Saga Crepúsculo: duas ou três ressalvas

Antes que o quarto filme seja rodado e eu morra de vergonha em me assumir leitora/espectadora dessa encrenca, resolvi explicar quais são minhas ressalvas em relação à saga Crepúsculo.  Dá pra fazer uma lista:

1) Os livros são mal escritos. Péssimas metáforas, nenhum lirismo, nenhum bom gosto. Tem uma metáfora que jamais esquecerei. A Bella toma um pé na bunda e diz que sente como se tivesse um buraco no peito. Ok. Aí toda vez que ela pensa no Edward, o buraco dói/queima/ lateja (!!) E depois que ela tem que se afastar do Jacob, diz que sente outro buraco, na verdade ela se compara a um queijo suíço. I rest my case.

2) Os livros são mal escritos, B. Diálogos enfadonhos, detalhes inúteis e absurdos. Por exemplo, nenhuma personagem consegue reagir com uma interjeição normal. No mundo de Bella, todos arfam, bufam, suspiram, param de respirar, gritam, gemem, sentem dor, fazem caretas, antes ou depois de dizer bom dia. É intensidade demais, gente.

3) Os livros são mal escritos, C. O vocabulário é muito pobre. Sério. Mesmo pra uma narradora adolescente. Mesmo pra uma narradora em coma. No segundo livro, as duas únicas palavras que Bella consegue usar pra exprimir seu sofrimento (aquele do buraco) são torpor e dor. É torpor e dor, dor e torpor, amor, torpor, dor, torpor do começo ao fim. No hay condiciones.

4) Eu sou irredutivelmente #teamjacob. Não agoento Bella-i-have-no-choice-Edward.

5) A história é conservadora no úrtimo. Com boas doses de machismo. Eis o porquê:

Stephenie Meyer é mórmon. Isso só se torna um problema, em sua obra, porque o moralismo religioso estrutura a história quase inteira. A Bella é a protagonista e também a narradora dos quatro livros. Essa posição de destaque, no entanto, não garante muitos privilégios se essa personagem estiver num contexto em que ela é a voz a ser reformada (a gente já viu acontecer. Emma Bovary Lucíola não morreram à toa, né?!). E se é possível resumir a trajetória toda em uma frase, eu diria que a saga Crepúsculo, estritamente em relação à Bella, é a história de por quecomoquando ela virou uma vampira.

O que me incomodou, desde o princípio, foi a associação implícita e constante entre virar vampira e transar. Toda a proximidade de Bella e Edward é nociva, perigosa, ameaçadora. O desejo dela, portanto, estava sempre sob escrutínio, sob análise e reprovação. Você pode pensar que é um empate técnico entre Bella, que quer transar, e Edward, que não quer. Mas não se trata apenas de uma oposição de mentalidade entre o careta e a liberal, pois, justamente, o enredo se desenvolve de tal forma que Bella é sempre convencida a adiar um pouco mais sua entrega – simbolicamente, sua virgindade, factualmente, sua vida humana. As vontades de Bella, suas descobertas, seus desejos são sempre secundários, imaturos, são sempre narrados – por ela mesma, lembremos – de modo a evidenciar o quanto estavam errados, deslocados, imprudentes. Então eu imagino que para a autora a grande sacada foi fazer uma protagonista baseada numa estereotipação da adolescente secular de modo que ela pudesse pouco a pouco ser convencida, convertida, que seus valores pudessem ser mudados. Não importa se Bella deseja ser vampira, se quer comer o Edward. Ela não realiza seu desejo, ela não tem um espaço real de decisão sobre seu corpo e vai cedendo, na medida em que seu amor amadurece. Nos dois primeiros livros, os perigos e as preocupações inerentes ao namoro entre vampiro e humana são bem facinhos de perceber. Bella ama Edward, quer muito transar com ele e quer muito ser vampira pra ficar com ele pra sempre. Edward ama Bella, não quer que ela se torne vampira porque isso é uma maldição que comprometeria a alma da amada, que ele tenta preservar a qualquer custo. A princípio, a recusa dele ao sexo tem esse pretexto maior de não incentivar o apetite e arriscar que um amasso vire uma mordida fatal. Em si, o papo de “preservar a alma” da menina já é uó. (tem uma passagem em que ele diz que o corpo dela é muito frágil pra sua força vampira e ele poderia esmagar o crânio dela se não se controlasse na hora. o crânio, né?! sei, sei)

