apologia

.: Encerrei o post anterior dizendo que “na ficção sempre haverá espaço pra se figurar o inviável, o insuportável, o abjeto, o impossível” e hoje, justamente, cai no meu colo (de novo, através da Flávia, a quem mando um beijo) a notícia de que a OAB-SP está tentando impedir a exposição de uns quadros aí. Não vi, na matéria, nenhuma alusão à palavra censura, mas deve ser porque nossos jornais andam meio confusos com certos conceitos relativos a autoritarismo e afins. De todo jeito, é um pouco sobre censura que estamos falando e muito sobre burrice. O gancho com o post do Bastardos Inglórios é bom porque o que me interessa, aqui, é mais o motivo da repulsa que os quadros provocam do que as providências que de fato serão tomadas, se é que serão.

.: O artista, Gil Vicente (risos), pintou cenas nas quais ele aparece ameaçando ou assassinando alguma figura pública notável, geralmente política. Parece que pra Bienal vão os quadros em que ele mata o FHC e o Lula, mas pra mim isso é questão secundária. Não vejo nada demais nesses desenhos, nem nos outros, em que estão representados o Papa, a rainha da Inglaterra, o Felipe Neto (mentira). Acho válido, sem ver nisso muita originalidade, brilhantismo ou complexidade. Morte ao poder, à opressão, ao neoliberalismo, à corrupção, é proibido proibir, violência individual x violência institucional, vigiar e punir, a fragmentação do sujeito no mundo moderno, eu sou serial killer, blá.
A nota da OAB-SP me causou certa graça, a princípio, por parecer deslocada e simplória. Sei que expressões como “apologia ao crime” e “afronta à paz social” são emprestadas diretamente do Código Penal, que não posso dizer que li, mas tomo a liberdade de zombar delas porque, neste caso específico, elas estão fazendo feio mesmo. É de uma pobreza lamentável reduzir todas as possibilidades de expressão de uma obra a uma intenção imperativa, como se a única mensagem (ou a mais marcante) que a arte tem a oferecer – ao contrário dos prudentes apresentadores de shows de calouros – é “pode fazer em casa que é tranks”. Os problemas em se repudiar uma obra por ver nela “apologia” a algo ruim passam, na minha opinião, por 1) a presunção de incapacidade crítica e deliberativa do público; 2) uma espécie de bitola que limita o alcance do incômodo e 3) a evidência da burrice do censor.

.: Em relação ao primeiro item, tenho a dizer apenas que, salvo quando se trata de público infantil, não há razão para recear os efeitos de uma obra, por mais impactante que seja ela. A arte existe para o deleite e a sublimação tanto quanto para o desconforto, o contraditório, a provocação – cada um que escolha e conviva com o que melhor lhe couber. A Bienal, justamente por ser um evento grande, num local público, deve receber também manifestações negativas às honoráveis instituições públicas nacionais. Não só porque disso se faz a democracia, mas porque desde que a Caroline foi presa por pichar aquela parede, a Bienal bem que está devendo essa.

.: Sobre o segundo ponto, só uma daquelas frases tipo regra de três que causam efeito sem precisar de muito fôlego: se a série “Inimigos” de Gil Vicente faz apologia ao crime e ameaça a paz social, então vamos evitar exposição pública do Guernica, queimar Grande Sertão: Veredas e fechar os cinemas, todos eles, que nem o infantil Bicicletas de Belleville passa impune por esse crivo! (talvez fique bonito meter um pouco mais de exclamações: !!!!!)

