Terrinha

O contexto da conversa era mais ou menos o seguinte: numa escola pública, um aluno (ou vários, ninguém sabe) botou fogo numa carteira e esse foi o burburinho da semana. Na semana anterior, um menino muito bagunceiro que por todos era chamado de Terrinha já havia sido expulso sem ter aprontado nada particularmente grave ou diferente. E como o prefeito não autorizou o recesso nas escolas em dias de jogo da seleção, funcionários e professores concordaram tacitamente em receber os moleques, dar-lhes merenda e deixar que corressem e se batessem um pouco no pátio, dizendo entre si que os alunos só vão à escola para “comer e causar”.  Acontece que uma carteira queimada fertilizou o solo meio ralo das queixas docentes, e com mais ênfase um professor passou a desabafar: que não aguentava, que essas crianças de hoje são insuportáveis e indisciplinadas, que elas não querem aprender, que ele é professor há mais de 15 anos e perdera de vez a fé na educação, que há umas semanas ele começou a retribuir praticamente nos mesmos termos quando é insultado por aluno, e que afinal matriculou-se num curso de administração e logo abandona “esse inferno”.
Não tive a oportunidade de ouvir nada disso porque não trabalho nessa escola e nem moro nessa cidade. Sorte a minha e a desse exaurido professor, pois certamente sairíamos brigados de morte quando eu decidisse tomar coragem e dizer calmamente que quem não tolera crianças não deveria mesmo ser professor, da mesma forma que eu, que não consigo nem olhar pra sangue, nunca pensei em ser enfermeira. Talvez eu usasse um tom meigo para dizer que ele tinha alguma razão em queixar-se das condições de trabalho e do descaso do governo, mas aposto que se seu salário fosse de, digamos, 5 mil reais, as crianças de hoje talvez não lhe pareceriam tão indigestas. Imagino também que, para continuar tal conversa, provavelmente eu devesse ceder aqui e ali, concordar que para alguns moleques já não há mais solução, antes de dizer que mesmo eles, os piores, os agressivos e debochados, os estúpidos, marginais, os alunos-problema, têm pouca ou nenhuma parcela de responsabilidade no esfacelamento do entusiasmo profissional deste mestre e mesmo na decadência do ensino público no país. E talvez soasse um pouco cínico de minha parte se eu dissesse que ele deveria dar-se por contente de ter feito uma boa escolha ruim, no início de sua carreira, quando decidiu ser professor de matemática. Sei de muitos professores mal pagos, mas raras vezes soube de um professor desempregado – tanto é que ele está aí, conseguindo grana para pagar uma segunda faculdade. Então se esse caro colega não conseguir um emprego com o diploma de administrador de empresas, ele sempre poderá voltar ao magistério, esse eterno plano B, ainda que a contragosto.
Mas enfim, a ladainha do professor de matemática chegou aqui através de um amigo, esse sim funcionário da escola. E como ele arriscou defender a expulsão dos indisciplinados e validar a queixa do colega, mesmo sabendo das minhas inclinações e insensibilidade, achei por bem dizer mais ou menos o seguinte: o hospital é uma instituição pública que serve para curar as pessoas. Se você os procura e ainda assim não sara, é seu corpo que é errado, que não contribui com o bom funcionamento do hospital. Ali, com um monte de guias de exames na mão, você tem que compreender que o médico é médico há anos e já não aguenta essa geração de pessoas doentes que não se curam e assim inviabilizam seu trabalho, então ele, o médico, defende que os incuráveis sejam expulsos do hospital e ele mesmo já procura emprego no setor imobiliário.

Meu amigo, usuário e intenso crítico do sistema público de saúde, não gostou nem um pouco da analogia. Acusou-me de distorcer as coisas e mostrou-se avesso às metáforas, o que por si já indica que ele também não deveria, antes de mais nada, ter-se formado professor.