Aí no fim do segundo livro entra o assunto casamento e a polenta desanda de vez. Pra sempre. Eu fiquei com uma impressão forte de que a Stephenie decidiu abordar esse grande tabu: sexo antes do casamento. Resumindo, a Bella bate o pé e decide que vai ser vampira. E Edward impõe uma condição pra que seja ele a dar a mordida: casar antes.  Ainda aquele pretexto: é o único jeito de salvar a sua alma. Pra mim, a partir daqui, é mais difícil disfarçar o moralismo do livro porque as desculpas que evitam a vampirização começam a ficar muito frágeis. Um casamento não salva sua alma do pecado de querer beber sangue, dormir num caixão e fugir de alho. Casamento só salva você de um único pecado: a fornicação. Estamos no terceiro livro. Desde o primeiro, Bella sabe que quer ser imortal pra ficar com Edward pra sempre. Pediu mil vezes. Quando ele diz “vamos casar” ela recua. Porque, segundo ela, “casamento é uma coisa muito definitiva” (!!), é como “o beijo da morte” (!!!!). A lógica dela é mais ou menos a seguinte: pra que casar se o que é imortal não morre no final? Eu cheguei a desconfiar que era resistência à caretice. Não é, é resistência à “seriedade da decisão“. E ela cita estatísticas de divórcio e aqueles clichês tipo “casamento é uma instituição falida“. Voltamos, então, pro meu ponto inicial: Bella sustenta o argumento a ser desconstruído. Casar antes de trepar? HA-HA-HA, nós dizemos. Mas aí Edward explica. Que ele sabe que é uma coisa antiga. Mas é a coisa certa a fazer. A importância das regras e do ritual. É um jeito de salvar a alma. No fim do terceiro livro, Edward tem uma ataque de fraqueza qualquer e diz “vem-cá-que-eu-te-mordo-agora-sua-linda“. Adivinhe se Bella aceita? Reproduzo aqui as palavras exatas: “responsabilidade. tudo na ordem certa. (…) eu vou me unir a você de todas as formas humanas antes de me tornar uma imortal. estou seguindo todas as regras, Edward. sua alma é muito, muito importante para que eu corra riscos com ela.” Eu acho que esse é o ponto exato em que o puritanismo, representado na obra principalmente pela voz de Edward, se expõe inteiro e triunfante diante do leitor. A alma dele também pode e tem que ser salva. Só não sei do quê, considerando que ele é vampiro há 90 anos e já matou uns 50 pra beber o sangue antes de ser vegan. Bom. Sua alma pode ser salva da luxúria, e essa salvação vale mais do que qualquer outra no mundo do moralista religioso.

Embora essa relação entre vampirismo e sexo seja o centro da minha implicância pela saga Crepúsculo, há outras coisas que são problemáticas. Bella é extremamente passiva na trama. Não que ela não tenha personalidade nem vontades, mas a autora fez questão de coloca-la em perigo a todo momento e mobilizar um exército de vampiros e lobisomens pra garantir sua integridade. Ela é o eixo da narrativa tanto quanto a Bela Adormecida, a Rapunzel, a Branca de Neve. A trama gira em torno dela, mas nunca é por ela determinada. Bella é a mocinha a ser salva, é disputada por dois homens e protegida por todos. Nada contra ter um ou vários homens babando numa mulher, mas nesse caso o desejo dela é reprimido e o deles é suplantado por obrigações cavalheirescas. Além disso, nas várias conversas que Bella tem com Jacob sobre a paixão/tesão que um sente pelo outro, ela diz que sabe que eles poderiam ser felizes juntos, que eles poderiam até ser almas gêmeas (?), mas que ela “não tem escolha“. O amor, para Bella, chegou de maneira absoluta, incontestável, invencível. Não sei o que pode ser mais forte do que o conceito de alma gêmea, do ponto de vista do amor romântico e idealizado. Mas sei que qualquer coisa que iniba a volição e a capacidade de atuação de uma personagem, numa trama, tem uma motivação simbólica e estética específica. E nesse caso, minha suspeita é de que o que determina que Bella e Edward fiquem juntos para sempre é uma força maior e inexplicável, não nomeada, à qual é preciso se submeter. (Dica? Edward é criacionista assumido).

