a vocação de Scheherazade

.: Calhou de eu começar a ler os livros da Marjane Satrapi nessa época em que o mundo todo descobre a história da Sakineh Ashtiani e, através dela, redescobre, horripilado, a condição da mulher iraniana. Meu receio era de parecer insensível ao drama da Sakineh enquanto me ocupo de comentar a beleza e importância da produção artística de Marjane, cuja vida nunca esteve tão ameaçada quanto está a de Sakineh, agora. Na verdade eu não queria falar nada sobre Sakineh Ashtiani. O pesar e a apreensão aqui são profundos. O bastante para sobrar indignação inclusive para aqueles que usam o nome dela para, no contexto eleitoral em que estamos, enaltecer ou criticar os passos da política externa brasileira. E também torço o nariz para a consequente estereotipação da, como eu disse, condição da mulher iraniana. Do fato da opressão violenta que o regime islâmico impõe às mulheres não pode decorrer, assim, rapidinho, preto no branco, a fixação das iranianas no papel de coitadas, imobilizadas, daquelas que carecem urgentemente da intervenção e salvamento dos países ocidentais porque não dão conta de lidar e reverter a situação em que se encontram.

.: Procurei muito algum pronunciamento da Satrapi em relação a sua conterrânea Ashtiani, ainda não achei nada. Também não sei se ela vai falar algo, se ela acha que tem mais alguma coisa a dizer. Já deixou bem claro que desaprova o regime islâmico, senão com seu exílio voluntário desde os vinte e poucos anos, então com as histórias que desenhou e escreveu para contar sua vida. A obra mais famosa dela é Persépolis, que já virou filme. Justamente, é uma autobiografia ilustrada, muito interessante, recomendadíssima. Difícil, aliás, escolher entre o filme e o livro. O filme tem uma trilha sonora ótima, um ritmo impecável e o lirismo necessário para que a gente assista aos acontecimentos mais tristes e violentos sem sentir muito desconforto. O livro é outra vibe. A história é contada em pequenos episódios, linearmente, que cobrem a infância da Marjane, quando se dá a Revolução Iraniana, e vão até sua partida definitiva do Irã. Como ele tem muito mais detalhes, acaba dando uma sensação de estafa, de abundância de elementos negativos. Eu achei Persépolis meio fatalista, e extremamente melancólico. Ainda mais melancólico do que tendem a ser as autobiografias, porque na história pessoal da Marjane está, indissociável, a história política de seu país. É impossível entender quem Marjane amou, e como, quem morreu, quem viveu, senão através do contexto político e cultural do país dela. Então, em muitos aspectos, é a história das perdas, da partida da Satrapi. De quebra, ela mapeia a trajetória da politização, dela e dos seus. Os pais e os amigos dos pais eram de uma esquerda crítica e culta. O tio era comunista militante. A avó, uma senhora irreverente e liberal. Esse é o marco zero, cujas promessas de progresso ela vê desmoronar. O tio é executado pelo regime, os pais desencantam completamente. A vida das pessoas empaca ao redor da menina. Então aos 14 ele é mandada pra Áustria, porque os pais temem que sua inclinação contestadora a ponha em risco. E quando volta, uns anos mais tarde, ela percebe as contradições que surgiram com a acentuação da opressão política. As amigas são alienadas, fúteis, deslumbradas pelo ocidente. Mas mesmo nisso há um ato de rebeldia, a Satrapi conclui. A vontade de se maquiar e dançar numa boate, tudo isso é o resquício de um impulso de liberdade que afronta, pelo menos no íntimo das moças, o regime islâmico.

