os improvisos

.: Funciona quase sempre assim: se eu gosto do filme, ele vai ser meu assunto exclusivo por horas. Vou ficar conversando com o Paulo enquanto a gente reprisa as melhores partes, procuro detalhes, nomes, fotos, trilha sonora e críticas na internet, fico remoendo e convivendo com as coisas que o filme me provoca. A maioria dessas coisas eu esqueço logo, que minha memória é ridícula. Mas na hora é bom, é meu ritual e hei de cumpri-lo. Aí eu assisti (500) days of summer, que no Brasil chama 500 dias com ela e aqui em casa ficou sendo “quinhentos days of summer”. Gostei a ponto de iniciar meu esquema pós-filme, que, no caso, significou assistir A primeira noite de um homem (The graduate), que eu ainda não tinha visto. E aí eu fiquei gostando mais do (500) days of summer.

.: Eu aprendi com literatura comparada que não é imprescindível que você conheça todas as referências e vá atrás de tudo que é intertextualidade numa obra para apreciá-la. As boas obras se sustentam, mesmo que parte de sua riqueza escape à maioria das pessoas. Acontece isso entre (500) days of summer e The graduate, eu acho. Você pode assistir aquele e não fazer nenhum link com este, embora a referência seja explícita. 500 days, sozinho, ainda será um filme bacana.
Mas Calvino nos disse que um clássico é aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível. The graduate é um clássico, e é *o* rumor de 500 days. E certamente  você entende melhor o Tom (500 days) por causa do Ben (The graduate), mas o mérito de 500 days é fazer o Tom explicar melhor o Ben pra gente. Ou, vá lá, mostrar uma boa leitura dele. Isso aí é o filme que diz. Que o Tom é fruto de uma geração que entendeu mal The graduate. Esse filme tem mesmo toda a pinta de ser uma história de amor, embalada por Simon & Garfunkel – e, de certa forma, há respaldo pra isso. Mas tem umas lacunas, né?! E eu, que o assisti completamente contaminada pelas pistas de 500 days, achei que o Ben é mais um obcecado do que um romântico. A inaptidão dele em reconhecer e lidar com o amor, com a paixão. Ben Braddock é *o graduado*, é um cara que vai completando todas as etapas, linearmente. Depois do diploma, o emprego, o casamento, etc. E os pais e os amigos esquisitos deles ficam cobrando e orientando. Mas aí ele tem um caso com a Mrs. Robinson que o desestabiliza por completo. Sua primeira noite de um homem, seu ritual de iniciação, é gauche. Mrs. Robinson  é um espetáculo, segura, sexy, dissimulada. E ele é aquele desastre. Atrapalhado, afoito, arredio. O grande acontecimento da vida amorosa dele, é ela. Mrs. Robinson o tira do script e ele se desespera pra voltar. Com ela não dá. Então, que seja com a filha. Que é linda, doce, disponível. Eu fiquei bem intrigada com a Elaine, porque ela fica estagnada durante o filme inteiro, praticamente. Quase se casa com um colega de faculdade, mas acaba fugindo com o Ben depois que ele faz o barraco na igreja. E dá pra pensar que ela é só uma personagem rasa, mas a cena final, que pra mim é a melhor, é toda dela. Eles saem correndo, entram no primeiro ônibus e sentam no fundo, eufóricos. O sorriso dele vai virando uma expressão de confiança. O dela se desfaz e parece que ela vai olhando pra si, se dando conta. E olha pra ele, e ele só olha em frente. Ficam ali, absortos, em tempos distintos. Pra mim o descompasso entre eles parece imenso. Dois monólogos completamente mudos. Sounds of silence, etc. Vi a cena várias vezes, o olhar dela continua me hipnotizando. E acabo achando que ela está melancólica. Que o que parece superficialidade pode ser a constatação da falta de opção mesmo. O pai ia casá-la com um mané. E seu ato de rebeldia foi dizer: não, eu prefiro fugir com este aqui. O todo errado, o stalker, o traidor, o que a família rejeitou. Então esse espacinho de manobra que ela cria pra escapar, ainda que relativamente, da passividade, vem bem a calhar com a paixão obsessiva do Ben. Não é uma história de almas gêmeas, é uma história de improvisos, eu acho. O que cada um vai conseguindo fazer com a própria vida, no limite que lhe é dado. Confundindo paixão, expectativa e mais um monte de coisas com amor.