Tanto é assim que Bella, como eu disse, ao longo dos 4 livros da saga, deixa de ser uma adolescente comum para se tornar uma esposa que casou virgem com seu primeiro e grande amor e engravida na lua de mel. Preciso dizer que por causa da gravidez o livro começa a debater o aborto? Que rola uma defesa do milagre da vida e da maternidade mesmo com uma gravidez muito nociva e arriscada? Bella só não morre no parto porque Edward finalmente a transforma. Vampiricamente, Bella é um upgrade que consegue controlar a sede de sangue sem esforço, tem o poder de criar escudo de proteção e blá. Sua alma está salva de todas as formas e, portanto, a espera, a sensatez, a contenção e as dores e riscos da gravidez valeram a pena. No fim do terceiro filme Bella diz uma coisa que não está no livro, foi coisa do roteirista: que ser vampira não tem a ver com escolher entre Edward e Jacob, mas sim entre ser quem ela é e quem ela deve ser. Eu não poderia concordar mais.

Não esquecerei nunca que Stephenie Meyer disse que não estava escrevendo uma história de luxúria, mas sim de amor. Então é isso. É um elogio à espiritualidade, à virtude, à idealização feminina. Eu poderia ter começado e parado nessa declaração, aliás. Basicamente resume tudo o que eu disse até agora. Obviamente, os filmes amenizam os dramas, os diálogos e mesmo as inconsistências das personagens. Mas esse afastamento não elimina o moralismo dos filmes porque ele está estruturalmente concatenado na história e seria preciso reescrever tudo. Só pra deixar claro: eu detesto os livros, mas gosto do primeiro filme. Um, que eu acho o Robert Pattinson uma delícia. Dois, gosto da trilha sonora e da direção. Então eu engulo esses clichês e problemas todos pra admirar o garotão. O segundo livro é ruim. E o terceiro é péssimo. O segundo e o terceiro filme estão entre razoáveis e ruins, dependendo da cena. Mas verei o último, claro. Porque eles já sacaram que a série é um pé na lama e tem que adaptar tudo. Mandei filmar obra mórmon?

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26 Respostas

  1. outro clichê mórmom/bíblico claramente abordado na trama: o submissão de Bella.

    ela sempre se submete ao Ed, porque ele sempre tem razão.

    mas o que mais me intriga é: se tudo o que a mulher de hoje não é, é submissa e casta, porque tantas mulheres [including me] piram na saga?

    perguntaria ao terapeuta, se eu tivesse um.

    • é verdade, as prerrogativas são mais dele que dela.

      por que a gente gosta? porque, eu acho, a gente curte uma história de amor e/ ou curte história de vampiro. quem não gosta de uma dessas coisas, nem vai experimentar. e quem acompanha só os filmes tem mais chance de não perceber esses moralismos porque os filmes voam bem mais baixo no radar :)

  2. […] This post was mentioned on Twitter by Diego Goes, aline. aline said: uma vez eu disse aqui que Crepúsculo era tosco e machista. agora fiz o post: Saga Crepúsculo: duas ou três ressalvas http://migre.me/X5QG […]

  3. Acho q as mulheres piram na saga pq olham pro vapiro la q ela casa como se ele fosse um “príncipe” sempre querendo q ela faça a coisa certa. E qual cara hj em dia não ia querer sexo antes do casamento? Talvez as mulheres queiram isso… essa proteção que ele dá pra ela.
    Adorei o que você falou sobre os livros, não os li (nem farei ainda mais agora), mas pelos trechos pude perceber que é muito… moralista pro meu gosto. E nem acho o ator bonito, ou seja, nenhum motivo pra assistir kkkk.
    Parabéns pelo blog

    • acho que cada pessoa tem uma motivação específica pra gostar desta ou daquela obra. eu achei que a stephenie focou muito bem num estereótipo de leitor, que é a mulher romântica. e acho que algumas das leitoras de crepusculo podem até se sentir tocadas pela figura do homem protetor, sim, como vc falou.

      engraçado que eu não acho problemático, em si, gostar da saga. eu mesma gosto do filme, e assisto os outros sem tanta birra (com os livros não, não tenho saco mesmo). mas eu gosto sabendo exatamente dos limites e tal. acho importante ter capacidade de perceber o que estão falando pra gente, né.

      beijo, e obrigada :)

      • É verdade… isso vale pra tudo, músicas, livros, filmes, vc tem q gostar mas entender a mensagem que eles querem passar, e não apenas gostar porque gosta.
        Como você falou, muita gente que não curte essa coisa de romantismo ou/e vampiro nem vai ler, nem assistir nada. Eu por exemplo, adoro essa coisa romantiquinha mamão com açúcar, mas vampiro já não é bem comigo. Principalmente esses que brilham e tudo mais kakaka prefiro o drácula mesmo ou o brad em entrevista com vampiro hauheua.
        Mas o bom da vida é isso, cada um com seus gostos e diferenças e vivendo em harmonia, sem ofender ngm. Enquanto as meninas gritam pelo vampirinho protetor eu grito Dr. Reid da série Criminal Minds.
        P.S.: e o melhor de tudo é que as pessoas estão lendo, mesmo que não seja uma obra digna de um Saramago, mas já é alguma coisa!!

