Dissoluções do como, o livro

.: A Flávia foi minha aluna, num contexto em que de professora mesmo, eu tinha pouco. Com 18 anos, fui dar aulas de literatura num cursinho popular, então na minha história ela é da 1ª geração de alunos. Numa turma, aliás, que eu adorava porque eram todos muito interessados e fofos. Ali mesmo já dava pra ver que ela era uma menina brilhante. E queria entrar em Letras e fazer russo. Entrou e fez, claro.
Eu só descobri que Flávia era artista bem depois de nos tornarmos colegas. Ela ficou amiga da Eriquinha na faculdade e nos apresentou. E foi a Eriquinha, de um jeito completamente doce e espontâneo, que me denunciou essa verve da Flávia. Foi no dia em que ela descobriu que eu tinha sido professora da Flávia e veio me perguntar sobre. E eu estava lhe dizendo justamente que não me sentia professora da Flávia, só colega mesmo. Comentei algo sobre achar a Flávia muito inteligente. E a Eriquinha disse que a Flávia era como Drummond pra ela. Talvez você ache exagerado, mas você não conhece a Eriquinha e nem a Flávia, então eu nem vou tentar explicar. Sei que na hora eu fiquei admirada também. A Flávia faz o tipo quietona, muito na dela. Eu não sabia que era poeta e desenhista. Mas faz todo o sentido. Sei que a primeira exposição de uns desenhos seus aconteceu logo depois. E o primeiro prêmio por suas poesias também. Ainda por cima, ela joga futebol muito, muito bem. Então eu vou parando por aqui porque Drummond não jogava futebol e, pior, tem no currículo essa mancha de ter se formado farmacêutico.
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.: Recentemente o primeiro livro da Flávia foi publicado. O que me enche de orgulho e felicidade por ela. Depois de me contar sobre a publicação, meses atrás, ela fez *o pedido*. Queria que eu escrevesse o prefácio do livro dela. Acho que eu não soube, na época, demonstrar o quanto isso me deixava comovida e lisonjeada. Ainda não consigo. Foi extremamente difícil escrever o prefácio de Dissoluções do como porque escrever sobre poesia, pra mim, já é encrenca. E também porque eu queria demais que ela gostasse do texto. E eu estava convicta que me faltava o distanciamento crítico necessário. Até eu me dar conta de que como crítica eu não conseguiria mesmo escrever muito para a Flávia ou sobre a Flávia. Escrevi, então, tomada pelo gosto que tenho por ela, por suas poesias e seus desenhos. Disfarçando, insegura, toda minha tietagem numa tentativa de análise dos poemas, do clima todo do livro. O texto acabou virando um convite, que era o melhor que eu podia fazer. Convite, enfim, que eu estendo a vocês.
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.: excerto do tal prefácio
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“Tendo a perceber as borboletas, besouros, tatuzinhos e formigas, tão constantes nos poemas e ilustrações de Flávia Santos, como uma extensão desse universo das coisas mínimas exponenciadas poeticamente. Não raro, ao observarmos um inseto, nos deixamos absorver pela quantidade de detalhes de seu corpo e especificidades de seus movimentos, pela complexidade da cadeia em que está inserido e da qual nós mesmos, de tão grandes, somos excluídos. É próprio ao bom observador entregar-se ao fascínio, à fixação, ao que é sutil mas complicado até que esqueça de si mesmo. Assim, os insetos chegam a nós como uma nota do exercício necessário e insistente do olhar, então estabelecido entre o leitor e a poesia; e, se na literatura costumam sinalizar o horror, o abjeto, o sombrio, o bizarro, aqui eles sugerem leveza, minúcia e dissolução enquanto carregam amantes, compõem reinos infantis, engendram metafísicas, desejos e lembranças.
Os insetos atravessam todo o livro, costurando poemas distintos em estilo e tema, para protagonizarem, se me é permitido adaptar o conceito, o poema que encerra o livro de maneira tão delicada e inteligente, Os insetos do lustre de Luisa. Aprecio especialmente esse poema por reconhecer, nele, a maneira como eu mesma atravesso as boas obras: alheia, desconhecedora das demais coisas, posto que fixada numa única voz, numa única luz. Os mundos paralelos que os insetos ignoram, assim como os mares, as estradas e as cores da manhã são também aquilo que ignoramos quando a literatura, ou a música, ou o cinema tomam nossos sentidos e atenção. Assim como os insetos, também nós não sabemos por onde andará Luisa, mas não é a ela que nosso olhar se dirige, é nos insetos, nos pequenos e absortos insetos.
Dissoluções do como é uma obra de estréia, para dizer o óbvio. E é uma obra impressionante, para dizer o mínimo. Não pretendia, aqui, fazer mais do que um convite à leitura, e desejar aos recém apresentados a esta artista que apreciem os poemas e as ilustrações.”
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9 Respostas

  1. Agora deixa eu te contar uma coisa que só foi revelada pela mãe da menina aí de cima: esse já é o terceiro livro! É? Chocada também?!!!! Bom, ela escreveu alguns poemas que foram publicados em coletâneas de “novos poetas”… Na infância!!!

    Quando vier para SP, passa em casa que te mostro os livros…

    • hahahahaha

      é a cara dela, meu. que fodona
      hahahahha

  2. tenho vergonha!

  3. e este desenho ai tatuado no braço

  4. que bom que nos apresentou Flavia

    fico feliz toda vez em que enconto alguem que escreve de verdade, que realmente tem o dom da palavra.

  5. ah, gostaria de te apresentar Vanessa Benz

    http://norbertha.zip.net/

    uma de minhas escritoras prediletas

    • que bom que gostou da Flávia. vale a pena acompanhar o que ela escreve, com certeza.
      Dei uma olhada no blog da Vanessa, gostei. Logo logo eu me detenho mais por ali, então obrigada pelo link :)

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