Neide Mota não foi presa

em memória de Neide Mota Machado.

 

.: A eleição trouxe o assunto à tona e eu entendo que a esta altura estamos todos bem fartos. Contudo, duas coisas me fazem insistir e escrever, de novo, sobre aborto: em primeiro lugar, e mais importante, a proximidade do aniversário de morte da médica Neide Mota Machado. Ela cometeu suicídio um ano atrás, e se não fosse isso, provavelmente hoje estaria presa. Segundo, um post da Juliana Cunha, de quem sou leitora e admiradora há pelo menos dois anos, questionando os argumentos pró-escolha.
Eu reconheço que levo a coisa pro lado pessoal, o que talvez justifique a intensidade com que me dedico a esta conversa, mas também considero meu esforço em manter meus argumentos num patamar racional, reflexivo. Não significa que eu consigo afastar por completo a enorme quantidade de emoções que o assunto me causa, mas ao menos que essas emoções estão constantemente sob análise, no limite das minhas possibilidades. Há pouco mais de um ano eu assumi publicamente que fiz um aborto aos 17 anos, e essa confissão, tão dura, tão longamente elaborada, tão necessária, eu a tenho como uma espécie de encerramento simbólico de um episódio muito doloroso da minha vida. A partir de então, eu me senti mais à vontade para pensar e falar sobre o aborto, não apenas de modo geral, mas sobre o meu aborto, a minha experiência. Sucedeu, como sabemos, de este ser um ano eleitoral em que o tema ganhou um destaque controverso, a ponto de se tornar uma batata quente nas mãos dos dois candidatos e suas campanhas. Não sei explicar ao certo o quanto me constrangeu ver as ótimas medidas que o Serra tomou enquanto ministro da saúde e as declarações da Dilma favoráveis à descriminalização viradas contra ambos, como se isso os desabonasse.

.: Lendo o post da Juliana eu lembrei que, ano passado, omiti do meu relato duas informações: uma, que eu engravidei em condições remotas. Eu estava menstruada, e quando, no mês seguinte, procurei um médico apavorada com o atraso, ouvi dele que as chances de eu estar grávida eram de menos de 5%. Pois bem, eu estava nesses 5%. Não faço questão de contar essa parte porque recuso a eventual condescendência daqueles que acham que se houve responsabilidade o bastante, se foi realmente um acidente, então sim, eu tinha o direito de abortar. Aceito a pecha de adolescente irresponsável que não se cuidou ou, para os mais radicais, resolveu transar. A segunda informação é que o namorado de quem engravidei, adolescente como eu, não me abandonou e me obrigou à condição infeliz de mãe solteira. Pelo contrário. Assim que o resultado se confirmou, eu vi minha vida ser determinada à revelia dos meus desejos: ele quis casar, a mãe dele deixou claro que nós teríamos de trabalhar pra sustentar a criança, todos me disseram que eu não conseguiria cursar a faculdade e acabaria desistindo. As assistentes sociais da universidade me sugeriram trancar o curso e voltar pra casa dos meus pais, pedir ajuda à minha mãe, que já sabe como é cuidar de criança (sic). Houve uma pressão muito forte, por parte da família dele (muito religiosa, por sinal), para que eu me resignasse e aceitasse de uma vez esse acaso milagroso que caía sobre mim: eu ia ser mãe, e apesar dos pesares, era hora de me alegrar e cumprir com meu dever (sic). Por poucas semanas eu tentei embarcar nessa, sem nunca conseguir responder sinceramente quando me perguntavam se eu estava bem, se estava feliz. Tomei a decisão definitivamente quando uma pessoa muito cara me perguntou o que eu gostaria de fazer da minha vida e eu só conseguia pensar que queria fazer faculdade, morar sozinha, viajar, ser completamente livre. Um filho não cabia, de jeito nenhum, nesses planos. Abortei, e não apenas perdi o namorado como ouvi, de todos os membros da família dele, que eu era assassina e estava espiritualmente condenada. Não me arrependi na época, tampouco me arrependo agora.
Eu tenho certeza de que mesmo se tivesse levado a gestação, meu relacionamento com aquele moleque não teria durado muito tempo. Mas também tenho certeza de que eu seria capaz de amar meu filho e pensar, hoje, que a melhor coisa da minha vida foi tê-lo. Eu sou capaz, e acho que toda mulher que aborta também, de projetar esse grande “se” e imaginar a história que não veio a ser – esse exercício mental não é privilégio dos pró-vida. Nunca pude afastar a impressão de que os anti-escolha acreditam que apenas eles dão o devido valor a essa pessoa virtual, idealizada, potencial (se você é um deles saiba que qualquer mulher que já engravidou pensou nisso milhões de vezes mais do que você) e, por isso, se irritam tanto com o argumento “meu corpo, minhas regras”. Apesar de saber que existe uma flexibilidade e que a tudo nós nos acostumamos, eu aprovo e respeito profundamente a escolha que fiz 9 anos atrás, em nome da pessoa que eu sou hoje. Talvez essa tenha sido a decisão mais difícil que eu terei tomado em toda a minha vida, e eu só posso lembrar que no momento em que ela se apresentou, da maneira que se apresentou, eu fiz o melhor que eu pude e sim, me coloquei acima de um filho que só existia virtualmente e que eu não queria, absolutamente não queria. Sempre haverá pessoas, verdadeiros humanistas que consideram que filho não planejado é castigo merecido pra mulher descuidada, para me dizer que essa pessoa, essa ideia de pessoa que é o filho que nunca existiu, valia mais do que qualquer aspiração minha, mais do que minha felicidade, mais do que eu. Teremos de aceitar, eu e eles, que a discordância é insolúvel e que, ainda assim, a prerrogativa sobre meu corpo era e sempre será minha – com ou sem aprovação moral, religiosa, legal.

