as histórias são, praticamente todas elas, narradas e protagonizadas por mulheres. Alguém me disse uma vez que simplesmente interessa o registro das experiências, dos sentimentos, das expectativas das mulheres e eu, sendo mulher, nunca pude me desvencilhar de uma certa implicância com esta afirmação. Não significa que eu não me interesso pelo mundo feminino – muito pelo contrário. Interesso-me, sim, mas rejeito toda premissa que permita sua pasteurização, que faça supor à plateia que as experiências e sentimentos e expectativas femininas são mais abarcáveis, mais representáveis, mais apreensíveis e homogêneas que as dos homens. Gosto, portanto, que as personagens de Alice Munro sejam complexas, variadas, que algumas sejam irritantes e outras intrigantes, que tenham de fato origens, anseios, inclinações e gênios distintos. Quero dizer, a subjetividade das personagens não é subordinada às questões de gênero, e embora basicamente elas todas sejam mulheres da classe média moderna com mais ou menos possibilidades na vida, elas são personagens diferentes, muito diferentes entre si. Não encontrei em nenhuma delas aquela mediocridade por vezes atribuída à experiência feminina pelo senso comum, como se para falar de nós, ou para nós, bastasse projetar um punhado de questões sentimentais e maiores doses de intuição e psicologia. Principalmente, encontrei nelas um genuíno exercício de composição literária, um proveito convincente da flexibilidade extrema da ficção; minha leitura me diz que Alice Munro saiu de sua zona de conforto, extrapolou o mero registro de caracteres femininos para criar, enfim, as estórias.

.: Então temos esse conjunto de narrativas que nem parecem muito com contos – li nalgum lugar que essas estórias são mais micro romances do que contos e, sem me inclinar sobre as especificidades do romance pra saber se realmente convém essa definição, digo que gosto dela. Pelo menos ela é conforme à impressão que eu mesma tive enquanto curtia o livro: são narrativas “um pouco muito demais” (pra usar uma expressão deliciosa do avô mineiro), com mais fôlego e minúcias do que eu esperava, com um fluxo narrativo meio disperso, deliberadamente frouxo, com a temporalidade não linear. Tudo feito como se a autora não se preocupasse absolutamente com a quantidade de páginas que seu texto iria ter, mas também como se ela fizesse questão de molda-lo assim, muitas vezes fragmentado e opaco, outras vezes fluído. Não chega a ser uma leitura difícil, mas certamente demanda atenção e provoca surpresas, seja pelas sutilezas que a Alice deixa no caminho, seja pela severidade de alguns acontecimentos da trama.

.: Essa, aliás, é outra coisa legal. Os temas e contextos mais óbvios relacionados à feminilidade estão lá no livro: maternidade (mas claro), amor, casamento, família, traição, beleza, erotismo, infância, juventude, velhice, solidão, viuvez, separação, carreira profissional, tarefas domésticas, amizade, feminismo… Mas a Alice consegue desvencilhar as narrativas da linha mais previsível porque, em primeiro lugar, ela não parece mesmo respeitar o limite (bobo, na minha opinião) entre “coisa de menina” e “coisa de menino”, então o universo masculino está ali também, edificado e receptivo. Ela parece à vontade, por exemplo, para inserir detalhes do trabalho de marcenaria, dos tipos de madeira, ou do nomadismo, ou da matemática e do ambiente universitário do século XIX, entre outras coisas. Há uma riqueza nos ambientes nos quais os homens são dominantes que, apesar de tudo, não antagoniza com as personagens femininas, ao contrário, as influencia e complementa. Em segundo lugar, e creio que isto é o principal, Alice Munro flerta com o baque, a violência, o abismo. Nada de extremo que torne trágicas as histórias (exceto em um ou dois casos), mas forte o bastante para impedir a amenidade. A morte, a dor, a doença, a mutilação, o assalto, a loucura, o homicídio – em torno da dureza as personagens se posicionam, interagem, se transformam, relembram, e nisso a feminilidade delas passa a ser mais um viés do que uma afirmação ou finalidade da narrativa. Gosto disso, e acho que é o grande mérito da obra que eventos arrebatadores disponham de um grupo de personagens femininas assim heterogêneas e consistentes, e que como resultado nós encontremos narrativas que tentam organizar o caos, que revelam maneiras de reagir ao inesperado e indesejado. E há, sempre, uma adequada dose de ironia – não necessariamente em sua linguagem, mas no encadeamento dos fatos, na disposição das consequências, no jogo entre as pessoas e a vida, enfim, que não deixa de provocar o leitor.

