a doçura inexorável

.: De algum modo, eu sempre pensei no filme A vida é bela (Roberto Benigni, 1997) atrelado a Trem da vida (Radu Mihaileanu, 1998), usando meu apreço pelo segundo para justificar meu azedume pelo primeiro. Descobrir que Benigni não apenas teve acesso ao roteiro de Mihaileanu, como também fora convidado a participar do filme no papel de Schlomo, fez ecoar na minha cabeça aquele largo “mas é claro!”. Não que minha intuição valha mais que trinta e seis centavos, mas o intertexto está ali, posto, e contentou-me saber que não se trata meramente de um recorte meu. Aliás, revendo os dois filmes, é possível perceber exatamente o quanto Benigni, que fez uma leitura equivocada do roteiro de Train de vie, foi seduzido pela ideia de abordar a Shoah com uma linguagem humorística. O resultado, na minha opinião, foi um filme simplista, estabanado e desrespeitoso, muito diferente daquele que Mihaileanu produziu, com menos verba, menos propaganda e, claro, menos prêmios.

.: É um mau pressuposto esse que permite aproximar A vida é bela e Trem da vida por conta da temática (a Shoah) e do gênero (a comédia) porque é justamente através desses dois elementos comuns que eles se distinguem e contrariam, como dois carros que seguem em direções opostas numa mesma estrada. A história de A vida é bela todo mundo conhece. A de Trem da vida talvez não, embora seja fácil achar o resumo por aí. O meu extrai o seguinte: num vilarejo do interior da França, em 1941, a comunidade judaica local recebe a notícia de que os nazistas estão chegando. Os campos ainda são um boato e por isso ninguém sabe ao certo o que significa essa chegada deles. Mas há o medo. Schlomo, que é o louco da vila, dá a ideia de construírem eles mesmos um trem para fingirem sua deportação e irem em segurança à terra prometida. A potência cômica do filme está inteira no desenrolar dessa farsa, em tiradas curtas e inteligentes. É tudo muito bom de assistir: a organização da comunidade na confecção dos trajes e do trem, as confusões das questões identitárias causadas pela divisão das pessoas em “nazistas” e “judeus”, a princípio, mas também porque uma célula comunista surge entre os falsos prisioneiros enquanto um grupo de la Résistance acompanha e tenta sabotar a falsa deportação. O trem funciona como um microcosmo, dentro – ou em torno – do qual estão comicamente representados os principais grupos políticos, religiosos, sociais da Europa das décadas de 30 e 40.

.: Como é de praxe nas comédias, há um toque de non sense: no argumento fundamental da trama, na facilidade mágica com que a encenação dá certo e as pessoas várias vezes escapam de serem desmascaradas e capturadas pelos nazistas. E também há, certamente, uma simplicidade necessária nessa equação. Não é por acaso o filme brinca tanto com estereótipos e com a dificuldade de entendimento e comunicação entre as pessoas; a premissa é que a deportação em si é tão incrível e absurda que dela só poderão suscitar comportamentos e reações igualmente incríveis e absurdos. Aí fica fácil perceber porque as ideologias, no trem da vida, parecem tão frágeis e tolas, é que diante de um evento como a Shoah elas realmente o são. Discurso nenhum dá conta, alteridade nenhuma justifica a extinção, e já que a humanidade de todos está nivelada por baixo, o outro se torna facilmente objeto de mímese e estereotipação se disso depender a sobrevivência de alguns. Radu não debocha apenas dos grupos políticos e sociais que estavam em cena, ele brinca com o fato de a questão judaica ter sido, por muito tempo, levada com uma desfaçatez enorme, cheia de eufemismos e encenações. Gosto de pensar, aliás, que no centro da atenção e do riso está a própria mise-en-scène, a dissimulação, a incorporação dos papéis que nos são dados, como uma dramatização terapêutica com sinais invertidos (coisa que Bastardos Inglórios também tenta fazer 11 anos depois).
O curioso é que essa farsa bem sucedida contenha, em si mesma, um ruído pessimista constante, uma melancolia que só é explicitada depois que se realiza a tragicidade do filme – mas eu ainda não cheguei lá. É que antes disso tem a cena de que mais gosto: a festa. Num dado momento os judeus encontram um grupo de ciganos que estava usando exatamente o mesmo plano para fugir dos nazistas. E, naquela noite, juntam-se todos para descansar. Mas a audição da música vira celebração. Uma confraternização expansiva, alegre, dionisíaca, farta. E que precede a chegada dos dois grupos à fronteira entre o perigo e a salvação. O movimento mais brutal do filme vem imediatamente depois de você respirar aliviado e pensar que, ufa, salvaram-se. Pois aí você descobre que não. Vê Schlomo, o louco, que é também o poeta e visionário, dentro de uma cerca com a roupa de prisioneiro balbuciando a fantástica história que ele mesmo inventou para sua comunidade. O pano cai assim. E, como eu dizia, a tragicidade do filme é jogada no nosso colo sem maiores generosidades e reorganiza toda a trajetória do trem da vida.
Já que eu estava falando de melancolia no outro post: esta é uma obra melancólica. Ela, sim, lida com a perda irreparável, a fragmentação, a impossibilidade do sujeito de permanecer inteiro depois de um acontecimento traumático. Impossibilidade do personagem e do espectador, diga-se logo. Porque a morte deles destrói, também, retroativamente, o conforto do riso no qual estávamos colocados e nos confronta com o dado de realidade violento. Só no último segundo você descobre que essa diáspora, essa fuga maravilhosa é uma evasão, um devaneio, é um recurso discursivo e imaginário de quem já perdeu tudo. Como se não estivesse óbvio desde o princípio, como se todos os nossos conhecimentos de história não nos dissessem que isso não poderia ter acontecido. A gente concede liberdade criativa ao filme e se vê sem chão depois da revelação, no final. Essa passagem nossa do riso ao silêncio, essa queda da nossa expectativa é, na minha opinião, o movimento mais fascinante do filme. E é também o mais politizador.