.: Embora eu tenha corrido risco de infertilidade e morte, defendo o direito de escolha muito mais por conta da autonomia sobre o corpo do que por questões de saúde. A Juliana é inteligente e escreve bem, e por isso ela consegue sintetizar num post relativamente curto vários dos principais argumentos anti-escolha, entre os quais dois – que me soam mais como provocação do que argumentação propriamente – são muito nocivos e insuficientes. O primeiro deles está aqui: “Se a mulher tivesse direito de matar o que quer que estivesse dentro dela apenas por estar dentro dela, a gente deveria autorizar abortos no nono mês de gravidez desde que a mãe assumisse o risco.” Uma gravidez indesejada não se torna indesejada no oitavo mês de gestação, ela é indesejada desde antes de acontecer, é indesejada por conta de um contexto anterior e maior, e quando o resultado positivo surge, a mulher sabe que aquela é uma situação conflituosa. Não se comemora, não se compra roupinhas, torce pra que seja menina, escolhe um nome e espalha a notícia; o aborto provocado é feito tão cedo quanto possível porque uma gravidez indesejada não é um inconveniente qualquer a ser resolvido, é um enorme impasse que te testa moral, material, física e psicologicamente. Além disso, acho razoável que não se considere o feto da mesmíssima maneira ao longo das 40 semanas de gestação, quero dizer, durante as 10 primeiras semanas ele ainda é um organismo relativamente simples, frágil, pequeno – muito diferente de um feto de 35 semanas, que já está praticamente formado e pronto pra nascer. Eu sei, eles chamam tudo de “vida”. Mas se houver algum rigor científico aí, é preciso reconhecer que a “vida” existente num embrião recentemente fecundado é tão humana quanto um conjunto qualquer de células. A “humanidade”, a “individualidade” do feto acontece muito mais aqui, do lado de fora, com uma família que lhe confere identidade, espaço físico e afetivo no mundo do que fisiologicamente – mas, vá lá, também acho que depois de certo tempo de gestação é melhor considerar o nascimento e entrega pra adoção do que interromper a gravidez. O problema é que quem usa o argumento do “aborto aos nove meses” pra demonstrar racionalidade só o faz porque quer chocar e não quer conceder o meio termo, a viabilidade para que uma mulher grávida tenha um espaço de manobra suficiente. Não seria nada fácil estabelecer um prazo a partir do qual o feto está demasiadamente desenvolvido para ser abortado, mas ouso apostar que nenhuma mulher prolongaria seu sofrimento e esperaria a gestação avançar se lhe fossem dadas as condições sanitárias e legais desde o primeiro segundo de seu impasse.