.: Mas pra mim a joia rara é outro livro dela, que eu li na sequência. Um livrinho curto, despretensioso, chamado Bordados. O bordado é o equivalente ao nosso tricô, então de antemão você fica sabendo que está entrando no universo feminino. O recorte é basicamente a vida afetiva, os anseios, as experiências. Marjane reuniu, nesse livrinho, a vó, a mãe, umas tias, umas primas e ela, naquele tricô. Sem nenhuma trama, nenhuma ação. Elas ficam na sala contando as próprias histórias, as histórias de outras mulheres, comentando, criticando, rindo. Todas muito diferentes entre si. Sou fascinada pelo poder do dono da narrativa, você sabe. E aqui são elas as donas das narrativas, que vão desenvolvendo e conectando ininterruptamente. Uma adorável mise-en-abîme, estratégia narrativa cuja rainha, nós lembramos, é Scheherazade. Enfim. Comparado a Persépolis, Bordados é aconchegante, leve. O ambiente doméstico abre mão da militância endurecida e permite a variedade de perspectivas, e é delicioso porque a Satrapi acertou perfeitamente a dose de ironia e autocrítica. O combate a uma cultura opressiva, nós sabemos, é coisa mui nobre. Mas aí as mulheres do bordado não combatem, elas estão no campo da negociação. Delas com deus, delas com a cultura, delas com as regras, delas consigo mesmas. Então elas narram aquelas histórias que, por aqui, figuram o horror. Mas achando e expondo as brechas que tornam a vida viável (e assim, acenando para Scheherazade) ao mesmo tempo em que ridicularizam a ameaça concreta que paira sobre as mulheres desobedientes (e, assim, subvertendo Scheherazade). A tia conta que foi dada, aos 13 anos, a um velho militar que queria casar. Casou mas fugiu, foi acolhida por uma tia e começou a rezar pra que deus matasse o marido – o que acontece uns anos depois, ela herda uma grana e vai ser pintora na Europa. Marjane conta que uma amiga fez uma simpatia pra conquistar um mocinho colocando uma pequena chave na xoxota depois de transar com ele, e tinha 77 segundos pra fazê-lo tomar um chá com aquela chavinha dentro da xícara. Outra conta de um golpe do baú que sofreu. Outra, que foi traída e mandou o marido pro diabo que o carregue. Uma acha que tem que casar por amor. Outra acha que tem que ser por conveniência. Uma prima conta que nunca viu um pinto na vida porque o marido só transa com as luzes apagadas e ela só pariu meninas. As outras ouvem e caem na gargalhada. E discutem se pinto é bonito ou feio. Se a prima perdeu mesmo alguma coisa por nunca ter visto, etc. E passam o resto do livro tirando sarro da mulher casada que nunca viu um pau. Então o tom é esse. Irreverente, sutil.
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.: Bordado também é o nome popular da cirurgia de reconstituição do hímem por lá. Imaginamos sua preciosidade num mundo em que a virgindade é fator relevante, relevantíssimo. Aí a tia pintora acha um absurdo, diz que as mulheres tem que assumir o que fazem pra ter chance de alguma transformação de mentalidades. Ela, que é uma personagem incrível, acha mesmo que a via é o enfrentamento. A vó acha que faz quem quer. Mas nem fica discutindo. Eu também gostei desse alinhamento que a avó faz com o bordado. Como eu disse, estamos no campo da negociação. Daqui de onde a gente olha, refazer o hímem pode parecer obediência e conformidade com a cultura machista. A tia pintora se posiciona assim, basicamente. Mas de lá, de onde a vó fala, parece um jeito de contornar o machismo com maestria. Os regimes opressores instauram, à força, a interdição, o risco, a delação, a vigília. Mas, em contrapartida, eles oferecem a chance de os resistentes se profissionalizarem na arte do disfarce, do improviso, da burla, do deboche, do cinismo. Tem isso em Persépolis também. As festas e o álcool estão proibidos. E numa noite os pais, a vó e a Marjane tão voltando de uma festa. Uns guardas cismam com o pai e querem checar se há bebidas na casa deles. No caminho, o pai combina de enrolar os guardas na porta enquanto a menina e a vó jogam a bebiba na privada. Medo, etc. E a vó, calma, diz que já cansou de fazer isso quando o avô era vivo e precisava esconder os panfletos contra o governo a tempo. É essa grande e experiente dissidente que diz, em Bordados, que faz a cirurgia quem quer. O marido que pense que casou com uma virgem e a moça que tenha sossego na vida. A sabedoria da avó é essa. É o que sua geração tem a transmitir às duas gerações seguintes, para quem as possibilidades parecem limitadas. Assume quem quer. Mente quem quer. Desde que seja pelo próprio bem-estar, em nome da própria felicidade. Felicidade que, assim posta, é ousada.
Há, também, essa possibilidade de aproximação entre as subjetividades das mulheres iranianas e as nossas, através dos fatos da vida. O casamento, o amor, o sexo, tudo isso pode ser difícil, complicado, pode ser divertido, pode ser prazeroso. Pode não ser evidente, mesmo (e principalmente) onde há regras para determinar e fixar os limites e papéis de cada um em cada uma dessas instâncias. Acho bonita essa dança que a Satrapi faz comigo, que a leio. Vejo bem ela me mostrar que até os traços mais rígidos da sociedade dogmática podem ceder à audácia e à elaboração das mulheres que eles visam controlar. Ainda que temporariamente, ainda que apenas num âmbito familiar. Submetidas, todas elas, às mesmas exigências do regime islâmico, em muitos aspectos sufocante e embotador, as mulheres do bordado estão ali, criando e transmitindo umas às outras as possibilidades de criação, intervenção, autonomia, volição, convicção. Ou, eu diria, elas estão cuidando da manutenção de sua subversão, dentro de seus meios e limites. A sobrevivência desse quinhão de atrevimento, que é mínimo e profundamente belo, não seria, em alguma medida, um ato de resistência?