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15 Respostas

  1. Primeiramente, deixar claro que eu também fui professora durante seis anos e deixei esse trabalho por circunstâncias que nada tem a ver com o tema do post.
    É curioso ver como são poucas as vezes que discordo completamente de você e essa é uma delas. Esse assunto é algo que me atinge tão diretamente quando vejo as noticias.. porque aqui na Espanha os alunos também estão se fazendo cada vez mais indisciplinados e isso sai no jornal, sabe? Não tem nada a ver com o sistema publico, ainda que dentro dele sempre ocorrem as coisas mais bizarras (no privado há uma imagem muito mais economicamente urgente de se manter).
    Os pais cada vez mais deixam a educação dos filhos a cargo da tv, do video-game, e principalmente da escola. Aquí se fala nos “filhos-chave” que são aqueles a quem a chave de casa foi entregada prematuramente para que o molequinho volte para casa sozinho e continue sozinho o resto do dia em casa usando redes sociais que ele ainda não tem idade para usar.
    Há tanta permissividade em casa que esses garotinhos indisciplinados, cujos pais não sabem dizer não, se convertem na famosa “generación NI-NI” que, aqui na Espanha, são aqueles jovens que “NI estudian, NI trabajan”.
    Quando eu era pequena, minha mãe exigia saber como iam as minhas notas, quem eram minhas amigas e sair de noite era mais difícil que ganhar na loteria. Eu sabia que ela estava brava comigo só de ver o olhar dela a metros de distância. Isso de xingar um professor era impensável. Eu era meio louquinha, mas no fundo tinha respeito. Como ia dizer as barbaridades que se dizem aos professores hoje em dia? Como ia botar fogo na carteira??
    Hoje a garotinha de 13 anos que ainda não transou é meio esquisitinha.. O mundo é muito diferente do que era antes e nem sempre as coisas evoluem.. às vezes, acredito que mudam para pior. Os professores que queriam ser professores faz 15 ou 20 anos, certeza que não sabiam que o mundo ia estar assim hoje em dia. Acho que se soubessem disso, prefeririam virar go-go.
    Eu, francamente, alucino com esses pequenos marginais. E a culpa nem é deles. Mas CERTAMENTE não é culpa do professor e são os pais que deveriam revisar suas atitudes… Só resolvi escrever tanto para deixar claro meu ponto de vista que esse é um fenómeno mundial, mais acentuado talvez no Brasil. Porque aqui, se um aluno bota fogo na carteira, é motivo de notícia na tv. Os professores estão desanimados e não cobram mal. Pedem uma lei que está a ponto de se aprovar em que o professor se tornaria autoridade. Ofender a um professor seria a mesma coisa que desacatar a um policial.

    • Oi Luisa :)

      Olha, que o mundo muda eu tenho certeza, mas pra pior? Será mesmo? Eu acho que a gente não tem muita objetividade na hora de avaliar as gerações seguintes à nossa, porque essa queixa de que o mundo piora e que os limites suportáveis estão sendo ultrapassados é um lugar comum, então a gente acaba se apegando aos valores com os quais se acostumou e etc. Claro que as pessoas que decidiram ser professoras há 15 anos não sabiam como seria. Ngm nunca sabe. Tbm não sei como será o mundo daqui a 15 anos, mas tenho certeza de que 1) vai ser diferente e 2) eu vou ter que lidar com isso. Não tem muito pra onde fugir. E se algum dos aspectos da minha vida estiver ruim pq o mundo mudou, paciência. Eu vou ter que lidar com isso, pq sou adulta e sei que as escolhas tem consequencias e imprevisibilidades, ué.
      Eu não disse que a “culpa” pelos “marginais” é do professor. Talvez seja dos pais, talvez seja de uma série de fatores combinados. Talvez, em alguns casos, seja do professor também. Mas se eu eximo alguém de, digamos, culpa, é a pessoa que tem 8, 10, 13 anos. Pensando na indisciplina mesmo. Expulsar um aluno problema não “pune” os pais. Resolve a curto prazo a dificuldade do professor e prejudica muito o aluno. Ponto. Se você se dispõe a ser professor, e se vc for lúcido, sabe que enfrentará uma série de questões. Ou lida com elas ou não. Sendo lidar = pensar nelas, tentar resolve-las de um jeito decente. Que a escola, como instituição, está dando sinais de fracasso, é inegável. Pq não se reinventa. Pq não soube acompanhar as mudanças culturais e fica batendo cabeça. Pq muitos professores, aqui no Brasil pelo menos, surtam e oscilam entre o messianismo e a vitimização. Acho sinal de maturidade mudar de carreira, mesmo depois de 15 anos, pq não é feliz. O que eu não aceito é marmanjo ser frustrado com um salário ruim e se acomodar simplificando tudo jogando nas costas da molecada. Vc ficou chocada com carteira queimada e não comentou a ignorada que os alunos tomaram da escola inteira. Não entendo.
      Olha, eu posso estar enganada. Mas não é lei que vai restabelecer a autoridade do professor. A última coisa que a gente precisa, hoje, é ser temido. Disso que eu tava falando. Métodos do século XIX pra alunos que nasceram em 2000. Não dá conta mesmo.

