eis a ocasião

.: Em 1978, Antonio Candido publicou um artigo e em 2002 eu o li pela primeira vez. “Radicais de ocasião” não é meu texto preferido, entre os muitos que ele escreveu, mas talvez seja aquele que mais me fala à alma nesse momento. Eu, que faço posts de orelhada, lembrando as coisas meio de cabeça e citando referências sem me preocupar muito (porque ou eu aceito a displicência da minha escrita no blog ou nem me animo a manter isso aqui), cacei na minha estante o texto, reli, estou com ele aqui do lado desde que li* a matéria “O espião da Dilma”, que a Folha publicou ontem.

.: Há um desconforto por aqui. Dos grandes. Algo está muito errado quando a ausência de debate e elaboração a respeito da ditadura e das atrocidades que ela permitiu é ultrapassada por um reposicionamento das vozes e dos agentes envolvidos ainda mais nocivo do que o próprio silêncio. Não é preciso ir muito longe e perceber que a reconciliação forçada que os militares impuseram com aquela anistia absoluta, na época da redemocratização, causou mais mal que bem. Autorizou definitivamente o sofrimento infligido aos torturados, mortos e seus familiares, impediu que a sociedade tivesse com sua própria história uma relação mais limpa, consciente e crítica e, como se não bastasse, fez com que a violência permanecesse válida como linguagem e método das instituições policiais, mesmo ao longo dos anos subsequentes.
Todo o esforço pela abertura dos arquivos e reconhecimento público da tortura, nos últimos anos, motivou já muitos discursos e posicionamentos favoráveis a essa elaboração, mais do que necessária, de um episódio violento da história nacional. O inacreditável é que isso tudo se torna um mero ponto de partida, um discurso pressuposto, quando um dos principais jornais resolve publicar uma matéria dando voz e consistência à fala de um agente da ditadura em relação a uma ex-militante, presa e torturada. A Folha mirou na candidata, provável futura presidente do Brasil, mas acertou num espectro de seu passado, que é nosso também, e traz à tona a quantidade enorme de episódios traumáticos, mal digeridos e mal explicados, que a ditadura nos causou.
É impossível chamar a fala de um ex-agente da ditadura militar sem que ela carregue consigo todas as suas contrapartidas, nas quais se inclui, justamente, a ausência de falas dos espionados, dos presos, dos torturados, de memória dos assassinados. Não que eu prefira manter essas vozes submersas, ignoradas, sufocadas. Que venham à tona, então. Mas nunca, em nenhuma hipótese, que a esse ex-agente seja dada a oportunidade de participar de novo da história do país, sobrescrevendo, sobre a imagem da Dilma candidata à presidência, a visão distorcida e cínica que ele tem da Dilma militante de 40 anos atrás. Eu já não estou sequer preocupada com efeitos eleitoreiros que isso pode causar. O que me dói é essa inversão de papéis, esse desprezo e completa falta de empatia pelo outro que essa matéria demonstra.

.: Flertando com uma forma genuinamente jornalística – a crônica – a matéria vai pincelando e compondo uma imagem bastante significativa. Ela consegue, aliás, inviabilizar qualquer chance de justiça histórica com suas sutilezas muito mais do que com aquilo que diz explicitamente. Por exemplo, a chamada “Ex-agente da ditadura militar acha que Dilma ‘nasceu para mandar, não para ser mandada’ e acredita que ‘Lula vai se enganar com ela’.” pode parecer chocante e alarmista, mas tem um efeito sugestivo inferior ao da primeira linha: “Nos arredores de Tristeza, um ex-espião da ditadura militar assiste na televisão à candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, com desconfiança.
Se você olha pra isso como quem lê um texto ficcional, é capaz de figurar um zoom num subúrbio, numa casa simples, num cômodo pequeno, onde  se vê um velho numa poltrona e a luz azul oscilante que sai da tv. Como personagem, esse ex-agente que não se deu bem consegue fácil uma roupagem de fragilidade, de decadência e inofensividade, num paralelo (viável apenas dentro do cinismo da Folha) com a trajetória ascendente e positiva da Dilma. Mais do que uma personagem, esse ex-agente constitui uma posição privilegiada na história que se conta, ele é a perspectiva, o foco narrativo a partir do qual a matéria investiga, casmurramente às avessas, se a Dilma militante perigosa ainda existe nesta pacifista de agora, como uma semente dentro da fruta. Não por acaso ele atribui à minha futura presidente qualidades do tipo “não boazinha”, “amarga”, “dura” e encontra, na reportagem – o narrador onisciente desta micro narrativa –, o respaldo e repercussão necessários para validar essa contraposição que ele pretende oferecer ao leitor:

É de lá que Ribeiro assiste a Dilma na propaganda eleitoral gratuita, sorridente, tranquila, sem óculos, cabelos arrumados e com um discurso suave.