.: O terceiro ponto. Sempre que você esbarrar com a palavra “apologia” numa crítica negativa ao que quer que seja, desconfie. Grandes são as chances de você estar diante de alguém que simplesmente não tem recursos linguísticos e intelectuais para lidar com aquele objeto, seja para problematiza-lo adequadamente, seja para apreender dali algum significado. Não raro essa acusação de “apologia a” é feita a alguma obra impactante, violenta, arrasadora, e só poderia mesmo, pois são essas, justamente, que vão subverter nossos mecanismos de compreensão e referenciação, nossas estruturas sensíveis. Eu arrisco até dizer que são essas que viabilizam nossa politização, mas nem quero entrar nesse mérito agora.
Não necessariamente a obra em questão é boa. O diabo é essa gente que, sem entender nada e nem sabendo por onde começar um discurso crítico, torce o nariz e justifica com essa conversa acaciana de “apologia”, descontente por achar que o mundo ficou mais áspero, hostil e difícil por causa daquele um quadro, um filme, um livro. Nem mesmo uma obra indiscutivelmente nociva (e agora só me ocorre que ela deva articular e sustentar um preconceito explícito pra consquistar essa fama) merece ser despachada com um simples “faz apologia a”, sem que sobre ela nós formulemos um discurso combativo, desconstrutivo, denunciador.

.: Eu me surpreendi um pouco ao saber que há advogados assim obtusos e incapazes, embora eu mesma já tenha conhecido advogados bastante ineptos em administrar seus próprios conflitos e birras com o mundo. Só me ocorre agora que, talvez, o problema da OAB-SP com os quadros do Gil Vicente tenha menos a ver com a violência em si do que com o fato de ser uma fala contra uma figura política nacional e, por extensão, com o próprio governo e as instituições todas. Quero dizer, claro que o problema é ser contra o presidente. Mas ninguém pensa mesmo que existe aí um risco, um catalisador qualquer. Talvez nenhuma reação seja tão genuinamente brasileira quanto a indignação empertigada daqueles que não se sentem respeitados o bastante. Essa proteção bajuladora da OAB-SP em torno das imagens dos dois presidentes mais parece uma metonímia da alta estima que eles, lá na OAB, têm por si mesmos. Ou, vai saber, eles todos cabulavam as aulas de educação artística na escola.

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19 Respostas

  1. Brasileiro é muito fresco. E acha que tudo tem que ser resolvido pela lei, pelo poder público, etc. Nem acho que seja característica exclusiva dos advogados / bacharéis em direito.

    Acho louvável todo e qualquer debate público sobre a obra, seu significado, suas intenções. Deixem que digam, que pensem, que falem. Mas não queiram proibir, que é justamente interditar o debate.

    • concordo com tudo. só peguei no pé dos devogados pq são eles que estão fazendo o mimimi dessa vez.

  2. Lembrei-me de Elizabeth Costello, do Coetzee, em que numa das palestras do livro, ela defende o argumento de que certos fantasmas não devem sair do limbo para nos assombrar através duma obra artística. E coincidentemente estou com As Benevolentes, do Littell, na mão nesse exato momento, constatando que, de fato, existem certos demônios na arte que às vezes pesam demais. O problema, como você colocou brilhatemente no post, não é nem a discussão da validade ou não da representação da violência numa obra, mas essa incapacidade de constituir um argumento crítico. Confesso que não gosto dos filmes do Tarantino, mas nunca, sob nenhum hipótese, defenderia a tese de apologia, que tanto incomoda certos cidadãos.

    • Eu cheguei a dizer, no rascunho do post, que só fala em apologia quem não tem muito contato com a arte e acaba criando com ela uma relação simples de ela fala x, eu entendo x. Mas é besteira. Tem crítico de arte que toma esse atalho pra não ter que reconhecer que aquele é seu limite, não o da obra.
      Honrada em tê-lo como leitor e interlocutor.

  3. Gostei muito do post e concordo com tudo exposto, especialmente sobre a tentativa de interdição do discurso como se esse fosse ser calado a partir de idéias superficiais e cristalizadas de um grupo que, sim, acha-se no direito de julgar o que dizer e não dizer. No entanto, ressalvo um ponto que deve ser chamado atenção: a (des)valorização da nossa instituição presidência da republica. No Brasil, já padecemos demais desse mal, uma falta de respeito histórico para com o cargo, independente de quem o ocupa. É essa mesma falta de consideração que faz com que tantos jornais e revistas e colunistas da grande mídia escrevam absurdos sobre o presidente – crítica política é uma coisa, desrespeito ao humano e ao cargo é outra coisa – e vemos demasiadamente isso no Brasil. Falta entender que a instituição da presidência da república deve ser respeitada independente de seu ocupante – eleito pelo povo. Um contraponto nos ajuda a pensar melhor, mas foi um excelente post.
    Abçs,