.: 500 days of summer é justamente a realidade incompatível pro The graduate. Primeiro, pelo óbvio: as relações sociais e amorosas são mais flexíveis, as possibilidades de vida são mais numerosas e complexas. Não que não exista mais Ben Braddock por aí, há e aos montes. Mas o Tom não é um deles, ele é mais velho, menos brilhante e sobretudo, despido das expectativas que sufocam o Ben. Quero dizer, o contexto é outro. Mas o eixo dessa realidade incompatível é a Summer. Que, eu acho, faz a ruptura e vinga um pouco a Elaine. Porque é feito a partir da perspectiva do Tom, o filme a todo momento inclina nossa simpatia pro lado deles como casal, até que um desavisado se sinta apunhalado pela Summer quando ela repentinamente aparece noiva de outro cara. Mas aí eu acho que é só malícia da narrativa, querendo rir discretamente dos Tom Hansen que eventualmente assmstirem ao filme. Pois a Summer é responsável pela educação sentimental do Tom. Então segue a fórmula: ela é o grande acontecimento da vida amorosa dele, ele fica obcecado, possessivo e é incapaz de lidar. As representações afetivas dele estão lá, no The graduate. Ele quer a garantia, o script. Ela não, pelo menos não com ele. E não é por acaso que a Summer chora quando vê essa cena que eu descrevi, se não me engano no dia em que ela termina o namoro. Ela é a garota que ama seus cabelos pretos tanto quanto ama cortá-los. Achei linda essa maneira de apresentar a personagem e avisar: a Summer sabe se desprender, mesmo das coisas belas, mesmo daquilo que ela ama, se essa for sua vontade. A fluidez com que ela atravessa o relacionamento a torna um pouco indecifrável, mas só porque o Tom não sacou muito bem qual é a dela. Então quando ela fica nua na cama dele, quando ela dá os sinais de interesse, paixão, tesão, ele recebe tudo e interpreta monoliticamente como indícios de “alma gêmea”. E quando ela recua, ele interpreta como inconsistência, maldade, mentira. Para que não haja dúvidas quanto à capacidade de amar da Summer, ela se apaixona por outro, fica noiva e etc. Não é exatamente com o script o problema dela, é que ela não está acuada por falta de opção, não precisa se rebelar contra decisões do pai nem nada. Então você percebe que a descontinuidade temporal, no filme, é bem mais que um efeito cool, ela dá um suporte pra narrativa: é pra gente entender por que é que a ficha dele demorou tanto a cair. A história vem fragmentada na mesma medida em que ele recortou,  interpretou e reinterpretou cada etapa do relacionamento. 500 dias pro Tom aprender o que o Ben nunca conseguiu: que as relações afetivas não precisam ser absolutas e urgentes, que há gradientes,  sutilezas e ambiguidades; que nem tudo é amor e que mesmo o amor pode, um dia, acabar, sem que a vida acabe junto. Leveza, pois. Então eu gosto muito que Summer e Tom terminem separados porque ela terminou e seguiu com a vida dela. Acenando de longe pra Elaine. E expondo definitivamente o quanto os dois protagonistas são perdidos e rodeados de mulheres mais interessantes e corajosas que eles.

.: Tenho cá meus instrumentos e métodos de análise, que vieram de um curso de letras, de teorias estéticas voltadas para a literatura. Sei perfeitamente que há limitações e falhas nessas minhas leituras, sobretudo porque a linguagem cinematográfica em muitos aspectos se afasta da literária, mas também porque isso aqui não é artigo, é só um post. Então é como amadora que eu me pronuncio, claro. Mas é que. Procurando textos sobre (500) days of summer, achei uns posts insípidos e um texto do Forastieri que me incomodou. Eu sempre lamento quando vejo que alguém confunde paráfrase com análise e se satisfaz em resumir o filme, intercalando uns comentários (sejam eles positivos ou negativos). Pior ainda quando esses comentários empacam nos moralismos e na busca de ligações imediatas entre a vida real e a obra, como se entre um e outro devesse existir necessariamente alguma relação de verossimilhança, algum trânsito de sabedoria, politização, conscientização ou qualquer outra função. Acho pobre quem trata um livro, ou um filme, como se fosse um relato puro e simples e, assim, confunde crítica com mero elogio ou reclamação, sem explorar nenhum aspecto da lógica interna da obra, os subtextos, as linguagens, sem aprofundar nada. Claro que é possível detestar o filme e criticá-lo. Mas dizer, por exemplo, que não existe mulher que transe com um cara sem querer nada sério é machista. E do ponto de vista da análise, não acrescenta nada. Uma pena.