        • exatamente. gostar por gostar, jamais. tem que ter uma justificativa coerente e embasada e uma motivação política :)

          brincadeira. claro que se pode gostar porque sim.

          eu curto romance açucarado de vez em qdo. curto várias coisas que são bobas e tal. o que eu quis dizer é que há uma diferença entre um livro (ou filme ou wathever) bobo, simples, e um livro moralista, machista, que prega castidade. e acho que é possível gostar do livro apesar disso, ele tem uma série de outros aspectos além desses. só acho importante que a gente identifique esse tipo de discurso quando ele aparece. melhor: acho importante que quem se interessa por questões de gênero tenha capacidade de perceber um discurso machista quando se depara com um.

  4. Poxa! Assim fica difícil quebrar meu preconceito e começar a ler/ver isso aí, rs…

    • hahahaha

      ler eu não aconselho mesmo. mas ver os filmes? sei lá, num dia nublado, com bolinhos de chuva e preguiça… por que não? :)

  5. Acho que a maioria das coisas que te incomodam nos livros podem ser culpa da tradução. Eu gosto dos livros, mas como eu gosto de livrinhos infanto-juvenis em geral, não são jóias literárias, são para o fim de um dia estressante, e cumprem seu papel sem mais.
    E, quanto à repulsa ao casamento que Bella tem, você mostrou um lado completamente diferente pra mim. Minha mãe é divorciada, e meu pai é “namorado” dela, durante muito tempo nem moravam na mesma cidade, etc. Então, cresci, cheia de amiguinhos com pais separados, achando que o casamento na Igreja alterava o psicológico do casal de forma a estragar tudo. Ou seja, eu, até hoje, achava que para Bella o casamento simplesmente era uma forma de estragar o ‘pra sempre’ deles, já que ela tem pais separados.

    • pode ser problema de tradução, sim. considerei isso e perguntei pra uma amiga tradutora, que me disse que em inglês o livro é ruim tbm. provavelmente é questão de gosto.

      sou apaixonada por livrinhos infanto-juvenis, tenho uma coleção deles e considero vários brilhantes. ser simples não é sinônimo de ser ruim. ser popular, coloquial e fácil não é sinônimo de ser ruim.

      essa leitura que vc faz da repulsa ao casamento que a bella sente não é tão diferente da minha. eu acho que ela oscila entre achar que o casamento é inútil e prejudicial. de todo jeito, as motivações dela não importam muito. importa só que ela ache o casamento inadequado ou prescindível para que nosso heroi a convença da importância da liturgia. ele consegue, e ela casa de branco na igreja.

  6. Eu realmente não saquei (talvez por não ter lido nenhum) essa avalanche de jovens fascinados por histórias de vampiros, magos, harry-potter-like stuff… Não estou dizendo que sejam ruins: de verdade que nem os filmes do harry potter eu vi.
    Quero dizer que acho curioso como a época atual está atraindo essa temática tão diferente: misteriosa, mágica, um pouco escura. É interessante que cada tanto tempo vai mudando de lugar o foco de atenção das pessoas.
    Que será que trouxe os chupa-sangue à tantas sagas diferentes? Será que foi o êxito da primeira que trouxe as seguintes ou isso será uma geração espontânea de personagens que estão envolvidos pela mesma temática para cobrir alguma necessidade psicológica atual?
    Vou pensar; voltarei a comentar sobre isso… Ploc! :P

  7. Aline, atire a primeira pedra quem não tiver algum tipo de Crepúsculo em seu currículo de leitor e/ou espectador… Mas quero te alertar que a cota não é interminável, então não abuse, viu? ;-)

  8. Sua análise do filme (e do livro) foi melhor que a de muitos pretensos críticos de cinema que vemos por aí.
    Enquanto algumas análises rasas se perdem vendo em Bella uma defensora do “feminismo” e do comportamento “moderno”, na realidade seus “espertos” críticos não notaram que Bella é usada apenas como um “contraponto” para para Edward que, por sua vez, é o verdadeiro portadora e defensor da moral mórmom que Stephanie Meyers quer impor aos jovens. Não é à toa que Bella sempre é “submissa” as vontades de Edward, porque se fosse o contrário o objetivo da série seria frustrado.
    Crepúsculo foi a maneira que Stephanie Meyer escolheu para doutrinar e tentar impor sua visão de mundo à nossa.