.: Não foi muito fácil decidir qual das estórias eu escolheria para comentar melhor e inescrupulosamente revelar spoilers, até porque eu gosto de cada uma delas por diferentes motivos. Acabou sendo meu critério aquela que mais me impressionou,  Brincadeira de criança. O resumo é ligeiro: duas mulheres, melhores amigas em sua pré-adolescência, se reencontram depois de algumas décadas porque uma está moribunda e quer – pelo menos é isso que a outra acha – se redimir de alguma coisa antes de morrer. Esse desejo de redenção obriga a outra a lidar com as memórias e com o pecado no qual ela tem participação – e agora eu vou soltar duma vez do que se trata: elas mataram uma menina, num daqueles acampamentos de verão, meio sem querer, meio querendo. Era uma menina com retardamento mental, vizinha da protagonista, Marlene, e que lhe causava incontornável repulsa. No acampamento, depois de evita-la a todo custo, ela e a amiga acabam afogando Verna no último minuto antes de partirem com os pais de volta pra casa. Por si só, a história já é algo. Mas a maneira como é conduzida, como eu fui obrigada a ir e voltar à mercê da memória de uma Marlene adulta que recupera e racionaliza tudo o que pode, como tive que tatear e supor sua culpa, seu crime, e, mesmo assim, só confirmar na última linha o que elas tinham feito… Gosto de ver ao lado da aspereza e profundidade dos sentimentos de uma criança que simplesmente odeia outra, que não entende e não aceita um Outro, um Estranho, a empolgação e o fascínio da primeira amizade sólida, do reconhecimento quase espelhado entre Marlene e Charlene (a futura moribunda). Esse laço infantil e puro que vira, num segundo específico e para depois se esvair durante décadas, uma cumplicidade cruel e aniquiladora. Há, também, passagens muito bonitas sobre o tempo, em especial a sensação da passagem do tempo pra Marlene quando menina – que funciona, numa via mais submersa, como uma espécie de desculpa para manter em segredo e esquecimento o crime contra Verna. Isso é mais um resumo da minha leitura mesmo.

.: Acho que é digno de menção, também, o conto que dá nome ao livro – taí uma coisa que sempre me encanta, a escolha dos títulos – Felicidade demais. Ele é baseado na biografia de Sophia Kovalevsky, “uma das primeiras mulheres a se tornar professora universitária de matemática, na Suécia do século XIX”. Eu fiquei o tempo todo ansiosa pra lê-lo, e entendi, acho, o porquê de este ser o último conto do livro: primeiro que visivelmente ele foi motivado por uma grande admiração da Alice pela Sophia, e isto ela mesma diz numa nota e recomenda a biografia da russa e tal. Mas eu também achei que foi elegante da parte dela encerrar as histórias dessas mulheres com um conto sobre uma predecessora, uma mulher que foi notável e que, numa dessas generalizações honrosas, determinou de alguma forma que a vida de outras mulheres fosse mais rica e aberta. É um conto curioso, que se sustenta em dados biográficos pra percorrer a vida da Sophia e traçar-lhe o perfil mas que principalmente abre toda a guarda pra fabulação. Tudo converge pra uma viagem de trem da Sophia (alguns dias antes de sua morte) durante a qual ela divaga sobre o marido, a filha, os pretendentes, a sua carreira como matemática, a política, as escolhas, enfim. E me pareceu que a reconstituição da voz do pensamento da Sophia é uma homenagem da Alice, muito mais do que uma síntese ou um registro posterior à pesquisa feita sobre a professora de matemática. Eu fiquei com uma impressão – e isso pode ser creditado mais a um romantismo meu – de que a Sophia, tendo sido tão impressionante, encerra a galeria de figuras femininas do livro de modo a sugerir o universo de possibilidades que existe nas pessoas e blá.

.: Lembrando, por cima, das histórias todas, creio que é possível dizer que todas as personagens, em algum momento,  surpreenderam o leitor, ou outra personagem, ou a si mesmas. E que essa capacidade de determinar-se para além do que é esperado, se é pra soldar um elo entre as mulheres da Alice Munro, é a fórmula e a chance de esbarrar, eventualmente, na felicidade. Tais são as últimas palavras da Sophia – e este é meu último spoiler por aqui – antes de morrer: felicidade demais.

