os passos da sedução

.: Pois não é que deu no jornal que Cientistas ensinam os passos da sedução ?! E eu que achava já ter visto de tudo no mundo, de tudo mesmo, eu que já vi ovelha ser clonada, já ouvi uns vinte dizerem direta ou indiretamente que deus morreu, já nasci achando que exploração espacial é como a rota do Penha-Lapa que se faz todo santo dia. Mas cientista ensinar os passos da sedução é demais, sabe. Nem todo o ecletismo destes nossos dias pode com isso.
Vamos partir dali onde dizem que cientistas ensinam algo a alguém. Eu já tive professores dos mais variados tipos. Já aprendi matemática com um engenheiro*, geografia com uma pedagoga, filosofia com uma advogada. O único tipo de pessoa que nunca conseguiu me ensinar nada foi os cientistas. Tente aprender física com um físico, um daqueles, puro sangue. No passará. A culpa não é sua. Tampouco deles, aliás. É um acordo que eles fazem com os próprios objetos de estudo. Eles dizem deixa-me saber tudo o que se há pra saber sobre você, e a coisa estudada responde deixo, mas não poderás contar a ninguém. E pá, eles são enfeitiçados. Pergunte a um cientista o que ele realmente estuda e perceba o quão incapaz ele é de responder com uma frase simples e vocabulário inteligível. Ele se perderá em contradições e complicações, e ao cabo da conversa, sairão os dois tensos e frustrados. É efeito do encanto, e nem adianta tentar confirmar o que te digo. O cientista prefere morrer a confessar o ocultismo que envolve sua alma.

Mas essa é a coisa pouca do assunto. O ruim mesmo, de amargar, é que acreditem que se há no mundo alguém que pode ensinar os passos da sedução, esse alguém seja um cientista. A modernidade trouxe consigo o discernimento, e o discernimento diz que cada coisa tem seu lugar devido e por isso um cientista que ensina os passos da sedução subverte o esquema todo. É como pedir a um peixe dourado que conduza um taxi, comparar espaguete ao pesto com hidrogênio, medir o prazer pela serotonina que é produzida no cérebro e concluir que chocolate é igual a orgasmo. Não ouso declarar que tais eventos são absolutamente impossíveis porque é vasto o mundo e afinal um lance de dados jamais abolirá o acaso. Então, vai saber. Mas no ordinário da vida, no dia de semana, essas coisas todas são incompatíveis.
Procure um cientista quando desejar saber quais são as transições de fase e forma em micelas catiônicas. E procure um poeta quando desejar, assim, no intransitivo, desejar muito. Pois eu e você bem sabemos que esse negócio de passos da sedução é só uma metáfora puída e desastrada do jornalista, essa outra categoria cercada de obscurantismo e carências várias. Se você procura aprender os passos da sedução vai acabar naquelas lições banais sobre que cores vestir na balada e como identificar as moças em seu período hormonal favorável, como quem aprende o mínimo da ginga dois-pra-cá-dois-pra-lá na frente do espelho. Nada tenho contra traçar estratégias para se dar bem e acabar na cama de uma gostosa, ou um gostoso, ou ambos, mas urge começar não desonrando a arte e simplificando em passos de sedução o caos e a pluralidade dos fatores que entram em jogo quando se está no mundo disposto a amar e ser amado – com o perdão do clichê.

.: Não é por corporativismo que eu recomendo que se procure um poeta pra aprender um tico que seja sobre o bão da vida. Além de não ser poeta, eu mesma conheço muito poucos entre os curiosos e pretensiosos, então é uma tarefa inglória essa à qual eu convido os mal aventurados. Consola-se, todavia, com o fato de os poetas deixarem para nós seu legado e assim, em não tendo nenhum amigo poeta, troque seu cientista por uma prateleira qualquer. Duvido, sinceramente, que você não encontre num punhado aleatório de livros mais do que encontraria numa série de reportagens sobre os passos da sedução exibida pelo Fantástico ao longo de duas fases lunares. É só saber olhar. Comece pelos clássicos, se necessário: Lisístrata, Decameron, até a Bíblia se você puder evitar os Levíticos e ir direto à página do Cântico dos Cânticos. Byron num dia de melhor humor, e Álvares de Azevedo, que o aclimatou (aliás, este rapaz morreu como recatado apenas por campanha de alguma tia carola. O fanfarrão conhecia bem o latim e deixou aí algumas dicas sobre dar uns amassos em mulheres abrasadas por versos de amor). Manuel Bandeira, João Cabral, Drummond, Vinícius de Moraes, Hilda Hilst**.
Aliás, sobre Hilda, tenho uma história, contada por uma prima em terceiro grau dela, com quem estudei: certo dia, numa livraria, um rapaz chegou até Hilda, já senhora e ainda muito bonita, e elogiou suas poesias eróticas. Ela pegou-lhe no braço e perguntou, na lata, se ele tinha ficado de pau duro ao lê-las. Visualize um rapaz desconcertado, gago, hesitante, preso pelo braço ao toque de uma dama lasciva. E como ele não respondia nem sim nem não, ela lhe disse que se ele não tinha ficado excitado, sua poesia tinha fracassado.

