revival alegrinho

A única difículdade em começar um blog do zero, pra mim, foi deixar pra trás alguns posts dos quais eu realmente gosto e sinto orgulho por ter escrito. Não que eles tenham desaparecido, mas é como se mudar e deixar na casa antiga parte dos móveis, das fotos, das coisas que são um pouco de você. Enfim. Eu ia copiar um desses posts preferidos aqui, mas ele me pareceu grande demais nesse template, e eu acho que a apresentação de um texto influi no modo como ele é lido. Então vou deixar aqui o link do meu texto sobre o corpo obeso, uma foto, um excerto e um comentário. Como se isso valesse uma repostagem inteira.

.: Sou muito a favor da promoção de várias formas e graças, de olhares como esse do projeto Adipositivity, sobretudo porque eu vejo beleza na diversidade, eu também vejo beleza naquilo que não é exatamente o padrão ou ideal. E sei, com absoluta convicção, que não sou a única. E que na prática, o desejo e o interesse das pessoas por outras pessoas se dá de maneira muito mais complexa. Essa luta tende a tornar o mundo mais interessante e as vidas mais leves, porque nessa diversidade, as pessoas aprendem a lidar melhor com seus próprios corpos. Acho de extrema importância não manter com o corpo uma relação de ressentimento ou frustração, sobretudo se ele passa ao largo do corpo ideal. Mas enfim, funciona em ciclo. Então há quem se exponha antes e aponte esse espaço de manobra que outros não veem.

Já confundiram essa minha fala sobre aceitação de si, do próprio corpo, como extensão do discurso dos livros de auto-ajuda. Devo confessar que meu contato com esse tipo de literatura é muito restrito, mas tenho pra mim que o problema com esse tipo de livro é que ele pressupõe, em todas as pessoas, as mesmas angústias e os mesmos objetivos, ele resolve a vida, propõe fórmulas fáceis para ser feliz e bem sucedido. Para a literatura de auto-ajuda, a felicidade é uma questão de método e de status, de construir uma imagem de si que se projete positivamente e inflencie os outros, é uma questão de jogar direito o jogo, de adequar-se ao mundo da maneira mais proveitosa, e nunca de transformá-lo. É muito importante não confundir a aceitação de si mesmo, e sobretudo a vontade de ser mais feliz, com a superficialidade e a homogeneidade da auto-ajuda. Porque essa confusão desemboca em outra, a de que a lucidez traz necessariamente desconforto e infelicidade, e de que essa zona de desconforto é absoluta, instransponível e desejável para aqueles que se querem conscientes e politizados. Nem toda felicidade é fruto de alienação, nem toda infelicidade é sinal de lucidez, eu penso. As pessoas mais interessantes que eu conheci aproximavam-se daquela frase de Guimarães Rosa: eram felizes e infelizes, misturadamente. :.

Na época em que eu escrevi o post, eu estava mais interessada nessa desmistificação do corpo obeso, sobretudo o feminino. Engraçado que, enquanto a escrita é datada e fixa, a leitura é imediata e dinâmica. Relendo um texto que tem quase um ano, percebo que o que nele era um comentário en passant, hoje, pra mim, constitui sua parte mais importante: o abismo que existe entre as pessoas que voluntariamente escolhem lidar consigo e com o mundo de uma maneira amarga, pessimista, defensiva e as pessoas que, pelo contrário, insistem em cultivar uma atitude positiva e tranquila. Eu já acreditei que a diferença entre umas e outras fosse o grau de lucidez e consciência em relação aos problemas do mundo, que o ônus do conhecimento fosse a angústia e oh! etc etc. Que bobagem. Hoje penso que a tristeza, em toda sua profundidade e estetização, muitas vezes só disfarça uma pilha de reclamações e de desgostos das pessoas que simplesmente se acomodaram. A alegria, veja aí se concorda, é tão mais difícil. Exige mais esforço, mais coragem, mais agência, menos rancor, menos medo. E gera incômodos incuráveis em quem, plantado na beirinha do precipício, está muito preocupado em vaiar aqueles que passam cantarolando lá embaixo.

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8 Respostas

  1. Que lindo isso, Aline! Sabe, e já fui uma pessoa muito pesada. Achava que só com muito cinismo era possível ser feliz num mundo tão cruel. Até me dar conta de que o mundo não seria um lugar pior com a minha felicidade, pelo contrário. É até estranho eu ter pensado assim, porque meu pai tem uma história de resistência e tortura, mas é super leve. Vive os problemas, sofre quando tem que sofrer, fica indignado, mas não sai arrastando peso e armagura por aí. Demorei muito pra aprender isso com ele, mas acho que consegui.
    Eu continuo sendo uma pessoa angustiada, mas levo tudo com muito mais leveza. E concordo muito: ser alegre é mais difícil. Exige mais coragem, mais enfrentamento. Ontem recebi um e-mail de uma amiga num mal momento que foi me visitar na semana passada, dizendo que depois do nosso papo saiu mais tranquila. E puxa, eu que não tinha isso nem pra mim, já tô dividindo leveza com outras pessoas. Fiquei bem feliz, viu?