LOBO

O ex-coronel relembra a Dilma que vigiou: cabelos armados, óculos de lente grossa, com personalidade forte para intervir em discussões entre esquerdistas e fazer valer sua opinião.”

A questão é toda esta, não há notícia aí. Há apenas a composição de caracteres, o arranjo linguístico que generosamente oferece ao ex-agente a firmeza de uma voz sólida, plena, constante e resistente aos anos num confronto surdo com uma mulher agressiva, ardilosa, contraditória e dissimulada. Aplicássemos nós a teoria das personagens de ficção mais básica nesse artigo e diagnosticaríamos apenas mais um caso em que uma personagem plana narra uma personagem esférica, de difícil penetração. Não é problema no mundo literário, esse esquema, mas é um problema sério no mundo político, na narrativa histórica, num texto jornalístico.

.: Cismei muito ao notar que esse ex-agente, que eu recuso nomear aqui, usa a palavra “amarga” pra descrever a Dilma. Aceitando, por um momento, que seja verdade: quais seriam suas expectativas em relação a uma garota que aos vinte e poucos anos teve que debater-se contra um estado autoritário, violento e ilegal, que arriscou sua vida e viu seus amigos e companheiros em risco? Que tipo de alegria e leveza deve-se esperar de alguém que, sob ameaça de aniquilação e em nome da liberdade, se insurge contra um governo, contra instituições policiais? E contudo, veja só, ouso dizer que provavelmente nem assim “amarga” seja a expressão adequada para qualificar o estado de espírito da Dilma – nem a de antes, nem a de agora. Essa palavra, parente próxima da “ressentida”, dirige-se muito mais àqueles que, como disse Maria Rita Kehl, “recuaram sem lutar e perdoaram sem exigir reparação”. Que a anistia forçada tenha instituído a injustiça de por num mesmo patamar torturadores e militantes resistentes, é sintomático do quão curta é a visão dos militares a respeito da humanidade das pessoas – e por isso, não me surpreende que um espião a serviço dos militares creia, por míope que é, que Dilma seja uma mulher amarga. E aqui eu lembro da primeira peça de campanha da Dilma, com uma amiga dela dizendo exatamente o contrário: que ela foi recebida pela Dilma na cadeia, que a Dilma lhe abriu os braços e o sorriso, que “a vida não a derrubou”, e com a própria Dilma contando que sobreviveu à cadeia vivendo-a plenamente. Essa diferença nos registros a respeito da Dilma não vem apenas do contexto eleitoral, mas do foco narrativo. Obviamente, uma amiga vai ter dela uma visão muito mais bonita do que um torturador. Mas que tipo de mentalidade procura no testemunho de um espião militar algo válido para se entender quem é a Dilma (ou qualquer coisa neste mundo)?
Mas eu ainda me sinto inclinada a tentar achar outra fonte de ressentimento aí, talvez por vício em tratar esse artigo jornalístico como uma crônica ficcional. Sobra apenas esse estranho narrador onisciente, não o jornalista individualizado, mas a entidade que ele representa e que se posiciona. A Folha, que já tanto nos agrediu com o neologismo ditabranda, que publicou a falsa ficha policial da Dilma. Eu realmente não estou querendo esmiuçar as motivações eleitoreiras, embora pense que elas existem e são fortes. Mas há algo de estranho, de deslocado, de incômodo nessa constante capitulação da Folha ao discurso conservador que defende ou relativiza a ditadura. Quero crer, sem saber se isto é melhor ou pior, que não é apenas pelo Serra que a Folha se presta a publicar essa caracterização contraditória e pejorativa da Dilma, sem questioná-la nem por um segundo; quero crer que há nisso um sintoma, um reflexo desse engasgo coletivo quanto à nossa história, às nossas atrocidades constitutivas. Se esses episódios da Folha forem um sintoma da nossa não-elaboração, ao menos permanecerá no horizonte uma possibilidade de cura pra ferida, de retratação quando chegar o momento de revisitar nosso passado e deixar claro, muito claro, quem foram de fato os lobos e quem, sob o escudo da liberdade de expressão, tem figurado o lobo travestido em cordeiro. Do contrário, se a Folha comete todos esses erros e ofensas pura e simplesmente em nome de uma legenda, então só me resta esperar que ela tenha cada vez menos espaço no mundo, pois a liberdade de imprensa não pode suportar um discurso tão grosseiramente conivente com a barbárie.