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17 Respostas

  1. Assisti Persépolis e foi justamente a avó da Marjane que eu achei a personagem mais interessante. Vou ler o livro.

    • No livro a avó é a grande personagem, eu acho.

  2. Já deve ter quase um ano e meio que li Persépolis. Não tinha ouvido nem falar no filme, comprei num daqueles embalos em que você entra na livraria só pra sair com algo de lá, seja o que for. Confesso que não consegui entrar na vibe do quadrinho, não só pelo fatalismo e pela melancolia já enunciados por você, mas também porque, dentro da minha cabeça, eu não conseguia desconectar a jovem Satrapi daquele pessoalzinho de DCE, sabe? Uma coisa obviamente idiota, pois, como você colocou, não se pode comparar um esquerdista iraniano a um estudantezinho de federal que faz manifestação e usa camisa do Che, mas não larga da calça Diesel.

    Sempre fiquei com isso na cabeça, que minha implicância com Persépolis era besta e que eu não estava conseguindo me colocar dentro do contexto da obra para ter uma compreensão melhor, mas mesmo com ao menos cinco tentativas, nunca consegui sentar pra reler. Vou tentar o Bordado, que parece bom, e voltar a Persépolis mais uma vez.

    • É, eu acho bem diferente a situação entre lá e cá. Mesmo que seja um estado democrático, um governo legitimamente eleito, a gente sabe que há problemas, etc. E lendo o Persépolis dá pra acompanhar o processo todo, eu acho que ele tem essa dimensão de mostrar tudo o que se perdeu. E pra nós fica muito pesado mesmo. Mas eu entendo essa melancolia delaentendo muito. e acho que ela se redime em outras manifestações, como é o caso de Bordados, como em algumas entrevistas. Elas não é pessimista, nem derrotista, pelo contrário. Ela acredita que como muitas mulheres iranianas estão se instruindo cada vez mais e melhor, isso levará a uma flexibilização, a uma melhora efetiva na vida das mulheres no Irã.

      Eu li Persépolis com dificuldade. Demorei mais do que imaginada, do que uma história em quadrinho costuma demandar. Como tinha visto o filme antes, achei até que ok não terminar o livro pq eu já sabia como seria. Mas insisti, por depositar na Satrapi esse voto de confiança, de estima. Mas confesso: tive que me esforçar.

  3. Não conhecia a Satrapi e ganhei de presente de aniversário (em junho) o Bordados. Adorei! Li Persepolis em seguida e gostei mais ainda, porque, por meio da contextualização da cultura iraniana, pude entender melhor o peso da postura de cada uma das personagens de Bordados.
    Agora só falta ver o filme :)

    • Ah, é um belo presente. Vc tem razão, a parte de apresentar a história recente do Irã, esclarecer uns pontos da cultura é interessante. O filme é bom, é mais leve que o livro, é muito bem feito. Vale demais.

  4. Aline,

    Sobre o seu cvomentário do uso político do caso, eu lembrei da capa da Time, com a moça afegã que teve seu nariz arrancado. É realmente deprimente assistir estes casos serem instrumentalizados assim. Sabe, eu tenho um tremendo pé atrás com estes discursos uniformizantes sobre o islamismo. Porque o Paquiestão teve a Benazhir Butto como premiê muito antes de a gente eleger uma mulher presidente, então não posso aceitar de que existe essa “condição” intransponível (ainda que isso não diminua em nada a minha solidariedade por casos como o da Sakineh).
    Eu adoro “Persépolis”. Li o livro há muito tempo, e ganhei o filme de presente de uma amiga. Também não consigo dizer qual dos dois eu gosto mais, mesmo concordando que o livro é melancólico. Enfim, sou fã. Não li “Bordados”, fiquei curiosa. E gosto muito da sua análise. É importante lembrar que nossa visão sobre o Outro fica comprometida se não temos acesso ao seu discurso. Deve ser enriquecedor ter contato com o ponto de vista de “dentro”, as mulheres como protagonista de seu discurso.