    • Vamos por partes.
      Em primeiro lugar, não cabe à arte garantir o respeito da população, ou de quem quer que seja, ao chefe de Estado. Aliás, não cabe à arte garantir o respeito a coisa nenhuma, ponto. O chefe de Estado, assim como todas as instituições, conquistam respeito exercendo seu papel e respeitando, elas antes de nós, as instituições democráticas – como é o caso da liberdade de expressão.
      Em segundo lugar, se nós não temos respeito pelo cargo de presidente, talvez se deva ao fato de sermos uma república recente, inclusive subtraída em 20 anos de eleições diretas. Ainda: não se pode dizer que o Lula não é respeitado. FHC, até onde lembro, saiu do cargo com dignidade, e foi perdendo-a conforme o Lula fazia um bom governo e o FHC se mantinha à sombra, resmungando. Então respeitar o Médici é uma coisa, respeitar o Lula é outra. E são ambos presidentes, etc.
      Terceiro, não é direta essa relação entre uma obra que retrate o presidente numa situação violenta, a falta de reverência, própria da nossa cultura, às instituições políticas e o tratamento que os jornais dão ao Lula, em especial. Os jornais não tem falta de reverência aos cargos políticos, pelo contrário. Eles tem reverência e obsessão até, o que lhes falta é imparcialidade – coisa, aliás, que eu nem sei se é mais desejável do que simplesmente a explicitação da posição política que os jornais tomam.
      Abraço :)

  4. Concordo com o post e destaco os comentários da Mônica. A instituição presidencia da república foi e é altamente desvalorizada pela mídia brasileira. Acho que a grita do pessoal da OAB se deve ao fato de FHC, o “príncipe dos sociólogos”, fazer parte da coleção. Não noto nenhuma indignação dessa instituição com as ofensas gratuitas que o presidente Lula recebe diariamente de vários “colonistas” que escrevem em jornais e comentam em rádios e Tvs Brasil afora.

    • Bem, eu sustento de que a mídia não desvaloriza a presidência, mas o homem que hoje ocupa o cargo. Assim, grosso modo.
      Qto à indignação da OAB ser motivada pq FHC pertence à coleção, não posso concordar nem discordar, estamos especulando aqui. Pode ser mesmo, pode não ser. Se fosse apenas o Lula, talvez não dissessem nada, mas o “se” não nos ajuda a lidar com o que de fato acontece: eles querem censurar uma obra de arte porque a consideram inadequada para nós. Meu ponto é discutir os termos dessa inadequação atestada.
      Aliás, sublinho muitas vezes o fato de ser censura a uma obra de arte e não um artigo num jornal. A diferença entre a linguagem pode ser ainda mais significativa pra eles do que o conteúdo anti-Lula ou anti-FHC.

  5. Primeiro, quero adicionar mais alguns rsrsrs ao nome do artista em questão. Assumo que estou na terceira série naquilo que toca a piada pronta, jamais deixarei de achar sensacional.

    Seu texto toca numa piada pronta que é tão imensa e vem se arrastando há tanto tempo, não só no Brasil, mas no mundo, que já se transformou naquele tipo de humor trágico que trata de questões que parecem não ter mais conserto, com as quais só nos resta fazer piada: o que se pode fazer além de rir quando o poder público, que não cumpre suas funções mais basilares, resolve se dar ao luxo de, ó, proteger a população da, ai, mui terrível ameaça das expressões artísticas? O que fazer, além de balançar a cabeça e dar um sorrisinho quando essa gente não tem mais ocupação do que proteger as cofcofmassascofcof do pensamento de um, creioemdeuspai, artista transgressor que pode revirar a mente dos cidadãos de bem?

