bastardos inglórios

.: Escrevo, antes que passe tempo o bastante pra eu negligenciar minha intenção de encerrar com Bastardos Inglórios o assunto que comecei no post sobre Trem da vida. Só que pra chegar naquilo que eu quero dizer sobre Bastardos Inglórios, que é uma coisa bem pontual, preciso fazer antes todo um comentário sobre o Tarantino e a violência característica de seus filmes.

.: Lá em casa o Tarantino entrou incensado pelo meu irmão, claro, que é ávido consumidor de um gênero que ele mesmo chama de “filmes com violência grande gorda e gratuita para todos”. Então, naturalmente, Pulp Fiction fez glória entre nós. E Kill Bill, os dois volumes. Recentemente, Bastardos Inglórios. Claro que houve outros, e sei que no mínimo faço injustiça com Cães de aluguel, mas aqui só me interessa recuperar esses três. Eles bastam pra exemplificar o que já é mais do que sabido por aí: os filmes de signore Quentin Tarantino são espalhafatosos, violentos, sangrentos, engraçados. Mas existe uma variação de dose e tom desses ingredientes em cada um dos filmes, provocada basicamente pela inserção do mote vingança na trama.
Nem vou me estender: Pulp Fiction, cujo maior trunfo é a trilha sonora e o mullets ridículo do Travolta, impressiona porque sua violência é, como meu irmão gosta de dizer, gratuita para todos. Uma arma dispara no meio de uma frase e pá um cara tem a cabeça explodida no vidro do carro. É engraçado porque é fortuito, etc. Mas Kill Bill nem de longe entra nesse esquema. Aliás, se há algo a se dizer sobre Kill Bill é que toda a violência está absoluta e previamente justificada. A mulher engravida, larga o emprego e o namorado mafioso, foge pro interior pra casar com um bom moço e no ensaio da cerimônia o ex aparece com a gangue, chacina geral, espanca e lhe dá um tiro na testa. Se ela fosse advogada, funcionária da receita federal ou blogueira, esse mano estaria perdido de maneiras que ele mal poderia compreender. Sucede que ela é assassina. Então sua vingaça, ora, será assassiná-lo. Uma vez o Filipe veio me contar que criticaram Kill Bill por não ter uma história, só cenas de matança. E que a isto Quentin respondeu com um ué: a história é uma mulher que se vinga de quem ferrou a vida dela. Ué. É óbvio mesmo. A gente ri de Pulp Fiction sabendo que é um riso mau, sardônico, de quem torce pelo vilão, aliás, de quem nem sabe mais quem é o vilão então podem todos se matar à vontade. Kill Bill, não. Esse filme pressupõe uma clareza de papéis, pressupõe que há o certo e o errado. Mesmo que ironicamente, pois Quentin Tarantino não é um ingênuo. A mulher, a noiva, a mãe, a discípula de um honorável mestre chinês: Beatrix é a mocinha e tem carta branca. Ela mata Vernita quase na frente da filha, garante o direito de resposta à pequena e isso, amigos, é nobreza de caráter. Pica na espada 87 ninjas fissurados, libera 1 depois de umas palmadas e isso, voilà, é humor. Não pensem que eu não gosto do filme, eu gosto muito. Só estou querendo dizer que sim, é violento, sim, é a cara do Tarantino, mas ó, é diferente. Não que nós sejamos seres muito elevados, mas o riso vem mais fácil, mais solto, se a vingança é indiscutivelmente justa. Bastardos Inglórios pega essa lógica e extrapola, porque busca a justiça fora da esfera individual, ele vai atrás de uma revanche histórica, social, coletiva e, nisso, é ainda mais nobre.

.: Um outro comentário. Já que eu mencionei a Maria Rita Kehl no último post, vou esticar a passagem dela por aqui com este trecho: “o convívio ‘normal’ com a crueldade traumatiza o sujeito que se autorizou a ser cruel e imagina beneficiar-se disso”, ou seja, que a violência não fragmenta apenas a vítima, mas também, e de outras formas, o agente. “Não é fácil a passagem do ‘sou um homem’ a ‘sou um assassino de outros homens’ – ela tem um preço alto”, a Kehl diz. E em Bastardos Inglórios não é fascinante apenas a figura de Hans Landa, o Caçador de judeus cuja personalidade é inflexível e plena. Eu realmente acho fascinante que o algoz dos nazistas seja um caipirão americano que, à revelia do que sabemos sobre a alma despedaçada dos assassinos (oi, Voldemort), não se fragmenta. Claro, esse é um filme que busca o efeito cômico, não acho isso nada estranho. Pelo contrário, eu acho fascinante o quão natural é para nós aceitarmos a integridade psíquica do vilão tanto quanto do herói vingador, mesmo que ambos cometam assassinatos e crueldades. Mesmo quando o vilão é um nazista convicto e o herói é um capitão embrutecido (a Shoshana é um caso à parte, ela é a única personagem que dialoga com o trágico, a precariedade e o abismo; por isso ela nem vai entrar no meu post).
E isso é uma coisa que o conhecimento do que foi o Holocausto geralmente desperta nas pessoas, uma perplexidade fértil à vingança, uma sanha contra os nazistas. Somos capazes de desejar e gozar com a dor e agonia que porventura eles sofram, e quanto maior seu martírio, maior nosso alívio. Então Bastardos Inglórios é bom porque oferece generosamente o espetáculo, ele lava a alma, promove a catarse. Esse filme tem a sabedoria que faltou ao A vida é bela de não incluir, de jeito nenhum, um campo de concentração nas piadas; ao mesmo tempo em que confronta a grandiosidade da ameaça que os nazistas representam com a simplicidade de um pequeno grupo de mercenários sádicos. Esse confronto, tão convidativo à nossa fantasia, é sintetizado e levado com maestria nas situações em que Hans Landa e Aldo Raine contracenam. Esse choque do nazista com uma trama cômica e desfavorável é basicamente o que aproxima Bastardos Inglórios de Trem da vida, sendo que este usa a farsa e a esperteza como antídoto para o trauma enquanto aquele vai na base da truculência mesmo. E, claro, Trem da vida cede, no final, porque é um filme melancólico. Bastardos Inglórios, ao contrário, não tem nada de melancolia nem de fragilidade, ele se permite formular uma alternativa completa, paralela, vitoriosa e risonha.