    • Eu vi essa capa, e de fato era muito chocante. Li um artigo que o editor da revista escreveu explicando como foi o processo de escolha da capa, as dúvidas dele. Basicamente era isso, ele não sabia qual seria o efeito de publicar uma foto forte como aquela. Disse que ela foi tirada propositalmente num ângulo parecido com aquela capa famosíssima da menina de olhos verdes da National Geographic, para traçar uma intertextualidade. Disse tb que antes de publicar ele levou a foto pra casa e mostrou pros filhos pequenis, pra saber se eles eram capazes de entender aquilo, de absorver. Disse que os meninos não ficaram com medo dela, mas que quiseram saber pq ela não tinha nariz. Ele explicou e eles diziam que não entendiam pq alguém faria tão mal à moça e que, com essa conversa, ele decidiu que as pessoas estavam prontas praquela capa.
      Eu fico desconfiada com a apropriação do sofrimento alhieio por questões políticas. Isenta, mesmo, nenhuma instituição é, nem as pessoas são. Tenho visto gente usar a Sakineh de maneira pragmática, eleitoreira mesmo, que pra mim é o uso mais vil, mais grotesco. Seja contra ou a favor do governo Lula, que eu apoio. Eu leio noticias sobre como se posiciona me presidente e meu ministro das relações exteriores, voto no candidato do lula pq acredito no que ele tem feito. Mas eu paro aí. Posso dar mil razões pra votar na Dilma, a Sakineh não é uma delas. Só que no caso da revista, dessa capa especificamente, eu não sou contra. Claro que a imprensa americana tem o rabo preso, e eu não sei o teor da reportagem. Pode ser grotesco tbm. Mas a priori não sou contra divulgação do que acontece nesses países, nem contra o debate sobre. A gente pode, claro, se posicionar contra e desejar que mude, que os direitos humanos sejam garantidos e blá. Se mutilam as meninas assim, o mundo tem que saber. E se uma delas quer dizer pro mundo “isso aconteceu comigo”, eu acho ok. A Satrapi fez isso, mas de outro jeito. Saiu de lá e começou a falar o diabo, contar as coisas todas. Critica publicamente, deixa claro que não volta. Eu acho ótimo que o Irã esteja constrangido pela pressão internacional. Mas a gente tem que ser cuidadoso. Chiamos tanto que eles gravaram uma entrevista ridicula em que ela confessa. Então pra gente que protesta, é preciso muito, muito tato. E sobretudo não pode pautar esses casos pelo nosso umbigo, nem fazer da história delas uma arma pra resolver questões internas como uma eleição presidencial nossa.

      Eu gosto do Persépolis, acho importante. Marjane tem lugar garantido no meu coração. Só achei difícil de ler. Pesado mesmo, cansativo. Mas ok, eu entendo perfeitamente pq é assim o livro dela. Aplaudo e tudo.

      • Iara, acabei de ler um artigo sobre o teor da reportagem. retiro tudo o que eu disse. filhos da puta. usaram a foto da menina politicamente sim.

  5. adorei o post. vc escreve muito bem. vc tem um ritmo que é calmo sem ser chato, entende? morri de inveja aqui.

    sobre os livros, que não li, gostei muito do destaque que vc deu a essa “resistencia calada”. muitas vezes eu acho esse tipo de estratégia tanto ou mais eficaz que o pegar-em-armas. justamente por ser sutil e constante eu acho q consegue agregar mais pessoas por mais tempo, entende?

    :D beijo

    • Obrigada, Rayssa.