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3 Respostas

  1. Olá.

    Gostei muito desse post. Acho que o que você escreveu, as referências e raciocínios fazem muito sentido e acrescentaram boas reflexões para minha percepção desse filme.

    Veja só, 500 Dias Com Ela serviu pra mim feito uma carapuça. Eu sou aquele espectador médio, sabe, e confesso que antes de refletir sobre o que vi na tela, acabei me identificando com o tal personagem Tom. Basicamente, eu passava por uma situação muito semelhante à do personagem na tela, sabe? Dor de cotovelo, rejeição, auto-comiseração. Pensei, “esse filme é a minha história”. E talvez fosse mesmo.

    Mas depois que passou essa primeira impressão de “esse filme é a minha história”, veio a tal reflexão. Num primeiro momento, eu achava que o final do filme era triste. Depois me liguei que era um ótimo final, que o Tom terminava melhor do que tinha começado. Crescia, começava a andar com as próprias pernas, fazer as próprias escolhas. Isso é muito bacana.

    E daí agora li esse seu texto e a ideia dos “scripts” é muito legal. Temos expectativas que são construídas por outros e as tomamos como se fossem nossas. Demoramos pra perceber as diferenças. Gosto da ideia do improviso. Gosto da ideia de poder sair do script.

    Como eu disse, sou um espectador médio. Não tenho pretensão de analisar ou discutir o filme. Mas quero dizer que tenho um carinho especial por esses 500 dias. Acho que me fez aprender muito. Talvez crescer como pessoa.

    Não sei se você viu os extras (eu assisti em blu-ray) mas tem muita informação bacana do diretor e dos roteiristas sobre a construção do filme, das imagens, da projetação do roteiro. Vale a pena conferir.

    Valeu!

    Abraços

    • Oi :)

      O script é nosso também, né?! Acho perfeitamente possível se projetar na relação deles e sentir mais empatia pelo Tom do que pela Summer, porque é ela, a princípio, quem destoa das nossas representações afetivas. Então meu desconforto com a volatilidade da Summer foi se desfazendo à medida em que eu percebia nela essa capacidade de não achar que o fim de um relacionamento é sinal de que tudo falhou e blá. E o filme é bem otimista, porque parece que o Tom também percebeu isso, que ele cresce. Toda a cena final é isso, uma metáfora mastigada dos ciclos que se encerram pra que outros comecem (ele conhece a Autumn, procura um emprego melhor, está mais independente, etc). Eu acho que o filme brinca um pouco com a ideia de script, sim, não porque o reinventa ou extermina, mas porque suaviza um pouco a relação das personagens com o amor, casamento, separação, carreira, emprego… sobretudo se usado como contraponto de A primeira noite de um homem.

      Eu acho que a forma como a história é contada é muito coerente com o que ela se dispõe a dizer. A gente passa o filme inteiro vendo a história de Summer e Tom, sempre um relação ao outro. A lógica do casal, que é uma unidade. E a gente vai tendo que se acostumar, ao mesmo tempo, em percebe-los individualmente. Eu não fiquei particularmente torcendo pelo casamento da Summer, nem pelo namoro do Tom com a Autumn. Fiquei só gostando dos dois, assim, cada um em si.

      Vou procurar esses extras que você mencionou, obrigada.

      Abraço :)

  2. Aline,

    Muito bom este teu texto. Só li agora pq ainda nao tinha visto o 500 days of summer.
    Fiquei pensando nas diferenças entre o final dos dois filmes.
    Enquanto o Tom termina com uma suposta possibilidade de recomeçar sem aquilo que queria, o Ben termina alcançando aquilo que, ainda que de forma aloucada, desejava.
    Acontece que o fim do graduet é a síntese da tragédia que a gente veria se o filme continuasse.
    A cena final é uma das mais potentes que já vi, porque a disparidade das expressoes dos dois fala tudo, fala escancaradamente como eles estao em lugares totalmente diferentes. A melancolia consciente dela X a alegria euforica dele.
    E é um retrato perfeito de como nas relaçoes cada um busca o que quer, ou precisa.
    Enfim, dois filmes ótimos e uma ótima crítica tua, como sempre.
    Acabei de ler o Passado do Alan Pauls, onde os protagonistas – Rímini e Sofía, me fazem lembrar de algum jeito estes dois casais.
    Se tiver tempo e vontade, leia – aco que vc vai gostar. Mas nao veja o filme que é fraquinho, fraquinho.

    Um beijo pra vc,

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