      beijo (tá feliz com a copa? =)

  2. É incrível como as pessoas se julgam no direito de opinar sobre gostos, opções profissionais de terceiros… Quem disse que o Professor em questão não gosta de crianças? Ou que ele não gosta de ser Professor? O que ele não gosta e se nega a aceitar é a balbúrdia, o desrespeito, a falta de limites, de princípios básicos de educação e ética que se instalou dentro das escolas. De qualquer escola, não só da pública, com raríssimas exceções.
    Eu, talvez como ele, escolhi ser professora, frente a inúmeras outras possibilidades, por acreditar, por suspeitar que seria instrumento de mudanças benéficas. Ledo engano. Que decepção. Quanta!!!
    Batalhei duramente. Me virei ao avesso, revi conceitos, me envolvi, adoeci, me abri ao novo, questionei o antigo, me enterneci, me enrijeci. Hoje, do alto dos meus mais de trinta anos de experiência, lecionados do antigo maternal à faculdade, em escolas públicas ou particulares, venho apoiar o meu nobre e exaurido colega, Professor de Matemática. Ele tem razão. A desesperança, a descrença ( e não há mal pior ) juntam-se à falta de recursos para tornar esta profissão humilhante, desgastante e inócua.
    Acho inapropriada a comparação do ambiente escolar com o de um hospital. Comparemos superficialmente: Um hospital é um local que a pessoa (nem sempre um adolescente mal orientado, sob efeito de drogas e ensandecido) busca por opção própria e não por força de “cestas básicas”, “auxílio escola”, ou imposição de pais ( na maioria, não acreditam na necessidade dela.-” Ela não ajuda ninguém a ficar famoso e ganhar muito dinheiro”- isto ouvi de um pai raivoso que havia sido convocado devido às indisciplinas desastrosas da filha) que não tem outro lugar para deixar seus rebentos enquanto trabalham.Tem mais; após a consulta num hospital, o ”Dever de Casa” é sempre feito uma vez que os exames, cuidados, remédios são levados a sério pois disto depende a vida do paciente. Preocupam-se com a vida, esquecendo da maior importância que é a qualidade que ela deve ter. Isto torna usual a banalização e o não atendimento às normas escolares, a não orientação e empenho na feitura do “Dever de Casa” da escola. Além disto, além de outros quesitos, é ingenuidade não observar o status e consideração que são dispensados a um médico frente a falta de valor e desrespeito com que são tratados os profissionais do ensino.
    Não fique de longe fazendo conjecturas, suposições, julgamentos…Como pai, irmão, tio, padrinho ou simples cidadão você tem direito de participar das atividades diárias (não só em eventos) de uma escola pública. Vamos, arregace as mangas. Você vai perceber, estarrecido, que para lecionar não se carece de diploma de PROFESSOR, precisa-se apenas almejar ser um desnorteado SOFREDOR.

    • vixe.