  9. “verdadeiro portadora” foi um ato falho. Misturei a sexualidade da autora com a personagem do héroi. Na realidade Edward é Stephanie Meyer, ou melhor dizendo, seu superego na forma de herói romântico.
    Sei lá, eu li a série inteira. Achei que era literatura ruim pra dedéu, mas mesmo assim não sosseguei enquanto não terminei de ler. Parece aqueles livrinhos “Sabrina” que a gente comprava na banca e devorava no quarto depois que chegava do colégio.
    :)

    • Olha, no caso de Crepúsculo eu nem fui muito atrás de críticas porque, além do twitter trazer boa parte dos posicionamentos, essa não foi uma obra que me inspirou a buscar opiniões embasadas e bem desenvolvidas. Quando eu e o ibere ficamos conversando sobre os livros, vi gente que não leu e não gostou e vi gente que gostou dos filmes que viu. Eu não tenho a pretensão de descartar uma obra sem ter lido antes, já cometi esse erro e quebrei a cara com Harry Potter, que eu acho muito bom. Também li Paulo Coelho e vi Sex and the City antes de dizer que acho um lixo. Com Crepúsculo, mesma coisa. Li tudo porque já tinha comprado os livros e estava curiosa pra saber como acaba, embora tenha ficado irritada várias vezes ao longo da leitura. :)
      Agora, eu acho impossível que alguém considere a Bella uma feminista. E mesmo “moderna” é uma palavra estranha, porque não é que ela é moderna, o contexto todo da obra que é antiquado. E a gente sabe que uma personagem, isolada, não diz quase nada sobre a obra. Que existe configuração de tempo, de espaço, voz narrativa, existem outros personagens, existe a trama, a intertextualidade, existem trocentos elementos que tornam a coisa toda complexa. Então uma personagem “moderna” que serve como contraponto de um discurso conservador acaba exercendo, na narrativa, uma função conservadora também. Porque ela não é uma pessoa, ela é uma invenção de um autor consciente e é assim que precisa ser tratada.
      Eu fiquei pensando muito se a Stephenie queria mesmo doutrinar. Tinha até um parágrafo a respeito no post, mas eu tirei. Eu acho o seguinte: alguns religiosos, em especial um tipo de cristão, querem, sim evangelizar os outros. Levar a palavra e tal. Eu não sei se Stephenie tem uma agenda mesmo, ou se ela apenas não sabe criar uma alteridade e faz um livro com a voz dela no fundo (concordo com o que vc disse do Edward). Ela parece ser carola o bastante, mas tbm é uma má escritora. Então paira a dúvida. Só que adolescente é muito impressionável. E esse papinho de castidade que protege o amor calha muito bem com outro discurso de que as pessoas só pensam em sexo e dinheiro, que é uma crítica comum e rasinha sobre os dias atuais (e que consta inclusive no primeiro filme da saga). Então essa relação Bella e Ed, pura e resistente aos males do nosso tempo, parece ser uma solução estética num livro/ filme mas chega aqui, do lado de fora, extremamente ideológica. E é ruim, é conservadora, é moralista.

      beijos :)

  10. Oi,

    Não li nem vi os filmes, mas depois da faculdade aprendi que a gente não pode dizer “não li e não gostei”. Tem que ter autoridade pra criticar. Lembro do espanto da turma numa aula de Sociologia da Literatura, que eu fiz como ouvinte, quando o professor, comentando sobre certo aspectos de personagens famosos, pergunta sobre o protagonista de “O alquimista”. A classe ri baixinho e ele pergunta: “não leram nada do Paulo Coelho? então não vale dizer que é uma merda”.

    Mas enfim, só pra dizer que eu li em algum lugar que essa temática conservadora, essa quase aversão ao sexo em Crepúsculo é o que justifica em muito o seu sucesso, em especial entre a galerinha que, mais crescida, já leu todo Harry Potter. Papai e mamãe americanos gostam muito de saber que as filhinhas estão gastando seu dinheiro e suspirando por um personagem que prega um, namoro casto, se identificando com uma heroína que se casa virgem. Acho que faz algum sentido, até.