.: O segundo argumento que me incomoda costuma aparecer diluído em outros mais pontuais. Basicamente, é aquele que promove o feto a pessoa e, por consequência, o aborto a assassinato. É uma solução elegante essa a da Juliana, que “respeita muito quem aborta sem considerar que o feto seja vida“, já que o conceito de “vida” não está devidamente fixado e constitui, por ora, a terra de ninguém entre as trincheiras. Quanto a mim, posso facilmente conceber – senão por convicção, pelo benefício da dúvida – que um embrião, ou um feto, sejam formas de vida. Não considero, entretanto, que sejam pessoas. Não são, e o Estado percebe isso tão claramente que não confere a nenhum feto naturalmente abortado esse status – por mais que os pais estejam enlutados e o berço esteja comprado. Também não há instituição religiosa que dedique uma específica liturgia ou o que quer que seja a um feto naturalmente abortado. Minha contestação ao argumento do aborto tardio já adianta bastante o que eu teria a dizer a quem compara um feto a uma pessoa, aliás. Eu só tenho a acrescentar que mencionar “assassinato” pra descrever um aborto me parece tanto pior porque constitui apropriação de vocabulário jurídico e criminalista para reduzir e condenar a mulher que aborta. Eu já ouvi, de conhecidos e desconhecidos, que sou assassina. A leviandade com que se usa essa palavra para agredir inexiste naquela que recebe a agressão: é impossível ouvir e pensar-se como assassina sem que isso machuque muito. Não estou falando de uma dor sutil, um desaforo que se engole, estou falando de uma acusação que carrega consigo uma ameaça, e não é à toa que estamos passando pelo aniversário de 1 ano de morte da doutora Neide Mota Machado. Não de sua morte natural, o que teria desagradado muito os anti-escolha: mas um suicídio, uma morte auto-provocada, só pra aumentar as sutilezas e ironias neste mundo.
O que eu nunca consegui é ouvir pessoalmente da boca de um anti-escolha, em alto som e boa articulação, que sim, eu merecia estar na cadeia. Que todas as mulheres que abortam são assassinas e – a conclusão é importante – por isso merecem ser presas. Não sei exatamente o porquê dessa suavidade na hora da sentença, já que a caracterização do crime e determinação do veredito parecem tão certas na cabeça deles.

.: A verdade é que eu estou um pouco cansada de brigar. Esse assunto é tão fundamental pra mim, mexe tanto comigo, que eu me decepciono com gente anti-escolha, eu me irrito com certos argumentos, eu penso em anular voto quando um babaca do PT fala besteira. Talvez eu deva simplesmente descobrir um jeito de não me importar tanto; ou achar o argumento definitivo que convencerá as multidões e fará, num passe de mágica, que a dissonância acabe. Qualquer coisa que me ajude a lidar com esta tristeza incontornável, essa sensação de perda e de injustiça que eu sinto hoje. Pela morte da doutora Neide Mota, evidentemente.

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19 Respostas

  1. um abraço bem forte, bem carinhoso. :***

  2. Eu vou meio que repetir um comentário que já fiz aqui. Embora Dilma, por uma questão eleitoral, tenha prometido que não enviará proposta de alteração da lei para o Congresso, o discurso dela tem um viés progressista e esse viés tem se acentuado agora, que o tema entrou de vez no debate.