.: A ficção sempre terá esse zap na mão: sem ela a gente é capaz de morrer à mingua. Um filme como Bastardos Inglórios conta com nossa sede de vingança e a manipula muito bem. Por ser uma obra ficcional, permite que a crueldade aflore sem que a violência que nos constitui nos traumatize, nos transforme, nos faça atravessar a linha. Eu tinha uma amiga que odiava Dogville por isso, porque nós somos tão provocados com os abusos e injustiças, durante duas horas, que quando a Nicole metralha e toca fogo na vila, só conseguimos vibrar. Aquela cena de matar os filhos da mulher que quebrou os bibelôs prova que nós somos capazes de fazer essa equação absurda na qual 1 bibelô quebrado = 1 criança morta. Essa minha amiga, muito inteligente e sensível, dizia que esse filme é uma armadilha. Eu concordo perfeitamente com o que ela diz, com a diferença singular de ver nisso uma qualidade, e não um defeito do filme. Uma obra que provoca o meu pior não está, afinal, inserindo nada novo em mim, está apenas me mostrando onde estão meus limites e, de certa forma, isso é libertador. Eu acho até meio brócolis demais ficar dizendo essas coisas. Mas é que é nisso que eu penso quando assisto Bastardos Inglórios: que eu me delicio com o estraçalhamento dos nazistas, que sei do meu impulso de destruir o outro com quem eu não me identifico e considero maligno, que é bom que a arte me traga esse deleite e saciedade ao mesmo tempo em que me dá a chance de elaborar um discurso crítico a respeito.
Na ficção sempre haverá espaço pra se figurar o inviável, o insuportável, o abjeto, o impossível… (e aqui eu já ia me comprometer a falar de Irreversível num outro post). No fim das contas, continuamos todos contrários às chacinas (eu espero). Eu não sou a favor de pena de morte, e acho que não o seria nem mesmo para os maiores responsáveis pela Shoah. E nem é por compaixão: eu tenho crueldade o bastante em mim pra manter, meio secretamente, aquela ideia de que o pior seria uma vida longa de privações e fantasmas na cadeia. Vingança é prato que se degusta sempre, de um jeito ou de outro.

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18 Respostas

  1. Todos que vem o filme dizem que matar Hitler é uma das coisas mais geniais. E a morte vem acompanhada de riso, gozo, extase. E como voce mesma disse, quem ri nao é Shoshana: somos nós. A vinganca pode ser vista como uma chave nos filmes de Tarantino e ainda mais nesse Inglourious Bastards, mas nao uma vinganca qualquer : ela vem acompanhada de prazer na dor do outro, de sofrimento. Nesse ponto, concordo que uma pena de morte seria pouco para saciar nossa sede de vinganca, mesmo com todo carinho doce que tenhamos pela vida.

    A fúria, enfim, está em nos mesmos. E durante todo o texto pensei em Irreversível. Quem nao queria vingar aquele estupro absurdo?! Aquardo entao seu post sobre o filme.

  2. Muito boa análise, acho que se você não viu, também vai gostar muito de “À prova de Morte”. Acho muito interessante também analisar a vertente estética que o tarantino explora nos filmes (trilha sonora inclusive, por favor), explorando esse sentimento contraditório que temos em relação à violência. Mal comecei e já me considero um leitor assíduo, desde já, do Godot não virá.

    Abraços,

    Luan

    • Luan, eu ainda não vi esse, mas já me recomendaram. Só não me apressei porque a ideia era parar no Bastardos mesmo, por causa do tema do nazismo. O Tarantino faz filmes que só parecem simples, eles tem uma intertextualidade com outros filmes, um requinte de imagem e som, como vc falou. Fico feliz que vc goste daqui, seja bem vindo. Beijos!