    Esse tipo de política é de um tal desrespeito para com a inteligência alheia, que não há muito mais a fazer do que se achar hilário. Hilário de um jeito péssimo, claro. Como você colocou no post, admitir tal tipo de censura é se tornar cúmplice da idéia de que vivemos num perpétuo jardim de infância onde todos os olhinhos e cabecinhas precisam ser constantemente protegidos dos males desse mundo terrível e admitir que, sim, somos todos uns tolinhos atrasados que terão apenas dois tipos de reação ao verem uma poça de sangue num filme, num livro ou num quadro: ou torceremos o nariz e ficaremos aterrorizados ou resolveremos que é chegada a hora da grande revolução e saíremos por aí matando velhinhos com facas cegas de cozinha. A capacidade dessas pessoas de simplificar assim as reações do público, seja ele formado por uma cambada de eruditos ou pelo povão que vai pra Sé às seis da tarde, não representa nada menos que um atestado de que esses fulanos que, putaquemepariu, estão lá pretensamente para zelar pelas normais sociais, são infinitamente mais obtusos do que os pobres mortais que eles tentam a tanto custo vigiar.

    Aliás, história do mundo, né?

    • Eu fecho contigo no comentário inteiro, salvo a parte em que vc fala que “o poder público não cumpre suas funções basilares”. Na verdade eu não sei exatamente se vc está falando do governo como um todo, se está falando de ações culturais e educacionais, se está falando da OAB, do estado de São Paulo ou do país.
      Mas é o de menos mesmo :)

      • Era da OAB, mesmo que eu estava falando :)

        E gente, ali é “representa” e não “não representa.

        • ah, ok :)

  6. Ótimo post, Aline -acho que concordo com tudo. Só um adendo: o título da capa da versão impressa da Folha é “OAB de SP quer que Bienal censure trabalho polêmico”. Ou seja, a palavra “censura” está mais que aludida. :) Um beijo.

    • puxa, eu faço uma ironia tão graciosa, espertinha e vc vem e pá acaba com minha graça.

      brincadeira. eu só vi pela versão digital, então que bom que pelo menos na impressa apareceu essa nomenclatura.

      outro beijo :)

  7. Há umas duas semanas teve o Intercom, maior congresso de comunicação do país, e numa das sessões do Intercom Júnior (só trabalhos de graduandos) assisti a apresentação de uma menina com o artigo “A apologia à infelidade na novela Viver a Vida”. A hipótese dela era a de que a novela, ao colocar mulheres infiéis como algo “normal”, comum, ensinava às donas de casa brasileiras a serem infiéis também. Ela pensa em fazer FOCUS GROUP para PROVAR essa hipótese dela,tá? socorro.

    Quando a menina terminou a apresentação, um amigo meu (bem mais educado e calmo que eu, foi uma estratégia pra não amedrontá-la – por mim eu começava já falando O QUERIDA VEM CÁ) começou a falar que via um certo juízo de valor na fala dela, que ao dizer isso ficava parecendo que todas as mulheres desejam a fidelidade, e que isso não é bem assim etc

    daí ela interrompeu dizendo que talvez ela tivesse colocado muito de sua visão pessoal, mas que quando ela “ouvisse mais opiniões”, pensaria a respeito. como se ele fosse uma opinião isolada. ai eu não aguentei né, falei que achava sinceramente muito perigoso ela querer fazer um focus group pra provar isso, porque ela tava naturalizando o conceito de fidelidade, que foi construído culturalmente e historicamente e blabla.

    ainda disse “fora que, a maneira como você fala, que ensina o público a ser infiel, dá a entender que você vê o público como uma massa amorfa que só absorve tudo que é passado pela TV, a gente tá cansado de saber que não é assim” e SABE O QUE ELA ME RESPONDEU? “Vocês estão achando que eu falo só de infelidade, não é assim. Esse artigo é só um *bebezinho* de um projeto muito maior, sobre telenovela. Eu não falo só de infidelidade. eu pretendo falar também de criminalidade, respeito” !!!!!!!!11

    depois disso você lava as mãos e só torce pra que ela aborte o bebê né? sem falar que era o pensamento senso comum lá, que infelidade é algo ruim, e que se tem infelidade na novela, ela ensina o público a ser infiel, que aprende o comportamento e depois o reproduz. papai. a gente foi minoria assim, gritante. e pra completar, ainda rolou o discurso “nós, como comunicadores, esclarecidos, temos a função de ensinar o que é correto ao povo, que só tem a telenovela pra se informar”, fechando com chave de ouro o festival de discursos preconceituosos dos estudantes de comunicação.

