miettes

.: 18h09

Ele me liga pra dizer: preciso terminar umas coisas, vou demorar pra chegar hoje.
e eu respondo: ok, tenho comida, edredon e analgésico. vou ficar bem, não se preocupe – é que eu estava com cólica e um humor daqueles, oscilando entre a impaciência e a tristezinha.
e ele: amor, você faz nossa casa parecer um bunker.
Esse cara me conhece como ninguém no mundo, essa que é a verdade.

.: 18h35

Recebo de uma senhora, ex-aluna minha, um email com um powerpoint detestável. Um texto já antipático do Elio Gaspari, adulterado ainda por cima, pra fazer campanha anti-Dilma. Dizia, lá nas metades, que “sem o AI-5 certamente o terrorismo teria continuado, e sem o terrorismo certamente o AI-5 não teria existido“. Respondo, contesto a veracidade do texto, declaro meu voto, defendo a democracia etc. Ela responde logo em seguida, dizendo que “AINDA vivemos numa democracia“, com o ainda assim, nessa enormidade. Até o fantasma do Che essa senhora teme. Volto a responder, mas não como gostaria. Apenas breve e firme nos meus propósitos iniciais e encerro desejando boa sorte ao candidato dela, pois, como diria Drummond (e uma vez ele disse), “esse rocambole já me caceteava“. Felizmente que há o twitter, refúgio dos desaforos não ditos pessoalmente. Minha ex-aluna nunca saberá, mas foi assim que eu realmente terminei a discussão.

.: 19h17

Ele me escreve um email com o nome de uma música e: to mantendo a atenção no trabalho na 6ª à noite à base de cafeína e metal ;)

.: 19h19

Eu cogito e faço que vou escutar a tal da música que ele mencionou. Não porque gosto da música, pois não gosto. Mas porque esse parece ser um gesto de delicadeza apropriado; uma pequena homenagem, certamente fadada ao desconhecimento já que eu nunca poderia cometer a cafonice de ligar para ele e avisar “amor, estou ouvindo a mesma música que você, por você, oun“. Acontece que não ouvi a música, que essa banda realmente me azucrina. Então convém apenas manter a delicadeza e amor bem guardados em outros cantos desta casa, à espera do fim do expediente.

.: 19h32

Gosto tanto desse desenho, mas não sei bem que fazer com ele. Se posto quieta no tumblr, ou se posto aqui e me inspiro a escrever alguma coisa. É verdade também que às vezes ele me estranha um pouco. Me faz pensar na delicadeza essencial feminina, nessas bobagens todas sobre a docilidade, a suavidade, a sensibilidade *da mulher*. Se eu publicasse um livro sobre a escrita feminina (explosão de risos para esta hipótese absurda), faria deste desenho a minha capa. Uma garota que caga morangos. Muito melhor que a bailarina do Chico Buarque, convenhamos.
Pelo menos esse problema do que fazer com o desenho eu resolvi hoje.

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11 Respostas

  1. Agora fiquei curioso. Como seria um livro sobre a escrita feminina? Quer dizer, um livro seu. Como você o organizaria? Como seria o índice, sumário, sei lá?

    Uma vez um amigo meu disse que a Margareth Atwood é a única mulher que ele conhece que realmente escreve como um homem. Tá, mas o que isso significa? E um homem pode escrever como uma mulher?

    Coisa louca. Desculpa as elucubrações, mas esse lance do gênero no mundo das palavras realmente me fascina.

    Gostei do desenho também.

    Saludos

    • Ia ser um livro implicante hahaha

      “… uma mulher que realmente escreve como homem. Tá, mas o que isso significa?” Nada, ao que parece. esse é exatamente meu ponto: a ideia toda de “escrita feminina” é artificial e boba, porque não existe um jeito “feminino” e um jeito “masculino” de executar uma ação, expressar uma ideia ou sentir alguma coisa. Pra que exista, a gente em que acreditar que as diferenças entre homens e mulheres, além de muito grandes, são perfeitamente claras e delineadas, e que seu gênero determina previamente cada instância da sua subjetividade e te aproxima de todos os outros indivíduos do mesmo gênero. Como eu não acredito em nada disso, eu faria um livro elencando escritores e escritoras para mostrar que as tais características textuais femininas são uma forma datada, pobre, forçada (e as vezes machista), sobretudo qdo a gente encontra homens que “escrevem como mulheres”.

      Tem nada q pedir desculpas, o assunto é fascinante mesmo.

      abraço :)

      • Concordo com você.

        Acho muito interessante essa discussão. Também me faz lembrar no tal “filme de menino” e “filme de menina”. Tipo, pessoal que diz que pra gostar de Clube da Luta você tem que ser homem ou que comédia romântica é filme de menina. Tem toda aquela coisa de “condicionamento cultural e social” e certos temas e abordagens ficam vinculados a um gênero. No fim das contas não há vínculo nenhum, mas é engraçado como as pessoas se “esquecem” ou simplesmente ignoram isso… e é daí que vem toda a discussão a respeito.
        Eu acho muito interessante.

        Valeu!
        Até a próxima!

        • Tem muito disso. Nos gostos, eu acho, essa divisão parece mais óbvia. Pornô pra mulher é romance, pra homem é trepada. Filme pra homem é aventura e violência, pra mulher é comédia romântica. Nesse terreno o marketing já pôs todos os arados pra trabalhar.
          Mas em relação à produção, eu acho, ainda dá pra ver a fragilidade da coisa. As pessoas ficaram uau com o tipo de filme q a Bigelow fez, sobre guerra. Teve mulher que chiou até, dizendo q mulher só ganha oscar fazendo filme “masculino”. Partindo do princípio que tem uma temática, uma abordagem que genuinamente represente *a mulher* e tvz mereça mais o oscar que um filme de guerra, já que a diretora laureada é uma mulher e etc.

  2. twitter, refúgio dos desaforos não ditos pessoalmente.

    perfeito. simples e perfeito.

    é, como ja diria aquele grande fã incorfomado de restart: vou xingar muito no twitter.

  3. Eu acho comédia romântica um troço muito chato…
    Há mesmo uma incompreensão sobre esse lance da “escrita feminina”, que pra mim é completamente resultante da desigualdade do espaço ocupado por homens e mulheres. Porque se a gente constrói o espaço público como masculino e o espaço doméstico como femiminino, me parece que essa divisão tende a resultar em temas diferentes. Quer dizer, não obrigatoramente, claro, mas acho que você entendeu o que eu quero dizer. Além da temática, há uma defesa de que existem recursos estilísticos masculinos e femininos? Porque, nem falando das mulheres, dizer que, sei lá, Graciliano, Machado, Caio Fernado Abreu e Milton Hatoum são representantes do “estilo masculino” me soaria sem pé nem cabeça. Logo, porque fazer isso com as mulheres, tentar enquandrá-las todas porque são mulheres?

    • eu vou por aí tbm. diferenças temáticas e estilísticas são isso, diferenças temáticas e estilísticas. não de gênero. sedimentar qq tipo de subgênero pra reivindicar atenção, pra garantir a voz, pra consolidar campo de saber pro feminismo, pra mim, é contraproducente.

  4. Olá, gostaria muito de saber de quem é o desenho e onde foi publicado antes, se é que foi. um abraço, L.

    • o desenho eu descobri através do tumblr, aqui. só que no tumblr nem sempre a gente tem referências direitinho, acho que esse é um dos casos. não sei quem fez, nem quando, onde ou se publicou.

  5. muito obrigada.
    abrçs, L

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