.: E volto ao texto do professor Candido. Basicamente, ele diz que numa sociedade tão marcada pelo conservadorismo, é interessante notar a figura do radical de ocasião, “o homem sem qualquer compromisso com a revolução, que até é contra ela, e no entanto em algum período ou apenas em algum instante da vida fez alguma coisa por ela: uma palavra, um ato, um artigo, uma contribuição, uma assinatura, o auxílio a um perseguido.” Não sou conservadora, mas também não me considero militante, pelo menos não nos mesmos termos que muita gente corajosa que conheci nos meus anos de universitária. Aqui, enquanto escrevo, sei de pelo menos uma amiga muito querida que deve estar em algum assentamento, lidando, agora em 2010, com a brutalidade dos despejos feitos pela polícia militar. Sei de outros bons amigos que estão tentando ou já tentaram muito fazer alguma coisa boa no movimento estudantil das universidades públicas de São Paulo – e vocês não imaginam o quanto é fácil quando se tem um governador tucano. Então por respeito a esses amigos, eu tenho aqui meus pudores em me atribuir esse ofício de militante. Mas aceito de bom grado o título irônico que o professor cunhou, usando meu blog, que serve pra coisa nenhuma, pra deixar no mundo um desses textos eventuais, sinceros, apaixonados e inconstantes, que faça volume e contrarie essa voz autoritária que insiste em tirar a dignidade daqueles que lutaram contra a ditadura. Se eu li o artigo do professor direitinho, a cada radicalização da Folha, a cada ato de crueldade à memória dos nossos mortos, aos esforços dos nossos resistentes, a cada ocasião de desonra aos votos que a Dilma merece e terá, haverá mais gente radicalizando do lado de cá, deixando de lado aquela introspecção típica de quem se sente individualizado demais pra fazer parte duma revoada. Eis, portanto, uma ocasião.

* Foi graças à Flávia que eu descobri o artigo e fiquei inspirada a escrever.

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31 Respostas

  1. “Que tipo de alegria e leveza deve-se esperar de alguém que, sob ameaça de aniquilação e em nome da liberdade, se insurge contra um governo, contra instituições policiais?”

    pois é. nao eh que eu ache que dilma sera uma boa presidenta por ter lutado contra a ditadura. mas sua experiência como torturada me da a impressao que o que temos como candidata é alguem forte, de personalidade (seja la o que for isso realmente). a primeira mulher a governar o brasil vai ter mesmo que ser alguém com nervos de aço – tudo e qualquer erro/problema no seu governo vai logo ser atribuido ao fato dela possuir uma vagina. ai me entristece que meus colegas de faculdade pensem que a “terrorista” vai explodir o brasil. detalhe, fiz faculdade de historia. se o pessoal que faz historia pensa isso, o que eu vou esperar dos outros?

    • eu acho o seguinte: ela não vai ser boa presidente necessariamente por ter lutado contra a ditadura, mas por ter lutado ela já é muito boa. já sabe algo que escapa a muitos, como é o caso dos seus colegas, como é o caso de pessoas que não votam nela pq acham sinceramente que militância é sempre ruim, mesmo que contra um governo autoritário e golpista como foi aquele.

  2. Eu nem sei o que dizer. Vontade de chorar aqui. E me assusta muito essa tentativa de inverter o sinal. Uma vez, num evento social, bati boca com um filho de militar que insistia em dizer que nunca houve tortura, que isso é ficção da esquerda. Daí me identifiquei como filha de torturado. O cara, lógico, veio com o discurso de que “isso é o que seu pai diz”, como se alguém inventasse uma coisa dessas, como se tortura fosse o papai-noel, conversinha pra ninar criança. Fui salva de partir pras vias de fato quando uma amiga, que conheci na mesma ocasião, me chamou de lado e me tranquilizou, dizendo que era neta de almirante e que o avô descolou um doutorado fora do país no final dos anos 60 só pra não se envolver diretamente com as atrocidades do regime. Disse que qualquer pessoa bem intencionada, esteja de que lado for, reconhece o que houve. Então eu me assusto demais com toda essa inversão. Tal qual você, nem é a eleição que me preocupa, mas o futuro do discurso histórico sobre a ditadura.