      • Na realidade, eu também acho que a comparação com o hospital não tem nada a ver.. A escola realmente tem muitas funções, mas não é possível esperar que a escola eduque em to-dos os sentidos.

        Os “moleques-problema” de hoje em dia são iguaizinhos aos que são bem comportados num sentido. As crianças têm a característica de extender aquilo que se vê, aprende e faz em casa aos demais lugares que vão. E, portanto, NATURALMENTE vão fazendo por aí tudo aquilo que lhe permitem fazer em casa, na rua…

        Eu não tenho nem a menor vergonha de admirar, respeitar e sentir falta dos valores do meu passado. Acho que trouxeram bons frutos pro meu presente e meu futuro. Infelizmente, as coisas começaram a ser bem diferente e dentro de uns anos vamos ver o estrago que causará essa geração sem limites.

        Você disse algo sobre não ter comentado nada sobre a “ignorada” que eles receberam. Não entendi muito bem o que você quis dizer. Se você se refere a que foram ignorados pelos colegas ou membros docentes, não sei até que ponto um garoto que bota fogo na certeira já não foi repreendido algumas centenas de vezes antes ou não.. Mas chega um ponto em que você vê que você pode fazer a diferença com alguns, mas não com todos. E aceitamos que há coisas nessa vida que não vamos poder mudar. Por isso acho que se deve expulsar o menino. Não para culpar ou atingir aos pais, como você disse. Mas porque chega um ponto em que você não pode fazer mais nada.

        Lembro de uns desenhos animados de pequena que diziam: “Se vc não pode vencê-los, junte-se a eles”. Imagino os professores pintando faixas negras na cara, gritando “DESTRUIÇÃO!” e botando fogo nas carteiras e subindo pelas paredes… Não dá pra fazer um trabalho excelente com aqueles que vêm “quebrados” de fábrica. Se não há continuidade da educação de casa na escola, é um problema. E vice-versa.

        Hoje em dia é interessante ver que, entre outras coisas, tudo isso ocorre porque todo mundo, TODO MUNDO MESMO, quer seus direitos. É ótimo ter direitos. Eu quero os meus também. E até acho que tem que ser um montão; e que devem existir mais direitos que deveres.
        Mas, para que uma pessoa tenha muitos direitos, ela tem que cumprir os deveres que elam têm. Os teus direitos começam onde os meus terminam.
        Hoje em dia, estamos criando uma geração sem sentido de dever.

        Outra coisa que esqueci de comentar antes foi que a gente às vezes esquece que o tempo de vida laboral de uma pessoa é bem extenso. E alguns professores de hoje em dia foram os mesmos professores que eu tive. Acho que essa mudança radical da juventude, essa falta de respeito que eu jamais ousei ter com meus professores.. tudo isso deve estar levando essa gente à loucura. E só posso te dizer que me dá pena.

      • Oi Aline,
        Acho (tenho certeza) que você respondeu “vixe” porque se assustou com minha veemência. Hoje, relendo o que respondi , peço desculpas. Basicamente, inadivertidamente, chamei você “no braço” , atitude pouco louvavel, comparável a dos sem limites que ando recriminando.
        É que é tão desgastante, humilhante e pouco reconhecida esta nossa profissão ( nós mesmos não nos ufanamos dela) que a gente acaba tendo uma atitude defensiva, sempre, como se outros fossem culpados pelas nossas escolhas.
        O que eu disse é verdadeiro, não deixando de ser também alguns ditos seus. Existe muito professor que caiu de para-quedas na escola e não sabe o que está fazendo lá, como existe médico que não está nem aí, advogado sem ética, comerciante sem escrúpulo … Outros profissionais, no entanto, são levados a sério, são defendidos, perdoados até. O professor não. Ele é sempre o vilão da história. O que entendo é que se todos acham uma covardia não oferecer aos adolescentes uma escola digna o é também deixar que jovens professores, capazes, envolvidos, com grande aptidão, tenham que mudar de profissão, no momento mais produtivo de suas carreiras. Isto não porque não estejam aptos ou não gostem do que fazem, mas simplesmente por falta de apoio, incentivo e reconhecimento.
        Quando jovem escutava meus professores dizerem:-” Ser professor é um sacerdócio.”. Nunca concordei. Hoje chego a achar que eles tinham razão.
        Abraços cordiais
        Lavínia