    Isso ficou bem claro quando ela perguntou a Serra no debate se ele queria prender as meninas que fazem aborto ou atendê-las no SUS.

    Da outra vez você achou que isso é insuficiente. Mas eu percebo que esse discurso ajuda a causa pró-escolha.

    Tendo em vista os dados do Datafolha, que dão conta que a questão religiosa tirou bem menos voto de Dilma que o caso Erenice, tenho a esperança de no futuro um candidato a presidente poder se posicionar a favor da discriminalização sem medo de perder uma eleição. E que isso efetivamente contribua para a mudança na lei.

    • Não é que eu tenha achado insuficiente, eu já acho muito bom ela conseguir se posicionar assim, ainda que se esgueirando um pouco. Eu estava é me sentindo constrangida mesmo, com a qtde de gente dizendo que aborto é assassinato e que dá no mesmo matar dentro ou fora da barriga e etc. E me constrangeu demais o vislumbre de um possível recuo, algo que dilma fizesse pra garantir o eleitorado conservador e reforçasse a saída pelo plebiscito.
      Eu reconheço mesmo que minha posição não é neutra, e tvz eu simplesmente tenha q aprender a lidar com o assunto de outra maneira, um pouco menos visceralmente.
      De resto concordo com td o que vc falou.

  3. Sabe, eu acho tão complicada essa coisa de dizer quando começa a vida. Quer dizer, pra mim é claro que é um processo contínuo, envolvendo fatores muito objetivos (como, sei lá, a formação do sistema nervoso) e outros extremamente subjetivos, como o espaço que vai sendo criado pra essa nova pessoa na vida de todos os envolvidos. Sempre me impressionei com aquelas histórias de meninas grávidas cuja a barriga não cresce até os 5 ou 6 meses, quando elas contam pra família. Porque tem isso, enquanto a vida vai se desenvolvendo, este novo ser vai ocupando mais espaço mesmo. Então, claro que não é a mesma coisa com, sei lá, seis semanas, e com 36. E claro que é difícil estabelecer o limite da coisa, embora eu acho que formação do sistema nervoso, lá pela 10ª semana, me pareça um prazo razoável. Fora que, né, pode até ter países em que isso aconteça, mas imagina no Brasil, que as pessoas são tão espontâneas, alguém ver uma grávida na rua, perguntar pra quando é o bebê, e ela responder: “pra nunca, vou tirar na semana que vem”. Tipo, acho mesmo desonesto quem não entende que não é disso que se trata, que essa vai ser sempre uma decisão muito íntima, e o mais provável é que também seja discreta – mas por discrição eu não quero estou dizendo que deva ser um tabu, que fique claro. Ninguém vai querer esperar que uma gravidez seja pública, notória, inegável, o bebê mexendo, um rosto definido num ultrassom 3D pra dizer: “ai, acho que não quero mais”.
    Enfim, já te falei sobre o meu desconforto com o tema. Hoje penso que eu nunca faria. Mas, né, é um “nunca” de quem tá numa posição muito confortável na vida pra sair julgando as decisões alheias. Minha solidariedade será, sempre, pra quem passou pela dor de tomar essa decisão tão dolorida.

    • A gente só pode especular sobre qdo começa a vida. A menos que se assuma um dogmatismo qto a isso, ainda é impossível. Não depende de testes e de artigos científicos, está além mesmo. Eu não me importo em dizer que feto é sim forma de vida. Bactérias são formas de vida, formigas tbm, um velho em coma irreversível tbm é forma de vida, alface ovo vaca peixe e galinha tbm são, o coacervado era vida lá na sopa primordial. Vida é um conceito, um modelo nosso. Há que se respeitar, mas há que se estabelecer sutilezas tbm. Defender a vida, assim, tão vasta e absoluta é muito fácil. Defender as pessoas é que é difícil.