    • A eleição não me preocupa porque são 30 pontos entre ela e o serra, então eu acho mesmo que tá tranks. Fosse a diferença muito menor, eu estaria extremamente angustiada. Mas os 30 pontos me permitem pensar somente no debate público sobre o que foi nossa ditadura e no quanto não se consegue avançar. Trauma mesmo, nós temos. Essa é uma das questões pelas quais sou apaixonada, de querer dedicar a vida.
      Eu não saberia como lidar com um militar que nega a tortura. Está tão fora do meu alcance e realidade, isso. Talvez eu travasse tbm. Talvez eu explodisse. Não sei mesmo. Que bom que alguém te segurou, imagina.
      Vc me fez lembrar de um conto do Veríssimo sobre um cara que foi torturado e anos depois vê o filho ficar amigo de um menino que é filho de um torturador. E o cara simplesmente trava. Não sabe o que fazer, não sabe como lidar, não faz nada. E eu acho que é exatamente assim que nós somos hj. Assistindo a cordialidade com militares como se fosse o melhor pra paz e pra democracia nesses dias. Mas há um ruído de fundo que indica que nem tudo foi dito, nem tudo foi devolvido, reconhecido, expurgado. Extremamente difícil.

  3. E que inspiração que esse artigo da Folha te deu, hein?

    Concordo com tudo que você escreveu. Sabe, o que me assusta mesmo é que a quantidade de pessoas por aí que me dizem que na época da ditadura não era tão ruim, que os milicos tinham razão, que hoje é que a coisa tá preta. Meu Deus, será que as pessoas não podem assumir suas posturas de direita sem parecer fascistas raivosos? Não dá pra debater sobre propostas e planos de governo em vez de ir pra esse caldo emocional?

    Outro dia recebi um desses emails spam, cheio de indignação, falando que o governo estava reprimindo a liberdade de expressão da Imprensa. Daí citavam o Diogo Mainardi e o Bóris Casoy como vítimas da repressão do governo. Fala sério. O Diogo e o Bóris? Vítimas?

    Acho que nós fazemos política como torcemos pra futebol: tem paixão demais, de ambos os lados. Nessas horas a gente tinha que ter a cabeça mais fria. Pensar melhor. Mas sei lá. Talvez as coisas sejam mesmo do jeito que deveriam ser…

    Espero realmente que a Dilma vença. E que consiga enfrentar com serenidade esses jornalistas “sérios”.

    • Foi. Mas o post da Flávia tbm me deixou inspirada, me deu brios de escrever.

      Eu lamento que a campanha anti-dilma tenha perdido a chance de se posicionar maduramente. Oposição é bom e todo mudo precisa. Críticas e dissonâncias são mais do que necessárias. Mas esse tipo de oposição, crítica e dissonância? No passarán. Para nosso infortúnio, também.

  4. Aline,

    que lindo seu texto! Sinto-me orgulhosa de ter sido fonte de inspiração =)
    O episódio foi lamentável. Não foi o primeiro e nem será o último para desespero geral. Está em todos os lugares, com Marco Aurélio Mello ministro do STF dizendo que a Ditadura foi um mal necessário; nas sobrevivência da Rede Globo tal e qual à época de sua criação, etc. Eu gosto do exemplo da Argentina. Você tem acompanhado o processo de investigação do Clarín e do La Nación e La Razón a partir da compra do Papel Prensa? É uma história muito muito triste. A declaração da viúva do dono do Papel Prensa que foi presa e torturada por anos é de chorar 3 dias, pelo menos. E, por isso mesmo, lá se abrem os porões para que se reveja o período. É claro que se tem um preço a pagar, Cristina é acusada de querer censurar os jornais e blábláblá, mas ela tem pulso firme para sustentar o projeto. Estamos tão pertinho da Argentina e tão longe, uma pena.
    Parabéns pelo post. Um beijo.

