ô saisons, ô châteaux !

.: Tem uns anos já, mas nunca esqueço de uma peça de campanha de um partido (nem arrisco qual porque não atesto certeza) que circulou mais ou menos nesses termos: catavam pessoas na rua para lhes perguntar “você é contra a desigualdade social?” Não foi surpresa pra mim, nem será pra você, saber que todo mundo respondia que oh sim, mas claro, sou contra. E então a expressa conclusão: “tá vendo, você é socialista e nem sabia!

Juro.

Eu me queixo mas isso é lugar comum. Sempre haverá gente mofina a tentar passar à força da simplicidade suas perspectivas e escolhas ideológicas. Preciso anotar num lugar qualquer pra dizer às próximas gerações, quando for minha vez de falar às próximas gerações, que não acreditem muito numa militância intuitiva que busca conversão imediata das pessoas e se basta na percepção (e eterno denuncismo) do óbvio. Pois, ô saisons, ô châteaux, os insights não bastam. Notar que o mundo é injusto não te faz socialista. Perceber que o mundo é machista não te torna feminista. Votar na Marina não te torna ecologista. Saber que doce engorda não te torna magro. E assim por diante, até chegar na casa do chapéu.

.: Outra coisa com a qual você pode contar é que as pessoas são capazes de deixar de lado suas convicções e bandeiras para odiarem mais e melhor seus desafetos. Foi isso que eu aprendi quando vi, não faz tempo, gente que se acha mui libertária e esclarecida usar contra mim um boato de que eu e uma amiga nos comemos (boato que eu não nego nem confirmo, pois se até essa gente fantasia com essa trepada, que chante son coq gaulois!), como se isso fosse de alguma forma tão negativo quanto ser uma sombra, uma fraude, burra, fútil ou rasa, que eram os outros arremedos que me faziam. Então enquanto essa concessão à homofobia for aceitável entre aqueles que não gostam de mim, realmente não hei de me preocupar com nenhuma das, hum, críticas.
A propósito, o mesmo vale pro uso, sempre machista, do conceito vadia. Mas quem sou eu pra questionar o personalismo dessa gente.

.: E tem essa entrevista com a Lilia Schwarcz sobre racismo no país, com um trecho bacana:

“Por exemplo: em 2000, concluímos um projeto de pesquisa que consistia em três perguntas aparentemente simples: “você tem algum preconceito?” 97 por cento dos entrevistados respondeu “não”. “Você conhece alguém que tem preconceito?” 99 por cento respondeu “sim”. Se você respondesse sim à segunda pergunta, pedíamos que descrevesse sua relação com essa pessoa. As pessoas mencionavam os nomes de amigos e parentes, mesmo sem que isso fosse perguntado. Concluímos que todo brasileiro se considera uma ilha de democracia racial cercada por um oceano de racismo.”

Imagine se fizéssemos uma pesquisa parecida, mas com as seguintes perguntinhas: 1) em relação às mulheres, você tem algum preconceito? 2) você conhece alguém que tem preconceito? 3) dê sua opinião sobre as mulheres-fruta. As estatísticas seriam do balacobaco.

.: Se você chegou até esta linha com o coração sereno, alegremente eu te saúdo e convido a conhecer esse site: I feel myself (torrent). Provavelmente você é do tipo de pessoa que vai gostar dele. Profitez-en ;)

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10 Respostas

  1. mas o q é isso , gente??

    hj é o dia não-oficial do combate ao machismo na blogosfera??

    http://rre.opsblog.org/2010/09/04/deus-pos-uma-mulher-decente/ saí de la agora.

    vim aqui, li esse post.

    e o melhor: escrevi meu proprio post antes de começar a ler os blog que sigo. e, sim, eu escrevi sobre machismo.

    agora vai!!!!!

    “que chante son coq gaulois!” meu francês é bem fraquinho, coitado, mas eu ri mesmo assim :D

    • hahaha que coincidência, não?!

  2. o problema com essa gente é que se acham livres de todo tipo de preconceito. O baluarte da virtude e quetais. Não são. Não mesmo.
    Eu tenho preconceitos. Um monte. Por conta de divergências ideológicas e de dar a cara a tapa e dizer o que penso, você sabe que sou considerada reacionária por um monte de gente. Não me importo. Não mesmo. Eu SEI que tenho preconceitos e não me orgulho deles. Na medida do possível tento trabalhá-los e melhorar cada vez mais enquanto ser humano. Acho que é esse o caminho: manter a mente aberta. Evoluir.
    O problema com pessoas que acham que “chegaram lá” e se imaginam como exemplos a serem seguidos é que elas acreditam que não precisam melhorar em nada. São a métrica do mundo, a régua para aferir todas as virtudes. Melhorar por quê, se já são perfeitos?
    Daí eu me pergunto, a tal humildade e canja de galinha… Será que já foram servidos? Autocrítica deve estar em falta no mercado. :)
    beijão querida.

    • ah, ollie, eu fecho tanto com vc nisso. falta autocrítica, sobra pretensão.
      talvez eu nem me inspirasse a escrever se não tivesse visto eu mesma certas “feministas” usando como ofensa e fofoca uma suposta relação minha com uma garota. adianta toda aquela patrulha, toda a blindagem, toda a pose, se na primeira chance povo se mostra tão escrotinho, tão aderente à homofobia mais explícita? na minha opinião, adianta de nada.

      vc tem preconceitos, assim como eu e todo mundo. eu to longe de pregar tolerância e aceitação irrestrita à diversidade ideológica, eu tenho meus limites e meus filtros, minhas convicções. mas eu sei, como vc, que eles pautam meus limites mais do que um código de conduta da humanidade. acho que é o mínimo, saber seu próprio lugar.

      beijos, e obrigada pela visita.

      • Ah, cara, como eu adoro seus textos. E o comentário da Ollie também. Vocês são foda. Dão um pau bonito nas feministas de internets que eu conheçco.

        Agora, me conta melhor essa história? Quem ficou sabendo que a gente tava se atendendo? =P

        • a gente tava se atendendo = gar-ga-lha-da!
          hahahahahahahahahahahaha

  3. porra, gostei do seu blog. parabens!
    (cheguei aqui atraves do blog da iara).

  4. é o que dá, tanto esquerdista pelas ruas pregando tudo de retrográdo nos movimentos sociais e estudantis da vida e o esquecimento de se pensar do seu lugar, reconhecendo o lugar do outro.Tenho gostado muito de ler seus posts.
    Ah… ótima indicacao de site.

    • não é só a esquerda que faz isso, mas acho, pela minha experiência, que ela faz mais. tbm já vi muita gente usar argumentos assim simplistas pra mostrar como não se pode mais ser de esquerda porque esquerda = comunismo/ socialismo… e bom, isso é mentira.
      mas enfim, meu problema é menos com a orientação política do que a prática arrogante e condescendente de querer ensinar ao outro como se definir, qual discurso tomar pra si. vindo da direita ou da esquerda, é sinal de algo muito anterior e problemático, que é uma personalidade autoritária. há muitos pequenos autoritários por aí, gritando pelo seu direito de catequisar. a mim não importa se eu partilho de algumas ideias e posições com este tipo de gente. quero distância.

      o site é muito bom, e se vc usa torrent, pode baixar uns vídeos dele for free ;) (mas não diga que eu contei)

      fico sempre tão feliz em saber que alguém gosta de ler o que escrevo. agradeço muito a gentileza em me contar.

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