Anúncios

5 Respostas

  1. Fico doente toda vez que você posta uma resenha tua aqui. Sério, doente de inveja. Acho que boa parte do pessoal da área de Letras tem vontade de fazer isso: um blog em que se possa comentar leituras com a liberdade que a universidade, mestrado, seja lá o que for, não permite. Mas quase sempre a preguiça vem montada na última página do livro e a gente deixa pra lá, esquece e, quando volta a vontade, a gente já não lembra tão bem assim do livro pra poder fazer um comentário. Pelo menos não um comentário da grandeza dos que você faz aqui (jamais me esquecerei do de Cachalote). Primeiro, são sempre textos enormes: só de olhar já bate uma preguiça. No entanto, é tudo tão fluido que quando a gente vê, já acabou de ler. Outra coisa, é que mesmo sendo um texto de blog, com toda a leveza que um texto de blog precisa ter, dá pra entrever ali atrás um academicismozinho (do bem, do bem, amiiiiiga, amiiiiiiga) embasando tudo.

    Ah, Aline, te foder, vai.

    Em tempo: sempre morri de preguiça da Munro. Agora vou ter que ler esse, porque, né? Shit.

    • A coisa de fazer Letras, eu sempre achei, é acabar com a linha que divide o trabalho do lazer. Sempre li livros porque amo ler, ponto. E na faculdade várias vezes eu me vi tendo que ler e escrever sobre coisas que eu não queria muito, embora esses momentos fossem sempre menores em quantidade e importância de todos os outros, nos quais eu descobria um autor ou uma obra, ou me propunha a ler algo já conhecido de maneira mais “séria”. O blog, pra mim, virou esse receptor do meu tempo de lazer, só chega aqui o que é feito com prazer e por prazer, mesmo quando é trabalho.
      Eu fico muito lisonjeada com vc elogiando minha leitura e minha escrita, Shibbo. Eu tenho vc em alta conta – especialmente no que concerne literatura (eu nunca disse o quanto amei aquela discussão sobre senhor dos anéis no reader, né?), então saber que vc me lê e dialoga comigo importa muito :)

      Eu não tenho problema em deixar escapar um quê de academia aqui no blog, não. Acho a academia meio afetada, várias vezes. Mas a blogosfera tbm é, então é empate técnico. Eu só me preocupo em um dia não distinguir um do outro, e acabar fazendo na academia as coisas com a displicência e a falta de profundidade que eu faço aqui. Ou, pior, achar que o blog tem e deve mesmo ter a profundidade acadêmica.

      hahahahahha se vc não tem muito saco com a Munro, não sei se é uma resenha que vai te fazer tomar coragem. Eu não a conhecia, fiquei positivamente surpresa e tal. Mas o livro é grande, e o estilo dela demanda energia mesmo. (to pra ver um autor q vc não conhece. cacete.)

      Um abraço =D

  2. Já eu tenho trauma da faculdade, porque os professores sempre me amarravam no pé da mesa.

    Gente, fiquei toda vermelha agora, hein? Eu é que fico lisonjeada de você se lisonjear com meus lisonjei—-bom, você entendeu. (Sério que cê tava lendo aquele thread? HAHAHA, a gente sempre esquece que dá pras outras pessoas verem e fala altas merdas).

    Minha história com a Munro é bem curta, mas longa a suficiente pra eu ter uma preguiça homérica. Agora, esse livro, procurarei. Principalmente pelo conto que você resenhou em mais detalhes, fiquei caída de curiosidade. E demandar energia não é problema: tô garrada com o Bloom esses dias e gasto, sei lá, uma hora por página. O véio manja demais da putaria, tô in love.

    HAHAHA, meu conhecimento de autores é triste. Eu podia estar trepando, mas tava lendo :(

    Beijo.

    • Claro q eu li aquele thread. E pior, eu cheguei um pouco tarde, acho q tinha ficado uns dias offline e peguei já começado, com vários vários vários comentários e fiquei depois dando F5. Como eu não li LoR, não pude contribuir com piadinha, mas passei adiante a versão brasileira dos personagens entre os amigos q leram…. hahaha

      O conto Brincadeira de criança eu achei excepcional.

      =***

  3. […] Aline, do blog Godot não virá, resenhou Felicidade demais, de Alice Munro. O Lucca, do Mundo Livro, leu Mongólia, de Bernardo […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s