o meio-termo e o irreversível

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O Gravata é um polemista, e eu, que bem ando fugindo de arruaça, vez ou outra caio nessas provocações e me meto a argumentar. Começou como um comentário ao post dele (sobre a lei antipalmada e pessoas pró-escolha), ficou grande demais, virou post aqui.  É preciso que você se interesse pelo assunto e leia o post lá antes de encarar este. São minhas recomendações, pelo menos.
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Gravz,
Três coisas eu preciso dizer: eu sou pró-escolha, você sabe (e sei que você também é). Eu gosto dessa lei antipalmada. Não vejo nenhuma incongruência nisso.
Pondo aborto no meio, você me pega de jeito. E me obriga a vir pra conversa levando a sério essa comparação entre ser pró-escolha e ser a favor da lei antipalmada. Eu, creio, entendi seu ponto. Que é a interferência do Estado nas questões de foro íntimo. A preservação da autonomia das pessoas diante das questões que a vida lhes apresenta. Mas veja. Dizer que a criminalização do aborto toca na liberdade individual corta fora nuances importantes e necessárias pra poder sustentar essa comparação (que eu considero infeliz) entre o direito de legislar sobre o próprio corpo e o dever de educar uma criança, que, afinal, é outra pessoa.
Penso que por mais  libertário que seja um governo, espera-se que nunca ninguém tenha o direito de dar um tapa numa criança, ainda que com as melhores intenções. Aqui no Brasil, felizmente, não existe direito de bater, mas sim, ainda mais felizmente, o dever de educar. Eu acho um bom critério esse que exclui do processo educacional dos meninos qualquer castigo físico. É condizente com o nível civilizatório que dizemos ter atingido, é adequado ao discurso de vários  pedagogos e psicólogos. Fico um pouco inquieta quando a ressalva é “sou a favor da palmada mas claro que sou contra espancamento“, porque, puxa, isso é tão mínimo, tão fundamental, que não serve como contraponto. E não dá conta da larga faixa de violência doméstica que separa um espancamento de um tapinha corretivo.
A proibição e a criminalização do aborto se sustentam em diversos argumentos, todos eles religiosos, nenhum pedagógico. O cerceamento da tal liberdade individual das mulheres se dá por causa de uma especulação absurda quanto ao princípio da vida e sua valoração, numa escala que fixa a existência factual da mulher logo abaixo à existência virtual do feto. Não há nenhum pragmatismo, nenhuma melhora na qualidade de vida de ninguém, nenhum aperfeiçoamento de um conceito ou traço cultural. É opressão pura, simples e tradicional. Andamos numa corda bamba quando comparamos a liberdade pela escolha do aborto a um problema de liberdade na gerência da educação dos filhos porque, justamente, o esforço está quase inteiramente em tirar a gravidez dessa esfera da obrigação parental. O direito de uma mulher interromper uma gravidez indesejada e de seguir com sua vida, sua saúde, não equivale, de jeito nenhum, às práticas punitivas que os pais escolhem pra ensinar o filho a não bagunçar o quarto, não falar palavrão, obedecer às ordens etc. Um aborto nunca será assim trivial (embora os antiescolha adorem afirmar que sim), por mais cuidadosos que nós sejamos em relação à importância da educação das crianças.
Outra coisa. Aborto é definitivo. É uma solução pra uma situação delicada, difícil, conflituosa, pontual, singular. E qualquer que seja o desfecho de uma gravidez indesejada, ele será irreversível. Interromper a gestação é irreversível, não interromper também é. Não existe meio termo aqui, e depois de um momento preciso as consequências da escolha simplesmente se desenrolarão. Diferente da educação de uma criança. Que não depende de uma decisão única e crucial, nem acontece num momento específico, mas num processo em que os eventos problemáticos geralmente não são encerrados por soluções pontuais. Criar uma pessoinha requer muitas atitudes diferentes, tantas conversas, esclarecimentos, broncas, incentivos, silêncios, insistências, repetições, ponderações, ao longo de anos. De todos os anos da vida dos envolvidos, se possível. Como todo relacionamento, este é, por excelência, o campo em que meios-termos tendem a funcionar. E mesmo quando os pais cometem um erro (e cometem), ele não é irreversível. Ele (quase) sempre poderá ser retomado, repensado, corrigido e superado. Então essa lei não ata as mãos e pés dos pais zelosos. Quero dizer, ata sim, mas abrindo espaço pra que outros métodos educativos, menos violentos e mais respeitosos, sejam considerados e aplicados.
E basicamente é isso que eu acho.
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Um beijo,
aline
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4 Respostas

  1. cara, eu li esse post do gravz e lembro q comentei algo como “essa comparação é tão ridicula (ou absurda, ou babaca não lembro) que eu mal consigo pensar em onde começar pra desconstrui-la”.

    vc, de novo, tirou as palavras entupidas na minha boca. :D

    beijo

    • é, eu tbm não curti a comparação.

      beijo

  2. Sobre o aborto:

    ” a mulher tem direito de fazer o que quiser com o seu corpo “.

    ok, o feto, ou o ‘projeto de’, está dentro do, e não é do.

    O feto é alienigena ao corpo da mulher, tanto que nas primeiras semanas, precisa se defender dos anti-corpos como se fosse um virus qualquer.

    Algo que esta dentro de, mas que não é de, não pode ser julgado como “seu”.

    Seguindo essa lógica a mulher não pode decidir por algo que não é extensão de si mesma, mas que compartilha um espaço comum.

    • “espaço comum”uma ova, estamos falando do útero e não de uma praça pública. a gravidez é um processo biológico que acontece necessariamente no corpo da mulher, sobre o qual ela tem, sim, plenos direitos e poder de decisão. o feto não ganha direito de usufruto simplesmente porque existe, pelo menos não deveria. então se a saúde da mulher está comprometida, ou se simplesmente ela não quer estar grávida, ela não deveria ser obrigada pelo estado, baseado em princípios religiosos, a permanecer grávida.

      essa parte aí dos anticorpos chega a ser engraçada. se isso é argumento, então ngm deve poder tratar uma doença pq os vírus, bactérias, estafilococos, piolhos, cáries, nada disso pertence ao corpo e, como parte da obra divina, merece respeito e integridade.

      e olha que estamos falando estritamente dos aspectios fisiológicos e biológicos. nem vou desfiar os argumentos sobre a importância do direito de abortar do ponto de vista social, político e blá.

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