    • Oi Flávia

      Cada uma dessas instituições que se manifesta contrariamente a uma revisão do nosso passado, ou qualquer coisa que o valha, pra mim, reforça um crime. Não tenho condições de estabeler uma régua e dizer que quando o STF diz isso é pior do que quando a Folha diz aquilo. Tomados juntos, parece só que a gente precisa urgentemente desfazer esses nós e ter mais lucidez quanto ao que foram os anos de ferro. Não quero apenas o reconhecimento e retratação das instituições políticas, administrativas e policiais, eu queria que as pessoas pudessem se posicionar, ao menos uma vez, em relação às atrocidades que aconteceram debaixo do nosso nariz.
      Não acompanho a Argentina de perto, mas vou sapecando e pelo menos o grosso dá pra saber. E atualmente, com casamento gay e lavação de roupa suja entre governo e jornais, meu coração se alegra por eles e suspira, meio esperançoso, por nós. Também quero essas coisas todas, e ainda mais.

      Enfim, eu te recepciono, contente, agradeço a visita e a gentileza. E de novo, parabenizo pelo seu post. Mudou todo o clima do meu domingo :)

      Beijos

  5. Queria apenas dizer que amei o seu texto.

    • significa tanto pra mim ouvir isso de você. obrigada mesmo =*

  6. A razão de sua angústia, Aline, é que a História permanece. Ainda estamos lutando contra a ditadura, e os torturadores continuam torturando e Dilma continua sendo torturada. O passado nunca morre, ele permanece entranhado no espírito do tempo. Pode-se dizer então que a ditadura também sempre existiu. Felizmente, existirá também, sempre, a luta contra ela. Afinal, não se pode conceber a liberdade sem a existência de seu contrário, a opressão. O que você sentiu deve ser muito parecido com o que a própria Dilma sentiu quando abandonou a vida confortável de classe média alta que levava em BH para arriscar sua vida e sua integridade física e psicológica nas masmorras da ditadura. Um desconforto, algo se remexendo no fundo da alma, esse clamor atávico do ser humano pela liberdade.

    O seu texto é muito lindo e eu tomei a liberdade de linkar o seu blog lá no Óleo.

    Abraço,
    Miguel

    • Oi Miguel

      Eu acho, também, que enquanto não se abrir os arquivos, esclarecer o paradeiro dos desaparecidos e assumir que a tortura aconteceu, sim, com o consentimento institucional, haverá algo de impossível na nossa democracia. não exorcizar a barbárie é um jeito de continua-la, de mantê-la vitoriosa porque conseguiu se impor ao tempo e passar sem crítica, sem um discurso que a recuse na posteridade.
      Mas, permita-me, em nome do gosto pela conversa, concordar discordando. O desconforto que eu sinto, hoje, em relação a essa matéria permissiva e desonesta da Folha é de outra natureza ao desconforto da Dilma militante. Quero dizer, eu tenho pra mim que uma pessoa só abandona a vida confortável e se entrega ao risco por paixão, que é um sentimento muito mais positivo do que o desconforto. É preciso muita paixão pra conseguir construir alguma coisa. Eu sei que a Dilma foi torturada, e não tendo a glamourizar o martírio, mas eu vejo nela uma força muito mais parecida com a da minha amiga que também abandonou uma vida de classe média pra militar no movimento dos sem teto. Essa amiga tem uma postura muito afirmativa, convita e radiante até, se comparada à minha atuação no mundo. Minha paixão é pela escrita. Então meu desconforto, embora seja lisonjeira sua comparação, é de outra natureza, outro alcance.Ele é típico de uma pessoa que nasceu quando a ditadura já acabava e que, agora, na juventude, percebe que para que determinada candidata seja eleita, será preciso atravessar esse discurso reacionário e cínico sobre o passado. Eu vejo a ditadura como um fantasma, um mistério, algo que só chega até mim através de dois tipos de fala: daqueles que lutaram contra e daqueles que, contemporaizando, tentam distruibuir “a culpa” em porções iguais a todos os envolvidos. Meu desconforto vem do fato de eu, sendo da geração que pode gozar da liberdade pela qual nossos melhores se arriscaram, percebe que algo de muito errado ainda paira por aí. Não é a paixão que me faz defender a abertura dos arquivos, é a reverência. Tenho profunda reverência por quem foi torturado, por quem morreu, quem perdeu amigos e parentes, por quem sobreviveu e esta aí, se candidatando à presidência. Eu acho que se minha geração pode fazer algo pela geração anterior, é isso. Insistir até que o assunto todo seja trazido à tona, expurgado e superado.

      Obrigada pela visita, pelo elogio e pelo link. Fique sempre à vontade, seja sempre bem vindo.

      Abraço.