  3. Texto sensacional, Aline. E, por favor, faça um post falando sobre Irreversível, please. =P

  4. Barabaridade! Eu sou um fã confesso do trabalho do Tarantino. As trilhas sonoras são incríveis, assim como os diálogos compridos que vão deixando a gente tonto até a hora do desenlace. Aquele no começo de bastardos inglórios, pouco antes de apresentar a Shoshana é desse naipe…

    Gostei muito do post, realmente vc disse tudo

    Parabéns

    • Ah, eu tbm gosto dele, embora não seja grande entusiasta. O começo de Bastardos é demais, vc tem razão. Obrigada, e beijos

  5. Eu gostei demais de Bastardos Inglórios. O diálogo do começo do filme é uma de uma opressão e de uma violência absurdos. O que só prova que o Tarantino, apesar de abusar de sangue, não depende dele pra retratar a violência.

    E sobre a maldade, não poderia concordar mais. E eu li uma entrevista em que ele dizia algo por aí, que a idéia era fazer um filme em que a caça não despertasse compaixão nenhuma, em que a gente torcesse pelo caçador não importando o quão cruel fosse. E sacou que os nazistas poderiam ser a caça perfeita.

    Eu sou contra a pena de morte não por solidariedade ou compaixão, mas porque acredito que justiça e legalidade devem ficar fora das paixões humanas sempre que for possível. Mas, olha só, eu como carne sem a menor dó dos bichinhos. Tenho o maior respeito por vegetarianos (os não-proselitistas, claro), mas se eu não poder canalizar minha maldade comendo picanha sangrando, o que será de mim?

    • A primeira cena do Bastardos, em alguns sentidos, é a melhor. O Waltz está perfeito, magnífico, é uma cena de apresentação de personagem impressionante. Vou ficar rasgando elogios, só. hahahaha E vc tem razão, o diálogo é muito sufocante, violento.

      Olha, eu acho que *só* os nazistas poderiam ser essa caça perfeita. Desconheço, no mundo, na história, algum grupo que tão facilmente desperte o horror, o desprezo. O nazista já tem um que de mitificado, ele já figura como o exemplo último do mal e a exceção mais aceitável para a vingança, a penalização. Por pior que vc seja, vc nunca será tão ruim qto ele etc. E o Tarantino fez desse posicionamento prévio nosso um ingrediente necessário ao filme. Ele poderia pegar qq outra barbárie para vingar, não teria o mesmo efeito. Depois que eu postei eu percebi q esqueci de escrever sobre uma frase do Raine q eu gosto: “não vamos lá ensinar humanidade aos nazistas”. É um filme nada hipócrita, esse. =)

  6. ai, tu contou o final de dogville, malvada.
    agora vou buscar vingança.

    :X

    • hahahah menina, achei q o mundo todo já tivesse visto esse filme!

      mas fique avisada: eu spoilo mesmo. parto do princípio que pessoal já viu ou não liga de saber o final. não dá pra analisar um filme sem contar sua história, muitas vezes seu final. senão eu vou ficar só resumindo, parafraseando e atribuindo qualidades boas/más… que graça tem nisso? =P

      não se vingue! a vingança nunca é plena, mata a alma… vc entendeu =D

  7. Imagina o que vc não irá debulhar falando dos filmes do Michael Haneke. Muito bom esse texto.

    • Caché tá na minha lista de filmes a comentar um dia… :)

  8. Sobre o último parágrafo do texto: quero te indicar um filme chamado O Segredo dos seus Olhos. Ganhou o último Oscar, melhor filme em lingua estrangeira, se eu lembro direitinho. Cabou de sair pra locação, e se duvidar ainda tem naqueles cinemas mamãe quero ser cult… (e sempre tem os metodos mais heterodoxos.torrent)

    Depois comento melhor o texto! (mentira, claro)

    • já estou baixando, obrigada! =D

  9. Muito interessante isso sobre Dogville. A armadilha está lá, visível, e a gente cai prazerosamente. Depois de duas horas de crueldades, pouca distinção fazemos entre culpados e inocentes. A névoa toma conta do lugar e só há a sede de vingança. O mal que em nós repousa aflora e nos une. Pode até ser uma fórmula (mas funciona, sobretudo com a muleta visual da cidade desenhada no chão, absurda), mas nos deixa um pouco nus e sós com a nossa mesquinharia. Também acho isso uma qualidade no filme.

    Sobre os Bastardos, não tive tempo ainda de ver. Depois dou uns pitacos também.

    Abraços, Orlando.

  10. Tropa de Elite tbm é o mesmo esquema de Bastardos. Queremos que a polícia seja violenta…
    Manoel

  11. Se era para modificar a história ele podia simplesmente matar Hitler na primeira cena e após fazer um musical.
    O filme é irritante clichês do princípio ao fim, mesmo o Sherlock Holmes Nazista é caricato.
    O pior de tudo que nos USA assim como no Brasil a maior parte do povo, que não conhece a história, vai pensar que o Hitler foi morto pelos americanos (que se diga de passagem tiveram uma atuação pífia no cenário de guerra europeu), é uma boa mensagem subliminar para beatificar os Norte Americanos como todo poderosos.

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