    • eu penso assim também. tem coisas que de antemão não me interessam. ficção científica não me interessa. romance espírita não me interessa. mas rejeitar especificamente um livro sem ter lido é bobagem. e rejeitar algo porque é popular, também.

      minha hipótese pro sucesso da saga passeia por aí, pela conjugação perfeita que ela faz com a moda do sobrenatural e com as críticas à sexualização de “hoje em dia”.

  11. Querida
    vc é sempre tão elegante em suas análises..

    uma vez uma professora minha de sociologia debateu com uma aluna porque esta queria dizer que poderia decidir se seria afetada ou não pela cultura. e minha professora disse, “menina, a cultura é transmitida das formas mais diversas e muitas vezes de modo sutil e imperceptível”

    vemos como de modo divertido e empolgante, valores, costumes e crenças são transmitidos através de livros, filmes e, invariavelmente, estão influenciando a visão de mundo das pessoas, ainda que não fosse a intenção do escritor transmitir tais idéias.

    num livro que estava lendo de marilena chaui, ela argumentava que às vezes as pessoas transmitem valores culturais sem percerber, de tanto que já estão entranhados em suas vidas (embora eu não acredite que esse seja o caso de crepúsculo) ..

    • eu gostaria de ver a cara da professora quando a coleguinha disse que pode decidir por qual traço da cultura ela se deixa influenciar. hahaha

      eu realmente não sei se a meyer tem uma agenda, tipo um projeto de renovação de valores assim, engajada mesmo. mas eu acho que ela vê as coisas separadas em pacotinhos, sabe? o que é bom, aqui, o que é ruim, lá. acho até que ela se considera esperta por saber reproduzir um discurso secular sem fazer da personagem – no caso, a Bella – uma figura triste, vulgar, perdida ou wathever. enfim, posso estar viajando. mas não resisti a ficar tentando analisar a autora. tem cada detalhe. ela é muito insistente na descrição física dos vampiros, ela força uma lascívia, sabe? e aí vai mostrando o quanto isso é secundário e bla. um fenômeno. =)

  12. ai , colega.vc escreveu tudo o que eu pensava desde q terminei a série de livros.

    acho q a coisa fica mais escancarada na questão do aborto. o discurso é nojento.

    agora, se vc quiser uma série adolescente explicitamente retrogada e reacionaria dá uma olhada na Mediadora da Meg Cabott. aqui sim, viu amiga.

    sou team edward, só pra constar.

    • é verdade. na parte do aborto a coisa fica bem explícita mesmo, encerra de vez o machismo da obra.

      uma série adolescente mais retrógrada, obrigada, mas to passando =)

  13. OI.. Adorei esse seu blog.. Finalmente encontrei alguém que pensa junto comigo em relação a esses livros.. Adorei seus comentários.. Continu postando que eu vou continuar seguindo. Amei!!

  14. Eu adorei sua análise!!!Eu li o primeiro livro da saga só porque era em inglês, eu queria treinar o idioma e várias pessoas falaram que era um livro fácil para o começo…não gostei, fiquei irritada no final e,apesar de perceber que o que me incomodou foi o moralismo,o machismo(principalmente) e a pobreza do enredo, nunca havia conseguido fazer uma interpretação tão boa quanto a sua!Concordo plenamente com ela e eu acho que todos tem todo o direito de gostarem do que quiserem,não sou aquele tipo de pessoa que quer posar de intelectual e critica os gostos alheios taxando-os de fúteis ou coisa do tipo,sei bem que há momento para tudo.Porém, uma coisa me deixou bastante preocupada,para não dizer revoltada…não sei se é intolerância da minha parte,mas as vezes tenho a impressão de que as garotas(obviamente,não todas,mas muitas) curtem enredos como esses tomando-os como base para seu ideial de felicidade,para seus objetivos na vida(ao menos amorosos) e isso me deixa perplexa.As mulheres(e nao so elas) lutam desde a década de 1960 por igualdade de direitos,liberdade sexual e fim das hipocrisias da sociedade tradicionalista,para chegarmos a uma geração que quer,pelo que parece,todas as regras e instituições anacrônicas de volta!Acho que não faz mal curtir livros estilo best-seller,são ótimos para relaxar e descontrair,mas a saga de Meyer é um insulto a nossa inteligência(principalmente a das mulheres,já que são o “público alvo”),são livros sem qualquer complexidade,conflitos ou intensidade psicológica, sem contar o vacubulário,como você bem lembrou,os personagens parecem títeres, eles nunca surpreendem,não há muito sobre o que pensar…

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