  7. Belíssimo texto, vi a indicação no blog do Miguel. Já esta nos meus favoritos.
    Abraço

  8. Parabéns. Quem dera existissem mais radicais de ocasião com a tua sensibilidade. Como diz o próprio Antônio Cândido: “…no dia do juizo final, tais momentos haverão de ser computados como sua hora e vez”.

    • Alvaro e Nana

      obrigada, abraços.

  9. Cara

    Ficou muito bom. Realmente uma análise profunda e embasada do assunto. De verdade, vc disse tudo…

    Quando vc falou Folha de São Paulo no começo eu até ameacei não ler

    hehehhehe

    Mas concordo totalmente com o q vc disse

  10. lindo texto, aline! parabéns!

    • alexandre e poeta, muito obrigada :)

  11. “Não me considero conservadora, mas também não me considero militante, pelo menos não nos mesmo termos que muita gente corajosa que conheci nos meus anos de universitária.” Repito suas palavras como minhas porque em 1964 eu estava no ensino médio e em 1968 na UnB invadida, mas não entrei na luta. Participei apenas timidamente da luta.
    Obrigada por este cutucante artigo. Para nós que vivemos estes anos de chumbo as lágrimas são alívio da dor, mas, como você diz: “a cada ocasião de desonra aos votos que a Dilma merece e terá, haverá mais gente radicalizando do lado de cá, deixando de lado aquela introspecção típica de quem se sente individualizado demais pra fazer parte duma revoada. Eis, portanto, uma ocasião.”
    Grande abraço.

    • que bacana seu comentário, vera.
      obrigada, e abraço.

  12. belíssimo.

  13. Bom, gostei.

    Aline o momento é agora.
    Não tem essa de depois a gente elabora, de mal estar da Folha virar coisa boa no futuro, de na hora que acontecer a reparação…

    Não não. A hora é já.
    A gente faz acontecer…

    • Mas eu não disse que depois a gente elabora, nem disse que coisa boa virá no futuro. A retratação da Folha depende de a Folha… se retratar, e não de a gente querer. A reparação depende de as instituições participarem dela, não apenas de um grupo de pessoas que pedem e anseiam por isso.

      E não espere que uma radical de ocasião seja imediatista, pois não somos. Isso é com os revolucionários ;)

  14. Lindo mesmo. Vai para a lista de textos que pretendo usar quando eu for falar da Ditadura Militar com os meus alunos.

  15. Quero apenas parabenizá-la pelo conteúdo e pela forma madura e ética com que seu ponto d evista foi abordado. Dói muito saber que a mesma imprensa que revela desmascara, também esconde, omite e faz julgamentos muito severos. è um orgulho saber que não estou sozinho e que sei e sino muito por aqueles que sofreram com a ditadura. Falta cultura minha gente, falta história, a nova geração deve e tem o direito de saber disso. Espero que assim o seja, Amém!

    • Ah, obrigada Rafael. Mas não é a “mesma imprensa”, justamente. Imprensa não é uma só, ela é composta por diferentes mídias e instituições, e mesmo dentro de uma empresa podem haver dissonâncias e contradições. É preciso não idealizar a imprensa tanto quanto é preciso criticá-la. Abraço :)

      Ulisses, obrigada.

  16. adoro seus posts. fato.

    fui só eu que notei uma nuance de Eva nesse retrato da Dilma? sabe, aquela mulher pronta pra atacar, entende?

    • ah, obrigada rayssa. que bom q vc gosta.

      Eva, será? Eu não acho que a ameaça da Eva tivesse a ver com capacidade de “ataque”, com uma ação específica. A Eva é maligna por sua essência, porque é persuasiva e equivocada, eu pelo menos entendo assim a fábula do fruto proibido e da queda do homem etc.
      Nesse caso eu acho que pintaram a Dilma como uma personagem dúbia, como uma dissimulada que usa um passado ruim pra conseguir poder hoje, ao mesmo tempo em que a própria condição de presa e torturada de antes não a liberasse de uma malignidade inerente de uma personalidade ruim, amarga, perigosa. Enfim, talvez tenha a ver :)

  17. Texto maravilhoso. Tambem concordo que os arquivos da ditadura tornem-se públicos. Que os agentes torturadores do Estado sejam processados e punidos. Enquanto a verdade ficar escondida, falsos democratas nos partidos de direita e a mídia sem escrúpulos que os apóiam se sentirão livres para destruir reputações e manchar campanhas eleitorais, reescrevendo a história e transformando heróis em bandidos e vice-versa.

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