  4. Eu raramente sei o que dizer, porque minha experiência é tão limitada, tão auto-centrada, que eu percebo que não sei imaginar a dor, o dilema e o peso que envolvem sua escolha. E se eu tenho dificuldade pra entender tudo isso, certamente não consigo entender com clareza o que é assumir um aborto publicamente. Sem dúvida muita coragem é necessária, mas eu às vezes me pego parado só na admiração romântica e distante sem perceber o quanto de porrada de todos os lados você deve tomar.

    Mas divago. Assim como você gostaria mas não consegue pensar no argumento definitivo que convença as multidões (embora este post me pareça um grande passo em direção a ele), eu gostaria de pensar na moção de apoio definitiva, que fizesse você se sentir melhor pra sempre, e de quebra ainda te desse uma inspiração súbita para aquele argumento irresistível.

    Não sabendo como fazer, deixo aqui expressos meu apoio, minha solidariedade e minha admiração.

    Um abraço.

  5. Um post corajoso e sensível. Obrigada.

    • agrado e luciana, um beijo pra vcs.

  6. Um abraço Bem apertado.
    Do tamanho e da força necessarios para expressar agradecimentos por emprestar a voz.
    Do tamanho do que precisei quando entendi seus argumentos na pele.

    Por hora, não é questão de brigar… é de cuidar.

  7. Assim como você eu também sou leitora da Juliana e ontem quando eu li o post a única coisa que eu senti foi um pouco de desconforto, eu acho. Não vai ser a primeira nem a última vez que eu discordo de uma opinião dela, mas me incomodou muito o fato dela se referir a quem faça um aborto como um assassino. Eu acho essa uma forma grossa, e até ignorante, de se referir a quem faz um aborto.
    Os anti-escolha sempre olham por um feto, uma criança, eu já vejo mais o lado dos pais.Talvez minha opinião seja meio duvidosa porque eu trabalhei por um ano em uma creche da prefeitura e vi de perto muitos pais que não cuidavam nem deles direito com dois filhos para criar, e acho tão errado esse argumento do “Fez a besteira e agora tem que arcar com as consequências” porque aqui não estamos falando de uma batida de carro, ou algo do gênero. Um filho não é, e nem pode ser, um castigo. Eles batem tanto nessa tecla de “vida”, mas eu pergunto se eles levam em conta o que essa palavra significa. Eu nunca vi um anti-escolha ser educado e delicado para expressar sua opinião, respeitando o assunto, ou alguém que passou por isso, parece é necessário apontar o dedo, gritar e usar palavras pesadas para julgar algo tão delicado e, principalmente, tão pessoal, até fazer a pessoa se sentir culpada e envergonha.
    E eu queria dizer que você é alguém muito forte por expor sua experiência assim. Na sétima série uma professora fez questão de mostrar pra minha turma um vídeo de todo o procedimento de um aborto, do momento que a mulher deitou na cama até no final, com a câmera focalizando cada parte do feto. Não foi uma coisa bonita de se ver e eu nem posso imaginar como foi doloroso ter passado por tudo aquilo aos 17 anos de idade, com o mundo em cima de você te julgando por isso. Então, de novo, parabéns pela sua coragem.
    Me estendi muito, mas enfim, era isso que eu queria dizer.
    ;*

    • Uma coisa que cabia dizer, como resposta ao que a Juliana dizia ser o centro de seu post, é que os pró-vida não são considerados conservadores raivosos por ignorância ou arrogância dos pro-escolha, mas pq seus argumentos são afinadíssimos com o discurso religioso e sua postura, como é a dos religiosos radicais, é intransigente, inflexível e desemboca, cedo ou tarde, numa repulsa ao sexo e na culpabilidade da mulher. Nada do que ela disse é novo, e nem eu, aliás, mas entre nós duas, simbolicamente sou sempre eu a assassina, a radical, a irresponsável.
      A imagem que se prega do pro-escolha é de uma pessoa fria que odeia crianças ou que quer o caminho fácil, e em todos os sentidos esse estereótipo só piora a situação, pq não se trata de amar as criancinhas, mas de prezervar a dignidade e a liberdade da mulher. enfim.
      agradeço demais seu comentário. essas coisas trazem um conforto q ngm suspeita.
      =**