    • hahahaha
      mas que roubada essa palestra, essa pesquisa, essa pessoa, heim?!

      eu já vi isso acontecer, e muito, de gente que usa qualquer tipo de produção – de novela a pornografia, assim, de modo geral – pra confirmar o mundo tal ela o vê. uma moralista como essa mulher aí vai achar na novela o motivador pra uma sociedade imoral, assim como veria em qualquer outro lugar, porque como ela acha que já entendeu o mundo, já o decifrou, já identificou seus problemas, também saberá aplicar essa sua capacidade de leitura na ficção, etc. e vai sair por aí proferindo bobagens.

      beijos, querida :)

  8. Querida Aline,

    adorei o post e mando um beijo pra vc também.
    A OAB só censura porque diante dos quadros apareceram seus piores desejos e eles pensam que, por extensão, podem adivinhar o desejo dos outros. Querem acabar com o “lado mal” através da lei. Ainda bem que como antídoto existe a psicanálise =)

    • Ah, Flávia, fico muito feliz com a visita e o elogio. Obrigada :)

      Eu acho tão interessante a resposta que a psicanálise pode dar a esse episódio bizarro, assim como todos os aspectos políticos entre liberdade de expressão e censura que o Nodari mencionou no post dele. Eu, que sei bem menos do assunto, mantenho que há um quê de melindre nessa tentativa de censura, um arroubo de nacionalismo que só um período eleitoral é capaz de justificar. Mas enfim, é mais um palpite do que uma hipótese fundamentada.

  9. Olá Aline

    Acho que depois que completei 30 anos, envelheci uns 10 anos numa só virada de noite e incrivelmente sinto dificuldade, ou falta de paciência mesmo de ler textos que considero grandes, principlamente na internet. Além disso, preciso ler com bastante atenção na tentativa de compreender, já que voce usa uma linguagem aprimorada (elaborada e seletiva), principalmente quando escreve sobre literatura. Há a questão de tempo também, mas voce sabe que adoro vir aqui, então não tem jeito.

    Bem, já que cheguei ao final do texto e acredito ter entendido, admito que minha primeira sensação quando vi a figura foi: “que imagem horrível, que coisa absurda”. Só me lembrou aquelas cenas daqueles terroristas que filmam cenas decapitando pessoas e colocam na internet pra todo mundo ver. Mas após ter lido o texto completo, só posso dizer que concordo 100% com sua visão, porque há várias possibilidades de leitura que são ignoradas.

    Não é novidade dizer que as intituições públicas, sejam elas quais forem, sejam por quem ou por meio de que sejam representadas, devem sempre ser lidas de maneira crítica. A imagem em questão é impactante? Eu avalio que sim. Se ainda tempos algum nível de sensibilidade pra considerar uma imagem de assassinato como algo desagradável, que causa algum nível de repulsa, eu diria que sim, é algo que incomoda pela natureza do ato em si. Mas como você destaca, é preciso considerar as possibilidades de leitura. E talvez não seja difícil rapidamente ou quase automaticamente verificar que se trata, digo a grosso modo, de um ato de revolta contra o poder. Essa revolta é colocada, como se evidencia, de forma exagerada. Mas não é típico do artista exagerar? Não é típico da arte o apelo aos sentidos? Em uma país que se intitula democrático, como fica o espaço para o artista manifestar o seu pensamento, sentimento, sua imaginação contra o poder instituído? Ora bolas, não estamos falando de arte?
    Pra mim, o ponto que mais incomoda é justamente esse: que nível de liberdade eu tenho para combater de forma artística essa estrutura de poder que me oprime, num país que repete a todo momento ser democrático? Além disso, não é demais questionar, como voce o fez de outra forma, que poderes sobrenaturais possui a OAB pra classificar uma obra astística de isso ou aquilo.

    Não sei se acrescentei alguma coisa. Geralmente seus textos são bem abrangentes em perspectivas. É que o ponto “liberdade” sempre mexe comigo, e eu tenho que dizer alguma coisa!

    Um abraço e parabéns pelo texto.

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