    • Ah, que legal :D

      O engraçado é que eu gosto muito de filmes, livros, músicas que são assim, tristes. As horas, por exemplo. Houve um tempo em que eu achava que apenas essas coisas diziam algo verdadeiro sobre a vida. Hoje, embora mantendo meu gosto por elas, percebo que minhas motivações e interpretações são outras. Eu já não acho que “assim é a vida”. Há, claro, momento pra tudo, e algumas coisas são tristes, são pesadas, merecem respeito e reverência. Outras exigem rebeldia e revolta. Outras, cinismo. Mas no geral vale mais tentar ser leve, mesmo. E demorou pra eu perceber como isso custa muito mais do que manter a pose triste e cool batida de sempre.

      beijos :)

  2. i’m so sorry Aline! Entendo perfeitamente o que diz. O texto é ótimo, mas não consigo ver essa beleza estética no adipositivity que você diz. Não consigo me sentir atraído, aliás, pelo contrário. O tumblr http://gostosa.tumblr.com/ acho mais bacana. Sou condicionado por um padrão? Não sei. Li Foucault e tudo, mas não consigo ver essa beleza. Tem algum exercício que ajuda a ver isso? a deconstruir? beijo.

    • Se você é condicionado? Nossa, não sei. Provavelmente não. Pra ser franca, eu acho que isso de ser “condicionado pela mídia” chega bem perto de um discurso que eu rejeito fortemente: uma espécie de essencialismo. Como se a cultura eliminasse a possibilidade de um “gosto genuíno” nosso, desviasse as pessoas da descoberta de coisas boas e diferentes. Se você vê o Adipositivity e não gosta, vê o gostosa.tumblr e gosta, bom, taí a linha que determina até onde vai sua atração por mulheres mais cheinhas. Não vejo problema nenhum, nenhum mesmo, nisso aí. Gosto é gosto, acho que ninguém precisa se esforçar pra achar bonito aquilo que não acha só por conta de uma convicção política ou algo do tipo. Pode acontecer, com o tempo, de vc simplesmente começar a ver corpos obesos de outra forma. Pode nunca acontecer. E ok.
      Meu texto fala mais sobre as pessoas que se sentem vitimizadas pelo padrão estético, como se ele efetivamente lhes subtraísse o espaço no mundo. E eu acho que não é por aí, justamente. =)

      beijo

  3. seu blog foi verdadeiramente um achado.
    um tufão de ar fresco no meio da fumaça cheia de pó de ferro queimado.
    não somente pela claridade de suas idéias – e não quero com isso supor que concordo com todas, mas que voce parece profundamente lúcida e comprometida com seus ideais (o que é muito mais valorizante que estar sempre em concórdia com-igo ou com outro) – como também pela escrita clare sem deixar-se cair na pobreza da linguagem.

    sobre o post em particular, li o antigo também. não consegui abrir o site.
    mas achei de uma pertinência sem tamanho, especialmente levando-se em conta o desprezo da diversidade e o direcionamento do interesse, os quais as pessoas parecem afundar-se sem notar.
    discordo da parte em que propõe-se qualquer valorização do não saudável, e penso muito nisso.
    estar muito gordo ou muito magro não é fisicamente saudável, e aponta algum desconforto psicológico.
    o desconforto é algo que me preocupa.

    e parabens, sensacional!

    • puxa, obrigada :)

      eu não disse que valorizo a falta de saúde nem distúrbios alimentares, também acho que isso é delicado e merece atenção. eu valorizo corpos de diferentes formas, não há relação necessária ou imediata entre o primeiro e o segundo elemento.
      também não é incontestável essa relação entre obesidade/ magreza e “desconforto psicológico”. aliás, esse tipo de discurso psicologizante tem dividido espaço com outro discurso, o determinismo genético. ambos, na minha opinião, são equivocados e irrelevantes, na maioria dos casos.

  4. é triste ver muitas pessoas excessivamente preocupadas em imitar os padrões estéticos tão louvados, principalmente pelos meios de comunicação de massa.
    é difícil para muitos perceberem as diversas belezas, por que já sofrem ou sofreram uma lavagem cerebral que diz “apenas isso é bonito, é aceitável, e para que voce não seja criticada, deve aparentar assim”

    • eu tbm não acho que as pessoas devem se preocupar demais em adequar-se a um padrão. mas eu já não mais critico quem se preocupa e se esforça, e também não credito a uma suposta “lavagem cerebral” a motivação das pessoas em relação ao próprio corpo e aparência. basicamente, eu acho ok não ser vaidoso e ok ser vaidoso. cada um que elenque suas prioridades, assuma e seja feliz.

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