.: Isso meio que prova meu ponto. Se é pra procurar alguma teoria que aperfeiçoe a prática, então que as escoras sejam gente que entende do riscado e que sabe, no final das contas, que tudo depende de uma belíssima excitação.

* Por favor, pergunte mas a engenharia não é ciência? e me ajude a fazer uma piada.

** Só um excerto dos passos da sedução segundo a diva Hilda Hilst.

Anúncios

12 Respostas

  1. pensa em algum desavisado (a) saindo todo arrumadinho pra balada ou pra um encontro, tentando memorizar os passos que ele leu naquela revista de divulgação Da divulgação cientifica e se esquecendo de dizer que filme mais gosta ou qual foi o ultimo livro que leu. se é que leu.

    :S

    sobre o obscurantismo dos cientistas, eu gostei. mas não conta pra ninguem pois to tentando me infiltrar na tribo. ;)

    • hahahaha pois é. que trote, esse!

      seu segredo tá guardado comigo, cara pálida! =D

  2. “a pluralidade dos fatores que entram em jogo quando se está no mundo disposto a amar e ser amado”.
    Queria que alguém, poeta ou cientista ou whatever, me desse pelo menos um toquinho sobre o tal “bão da vida”, que parece sempre me escapar.
    Moça que escreve, gostaria muito de ter uma resposta, mas quando mais paro pra pensar no assunto mais longe fico de sequer formular uma pergunta.
    E nessa situação, no fim, acho que vou me agarrar em Leminski: “Distraídos venceremos”. Talvez não faça muito sentido, nem seja muito eficaz, mas me dá algum conforto…

    Ah, sim… mas a engenharia não é ciência?

    Abraços!

    • eu gosto disso: distraídos venceremos. gosto mesmo.

      ciência não é engenharia! *explosão de risos* (eu sempre me divirto com isso, valeu)

      abraços

  3. Acho que um dia ainda vou dividir o mundo entre as pessoas que amam a Hilda, e as pessoas que não conhecem a Hilda. Já ouviu o CD com os poemas da Ode Descontínua para Flauta e Oboé, musicados pelo Zeca Baleiro e cantados por gente do calibre de Maria Bethânia, Ná Ozzetti e Zélia Duncan? Tive que tirar do carro, porque meus passageiros não aguentavam mais ouvir.

    E sim, sempre me faz rir ver a ciência tendo ingerência sobre o que não devia. De que adianta ser ateu, e tratar ciência como religião? “Os cientistas dizem” é o novo “O padre/o pastor” diz, e passos de sedução ensinados pelos cientistas são bem como os cursos de noivos ministrados por padres celibatários.

    • Nossa, não ouvi não. Vou procurar, pelo que vc disse, parece muito bom! obrigadíssima pela sugestão =D

      Eu escrevi o post por brincadeira, mas concordo com vc que por trás da piada tem um quê de verdade. Existe uma onda de saberes e certezas que circulam agora pq oriundos de falas de pesquisadores, cientistas ou psicólogos, justamente onde a atuação individual de cada um, o improviso, a espontaneidade deveriam ser o principal. Já vi dicas de sedução, assim como já vi dicas para superar o luto, ou dicas para fazer amigos, etc etc. Tão sem graça.

      Hilda é diva.

  4. 1) Consta que a Hilda tinha dezenas de vira-latas em casa (pelo pátio, por tudo) e que eles comiam direto da mão dela – um pouco desse contato da tua história (tão engraçada, por sinal)
    2) Saiu, na Serrote 4, um texto do Terry Eagleton metendo o pau no Richard Dawkins – e, além disso, mostrando como ciência é pura crença, fé e sedução às avessas. Essas coisas que vc tá careca de saber :-)

    • Não sabia dos cachorros, mas eu sei poucas anedotas sobre ela. Legal, de todo jeito. Quem gosta de cachorros sempre ganha um pouco mais da minha simpatia.

      Que desaforado, esse Bloom. Ele só faz isso pq o Dawkins não tem pra quem rezar pra pedir a desgraça dele! rs

  5. “Os cientistas dizem” é o novo “O padre/o pastor diz”

    Isso é tão verdade!
    Por que mesmo eu sempre quis ser cientista? Leio Manuel Bandeira e essa minha vontade parece absurda.

    • hehe

      é mais ou menos “o novo”, porque padres e pastores continuam a ter voz. mas de fato, o excesso de peritos em coisa nenhuma tá grande :)

      (em off? tbm quis me entregar ao lado negro da força. primeiro, matemática. depois, física. depois, biologia. só a química nunca me seduziu. mas tbm, pudera =D)

  6. Se um astrônomo te convidar pra jantar você topa?

    • hahaha

      depende. se ele for sagaz o bastante pra usar poeticamente seus conhecimentos de astrônomo sem parecer um astrólogo…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s