.: Eu acho que está aí a falha de compreensão do Benigni. Ou sua leviandade, caso ele tenha entendido e decidido responder a Trem da Vida com outra narrativa. Minha implicância fica mais fácil de mostrar se eu fizer uma grande volta e citar o poema Navio Negreiro, do Castro Alves. Eu não me interesso por nenhuma leitura que privilegie, nesse poema, o elogio à liberdade feito pelo poeta. A confirmação dos valores universais, absolutos e nobres, francamente, não pode acontecer em detrimento do contexto violento, do fato contingente e datado. Uma situação de horror não pode meramente constituir, numa obra, o pano de fundo e oferecer a oportunidade de confirmação metafísica da alma humana, grandiosa e intensa. A vida é bela, pra mim, faz exatamente isso com a Shoah: transforma o campo de concentração no décor diante do qual o amor e o otimismo exultam e a família, unida, supera qualquer – mas qualquer mesmo, qualquer qualquer – adversidade. A postura afirmativa não pode ser inexorável, senão ela se torna opressiva, ignorante, cruel até. Não quero, com isso, dar a entender que o problema de A vida é bela é com a verossimilhança. Não é. Trem da vida também se sustenta no faz-de-conta, na farsa, no riso. O problema do filme italiano é de outra cepa. Além de o humor de A vida é bela ser meio bocó, pois conta mais com acrobacias e feitos coreográficos do Benigni do que com diálogos irônicos e criativos, ele projeta esse clichê do super pai, métier Disney por excelência, como matéria prima da narrativa e possibilidade de superação da violência, mesmo a mais atroz. É uma bandeira bastante conservadora, essa que ele hasteia, posto que idealista. Num gesto contrário ao de Trem da vida, A vida é bela suplanta a melancolia com aquela doçura plástica, eufórica, bonachona e impede que o trauma seja dito e entendido como tal – e nisso o filme é cruel. Ele redimensiona uma experiência coletiva, problemática e violenta, a uma aventura sem nenhuma ressalva, nenhuma fissura, nenhuma reticência – e nisso o filme é ignorante.
Então eu não consigo gostar de A vida é bela, mesmo que conceda haver nele uma boa intenção. Acho que Benigni se apropriou do apequenamento da ameaça nazista pelo riso para contar uma história palatável de um homem que foi prisioneiro num campo de extermínio, que foi morto na frente do filho. A importância do testemunho, da história contada e passada adiante é algo mesmo. Primo Levi morreu tendo pesadelos de que ninguém queria saber da sua história. Então é importante que nós queiramos ouvir a história. Mas contada à moda La vita è bella, ela é subtraída daquilo que lhe é mais caro, que é a dimensão melancólica de quem passou pela Shoah, ou amou alguém que passou, de quem não conseguiu sobreviver ao 3º Reich. Assim como em Navio Negreiro não cabe à defesa da liberdade superar em importância os homens escravizados e açoitados, aqui não cabe à afirmação da doçura soterrar essa melancolia. Se for o caso de não mencioná-la, se for o caso de reescrever uma história e nos dar uma versão que contenha alguma justiça poética inviável, que seja à maneira Bastardos Inglórios. Mas desse filme eu falo outra hora.

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4 Respostas

  1. Fico feliz em saber que existe algo parecido com o “A vida é bela” e não é o “Chaves” (campo de concentração vila do chaves foi foda). Agora vou ter que procurar o Trem da vida, mesmo já sabendo o final.
    Outro ótimo texto e de quebra ainda aprendi “Shoah”. Juntando com o ” Um homem sério” meu iídiche já tá fazendo bonito.

    • Não exatamente parecido, mas por conta do modo como A vida é bela foi concebido, eu entendo que são obras ligadas entre si. Recomendo fortemente trem da vida (fique avisado de antemão: eu conto tudo, parto do pressuposto que você tbm leu/ viu ou não liga de ser spoilado)

      Shoah é uma palavra importante. Não se deve usar holocausto, não importa qual seja o contexto. É altamente desrespeitoso.

  2. Trem da vida é bom demais mesmo! Gostei muito. Mas não tinha ainda pensado nesse monte de coisas que disse sobre a A vida é bela. Preciso ver os dois de novo, eu acho. :-**

    • comparar esses dois filmes é um dos meus assuntos preferidos hahaha

      =***

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