      Eu não chamaria a subversão delas de resistência calada, mas, talvez, de resistência velada. Tem o seu alcance e seus méritos, uma resistência assim. Vc tem razão, pode ser mais agregadora e mais duradoura. Mas eu tbm respeito e admiro a resistência armada, dependendo do ctxto em que ela surge. Contra governos militares, violentos, armados, por exemplo. Tbm entendo quem se exila. E sou profundamente fã da estratégia de não-violência do Gandhi. Na verdade, eu acho que o fundamental é que cada um encontre seus meios de fazer sua história e intervir na história política de seu país, de sua comunidade, ou simplesmente defender sua liberdade.

      beijo

  6. eu achei que a mensagem que prevaleceu no livro pra mim é essa ênfase em uma certa aproximação… o ocidente é figura presente, mas não é uma referência positiva, admirada; há a critica à ingenuidade da moça que achava que a vida acontecia mesmo nessas bandas, seduzida pela “mtv”, há a crítica aos europeus aristocratas que também valorizam a virgindade e tal. mas essa aproximação ocidente/islamismo não é pela opressão que se faz; há o tempo todo um tom geral de que a vida se desenrola e dá um jeito de acontecer, mesmo diante das limitações do meio. não é acaso o final, a mulher mandando no marido. a lindeza do livro é como isso é feito sem menosprezar ou minimizar o sofrimento ou a gravidade dessas imposições opressivas, mas narrando-as de modo tal que fica evidente como é incontornável, pra elas, a vida e os prazeres que elas buscam podar; que existe sempre uma permeabilidade. muito gracinha, esse livro.

    • não tinha como o ocidente não ser uma referência importante, pq a Marjane mora na Europa há muitos anos. E ela menciona bastante a construção do ocidente no imaginário das pessoas, em especial das moças, nos livros dela, como um mundo encantado. mas há sempre um personagem pra balizar essa imagem, pra por as coisas nos eixos a partir de um dado de realidade. a marjane, como narradora e personagem, faz isso. a tia pintora tbm.
      contudo, penso que nunca poderia haver uma aproximação entre ocidente e islamismo através da opressão encontrada em cada um deles porque é absurdo tentar fazer isso. nem a personagem menos atraída pelo ocidente é capaz de questionar, por um segundo sequer, que o grau de liberdade e possibilidades, para as mulheres, no ocidente, são muito maiores e melhores; que essa liberdade, em muitos aspectos, elas tinham e perderam depois da revolução no Irã.
      e nesse ponto o livro abala tb o nosso imaginário sobre as mulheres dos países islâmicos, o que é genial. “sem menosprezar ou minimizar o sofrimento ou a gravidade dessas imposições opressivas, mas narrando-as de modo tal que fica evidente como é incontornável, pra elas, a vida e os prazeres que elas buscam podar”, como vc disse.
      depois de ler esse livro eu fiquei pensando como a comparação de duas culturas visando extrair delas pontos em comum de opressão é muito banal, quando não desonesto e perverso. a opressão, aqui e lá, não é a mesma, não parte dos mesmos pressupostos, não conta com os mesmos meios, agentes, efeitos e etc. o resultado disso só há de ser o apequenamento e a limitação das chances das mulheres que, aqui e lá, tentam lidar com as situações que as sufocam pq elas são colocadas, por essa comparação, essencialmente no lugar de presas, vítimas, oprimidas. é muito fatalista, eu acho. (é claro que é uma hipótese absurda e estamos aqui beirando o humor negro. mas imagine a sakineh conseguindo asilo no brasil e alguém dizendo: não, não vem não, que aqui a cultura tbm é muito machista…)

      que bom que vc gostou do livro :)

  7. Taí, tô louca pra ler esse “Bordados” agora. Procurando na internetz agora mesmo. E não é à toa que a minha personagem favorita é a avó dela. Gosto especialmente do trecho em que Marjane, se achando muito da esperta, conta para ela como enganou um guarda, dizendo que havia sido cantada por um cara, que acaba sendo interrogado/preso (não lembro), injustamente. A avó acha aquilo um absurdo. “Que eu sempre lhe ensinei? INTEGRIDADE”. Lembro direitinho do som do “integrité”.

    • é ótima essa passagem da in-té-gri-té. e no bordados tem outras muito boas… recomendo muitíssimo, flor!

      =**

  8. Seu presidente torneiro mecânico dá apoio ao governo do Irã. Curti muito seu blog, seus textos, acho que você tem um lirismo muito bacana. Mas politicamente, discordo.

    Um abraço.

    • é verdade. e sob muitos pontos de vista, essa relação dele é importante e eu aprovo. sob muitos outros pontos de vista, eu me angustio também e torço o nariz. mas não custa meu voto esse receio, não.

      abraço

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