  8. Cada vez mais sua fã!

  9. Aline, sinceramente não sei o que dizer a você. Talvez fosse melhor não dizer nada, uma vez que o seu post é corajoso o bastante, demasiado humano, pra ser contraposto. Acho que poderia até questionar suas escolhas e seus argumentos, mas de uma coisa tenho absoluta certeza: jamais poderia julgá-la. A experiência de um aborto deve ser brutal demais – física e moralmente – para vir um idiota qualquer meter o bedelho. Esse preâmbulo todo não é pra me colocar em cima do muro. Sou contra o aborto, especialmente por questões morais. E, a despeito da controvérsia científica, penso que a vida já se dá na concepção (essa é mais dogma religioso da minha parte mesmo). No entanto, a fragilidade humana sempre surge na vida da gente, cedo ou tarde. Eu mesmo já passei por essa encruzilhada. Há doze anos, minha namorada ficou grávida (namorada de 3 meses, olha só). Eu desempregado e na época completamente porra-louca. Ficamos na escolha entre ter o bebê ou abortar. Escolhemos ter e hoje a minha filha é o que há de mais sublime na minha vida (ela e o irmão, que veio depois). Já senti um pouco na pele a incerteza, o medo, a vergonha, a castração moral e tudo o mais que a consciência judaico-cristã pode nos impingir, tudo é claro do ponto de vista masculino, que é muito mais sossegado do que da mulher. Finalizando, queria te mandar um abraço e um elogio pela tua força e coragem.
    Orlando

  10. Daí que li seu post e enviei por email para as amigas e amigos. Quis compartilhar um depoimento tão corajoso.

    Esses dias eu estava explicando as eleições para o Papa, ops! para presidente do BR para a cunhada americana e sobre o aborto ela ficou indignada dizendo que nem devia ser da conta de juizes e igreja, que essas pessoas nem deviam tá discutindo um questão tão pessoal, que diz respeito só a mulher. Quando falei que em alguns casos protegidos o aborto é legal no BR (estupro e ameaça a vida da mãe) e que a juizes conseguem barrar a decisão ela ficou mais impressionada. É tanto controle sobre nosso corpo que esquecemos de nos perguntar quando foi mesmo que um assunto-decisão tão privada passou a ser arma até de caça de votos.

    Um beijãozão para vc.

    • Andrea, Orlando, Mari

      eu basicamente só tenho a agradecer o carinho. um beijo em cada um :)

  11. Olá Aline

    Há algum tempo acompanho teus posts sobre aborto, mas nunca quis me pronunciar por vários motivos, talvez principalmente porque eu seria bastante superficial em minha abordagem.

    Diante do que já li, seja em teu blog, seja em outras fontes, me sinto tentado a dizer várias coisas, a manifestar opniões,argumentos,crenças, suposições. Mas sempre senti que o aborto é um tema muito sensível pra voce. Além disso, o máximo que aconteceria aqui seria eu reproduzir idéias e argumentos anti aborto que voce certamente já está saturada de ouvir e ler. Nesse sentido,não tenho nada a dizer nem a acrescentar.

    Resolvi comentar apenas pra te desejar um estado de espírito: aquele em que o ser humano sublima, e assim consegue estar em paz consigo mesmo,independente de todas as acusações que recebe. Espero que esse tema não seja como um espinho no pé que fica ali insistentemente ferindo ao londo da vida, parecendo nunca ter fim.

    Voce viveu a experiência do aborto e sabe no fundo da alma o que isso significa. Só voce pode transformar isso em algo que seja realmente importante pra voce.

    Um Grande abraço de seu fã

  12. Belo texto: humano, lúcido, verdadeiro. Imagino que deve ter sido catártico escrevê-lo e espero, sinceramente, que ajude a acabar com essa hipocrisia em torno do tema.

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