furo na orelha e outras adversidades

Adoeci em outubro e foi nessa presepada que passei o mês praticamente inteiro. Nada grave a ponto de me botar medo, mas chato o bastante pra causar dor, incômodo, ajustes na rotina e, sobretudo, pra ainda não ter curado de vez. Por coincidência, minha irmã também se viu até o pescoço com um problema de saúde, em nada parecido com o meu e definitivamente mais difícil de lidar. Todavia este não é um post sobre doença.
O caso todo tem a ver com meus pais. Vi o pânico que a “condição” da caçula despertou neles, e notei que a apreensão era menos pelo problema em si do que pela impotência deles em relação a ela. Impotência em dois níveis: um, eles não são médicos e portanto não podem efetivamente resolver nada; dois, a Dani é adulta e decide sozinha como, onde e com quem se tratar, determina o quanto de interferência e companhia ela deseja, determina o que nos confiar, e quando. Então eu lembrei que foi mais ou menos parecido comigo quando eu abortei; eu já morava sozinha em outra cidade, bem longe das asas dos pais, mas senti, nitidamente, que a relação deles comigo mudou naquele momento específico. Meus pais passaram a me respeitar mais e me viram como adulta, independente e forte a partir daquele evento (chamemos assim) e do modo como eu lidei com ele. É um pouco verdade que eu também passei a me considerar fodona (ui) depois daquilo, mas uma coisa é você se sentir crescida e outra, muito diferente, é seus pais assentirem a isso e agirem de acordo.
Eu lembrei também que com meu irmão nenhuma encrenca precisou acontecer, seu ato de independência (chamemos assim) foi um mero furo na orelha: ele tinha uns 15 anos, decidiu colocar um brinco e pronto, meu pai machistinha se tocou que, oh, seu filho não é mais uma criança. Foi uma cena e tanto, estávamos num daqueles almoços de família e o Fi disse “quando acabar o almoço eu vou na farmácia furar a orelha, vocês tem até eu terminar meu prato pra dizer o que vocês querem dizer, porque eu realmente vou sair logo em seguida“. Climão. Eu olhei pra Dani, ela tava com o mesmo olhar de gargalhada muda que eu (nós duas já sabíamos do duro golpe que ele ia desferir). Minha mãe não levantou os olhos do prato e meu pai fincou o olhar na minha mãe. Meu avô parou de comer, apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçou os dedos e com muita sobriedade cortou o silêncio e a expectativa toda falando que “furo na orelha, fio, é irreversível“. Aí o Fi respondeu que não, que é só tirar o brinco e deixar o furo fechar e, se não fechar, é esquecer que ele está lá. Meu pai perguntou pra minha mãe se ela não ia dizer nada, ao que ela respondeu, rindo de canto de boca, “benhê, o corpo é dele, ele que decide“. Meu pai só conseguiu resmungar um “sou contra” enquanto eu tentava sufocar a risada com um pouco mais de batata gratinada e o Filipe, na cabeceira da mesa, olhava com deboche. Eu to fazendo parecer assim dramático porque, senhoras e senhores, foi deveras dramático mesmo. Ainda vejo o Fi levantando da mesa muito calmo e petulante, pegando a bicicleta no corredor da casa e saindo. Meu pai ficou, sustentou o olhar na porta, a refeição inacabada, desolado porque seu filho ia fazer algo que ele considerava de gosto e natureza duvidosa, à revelia da veemente e masculina oposição paterna.
Pra ser franca, claro que não tomo isso como um grande divisor de águas na história do amadurecimento do meu irmão. O fato é que o Filipe nem precisava de um divisor, pois em casa ele já encontrava menos resistência e superproteção e acabaria sendo considerado hominho muito antes de eu ou a Dani conseguirmos a mesma confiança. Mas tudo bem, eu aguentei o tranco que me veio e conquistei a reverência deles; a Dani também vai aguentar e depois disso ninguém mais vai questionar sua capacidade de cuidar da própria vida e resolver seus problemas. E – ainda por cima – ela terá o mesmo trunfo que eu uso, há anos, sempre que quero encerrar logo e sair vitoriosa de um debate moral com meu velho: “você foi machista comigo durante muito tempo pai, trata de não encher meu saco agora.” Tem mais: ultimamente eu dei pra provocá-lo dizendo que se eu tiver um filho (e isso é verdade), o moleque vai brincar de boneca, usar roupa rosa e furar orelha ainda criança, se assim ele quiser, enquanto ele quiser etc etc…

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10 Respostas

  1. Sensacional. A história do brinco me faz lembrar o dia em que fiz minha tatuagem. Sai de casa num sábado e minha mãe me perguntou onde eu ia. E respondi que ia trocar uma blusa que tinha comprado não serviu, comprar um livro que eu tinha encomendado e fazer uma tatuagem. Tipo, lista de tarefas do dia. Acho que ela não acreditou. E quando eu cheguei com a tatuagem feita, ela ficou meio passada. Mas eu já tinha 21 anos e não era problema dela.
    Não lembro quando os meus pais começaram a me tratar como gente grande. Tem uma amiga minha que os conhece que diz que eles não me tratam como adulta até hoje, e eu acho exagero da parte dela. Ah, mas lembrei de algo agora. Acho que quando seus pais tem uma crise feia no casamento e, esquecendo-se de que você é parte interessada, te chama pra ajudar a arbitrar, é porque reconhecem sua maturidade, né? Pois é, minha sabedoria (ui) para relações humanas ajudou a salvar o casamento dos meus pais.

    • acontece de um jeito em cada família, na minha sempre existiram pequenas diferenças que eu notava pq era menina e o fi, menino. nada grave q gere traumas e q não pode ser usado numa piada hj.
      ser chamada pra ajudar numa separação, sim, é sinal de respeito, po! :)

      tatuagem era tabu tbm. e piercing. meus pais, nesse sentido, eram muito pentelhos.

  2. ah, nao. passaram 23 anos ditando o que eu poderia ou nao fazer. depois que sai de casa, tenho um verdadeiro PRAZER em contar aos meus pais coisas que eu vou fazer mesmo sabendo que eles nao estao de acordo. nao eh vontade de provocar. a gente ja passou dessa fase. mas eh soh a vontade de sentir a liberdade de poder tomar FINALMENTE as proprias decisoes. prazer inenarravel :)

    • heheheheh

      e isso que vc diz que não é vontade de provocar? =)
      brincadeira. entendo muito.

  3. … e nem perguntei se você já tá melhor. Indelicadeza. Espero que sim.

    • to melhor, sim, merci. quase curada. :)

  4. ô querida,

    espero que ambas estejam melhorando.
    Um beijo e um carinho.

    • que fofa, você, flávia. obrigadíssima :)

      outro beijo.

  5. Sempre agradeci muito por não ter irmão do sexo masculino, pois meu pai é EXTREMAMENTE machista, no naipe de exigir que minha mãe sirva o prato dele. Tenho certeza que ele privilegiaria absurdamente um filho homem e isso teria dado muito pepino em casa, porque eu não aceitaria de jeito nenhum!
    Claro que fui vítima (e ainda sou) do machismo dele, assim como minhas irmãs. Mas acho que seria pior se houvesse um menino em casa.

  6. Muito bom,

    esses pequenos (ou grandes) rompimentos vão construindo nossa independência mesmo…mais complicado foi no meu caso, já que meus pais eram hippies e achavam tudo natural…assim, meus grandes rompimentos foram atitudes mais “caretas” do que eles esperavam…hahah

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