        • Oi Lavínia

          Vou começar a prestar mais atenção em outros profissionais pra ver se eles são assim corporativistas. Eu não escrevi um texto criticando a classe de professores, nem nada generalizado. mas as pessoas leem a história como uma grande metonímia do fracasso escolar no país. *nunca* vi um mau profissional ser defendido, a não ser professor. aliás, até advogado de defesa de um criminoso (que está não apenas fazendo seu trabalho como garantindo a manutenção do estado de direito e bla bla bla) recebe mais pancada que muito profissional incompetente. pergunte ao levorim.

          não acho que o professor é sempre o vilão, não. ele tem mil álibis antes de talvez assumir que apenas não é bom no que faz. a direção não ajuda. os pais não educam. os alunos não obedecem. o estado não dá aumento. a carga horária é difícil. o programa é inadequado. o plano de carreira não existe. a comunidade não participa. a sociedade não dá valor. os outros não sabem como é. a criminalidade. os video-games. a sexualidade. os valores. o mundo é um moinho que triturou seus sonhos mais mesquinhos.
          o curioso é que cursos universitários formadores de professores continuam bombando. educação é uma das áreas de conhecimento mais amplas. motiva debates apaixonadíssimos. deve haver um precipício que impede a comunicação entre os professores véios de guerra, esses que são os únicos que realmente sabem como é a dura realidade de suas vidas e todos os futuros professores. ngm nunca me falou que eu ia ganhar bem, que minha vida seria fácil ou boa, que eu seria solenemente tratada dentro ou fora do ambiente de trabalho. pelo contrário. quando anunciei que seria professora, a família inteira, mais os pais dos amigos, os vizinhos e desconhecidos receberam a notícia como “tou indo ali ser voluntária numa guerra civil”. fizeram previsões horrorosas de morte em sala de aula, pobreza, agressões e infelicidade. fui mais do que avisada do erro que estava cometendo. insisti, não me arrependo. e se um dia me arrepender, vou ter a delicadeza de não culpar nenhum deles, nem meus alunos, nem ninguém. já que meu senso de realidade vai bem, obrigada, e eu não posso dizer que fui iludida. já que eu não aceito ser culpada pelas frustrações das expectativas dos outros.

          abraço

    • De novo, vc está completando minhas frases. Eu não disse que a escola tem que educar ninguém em to-dos os aspectos. Eu fiz essa analogia com o hospital mais pra cutucar meu amigo, mas como sou convidada a repensa-la acho que tem a ver, sim. um hospital não te cura em to-dos os aspectos. e um obeso que infarta tem mais responsabilidade sobre a própria saúde do que uma menina de 13 anos tem sobre a própria rebeldia. um infarto é obviamente um problema, mas não querer ficar sentada por horas escutando um adulto falar, dependendo de como acontece, pode ser sinal de inteligência :)
      as instituições públicas existem pra prestar um serviço x pras pessoas. agora tá na moda usar “clientela” e “usuário”, o que pode corromper um pouco a relação. mas eu gosto da ideia da coisa pública mesmo. então, nesse sentido, tem lá o hospital cuja função é cuidar da saúde das pessoas. só agora, por exemplo, a ideia de medicina preventiva, saúde da familia e saúde da mulher estão sendo implementadas e defendidas por aqui. a escola, evidente, tem uma função educadora, sim. se é disciplinadora, se é conteudista, se é preparatória pra vestibular, profissionalizante, aí depende. de como a instituição vê a si mesma e pretende interagir com as pessoas. a escola pública não existe a serviço do professor, eu quero dizer. escola existe porque existem crianças e a gente acha que existe um conhecimento a ser transmitido. algo que é tão importante que nem os pais podem fazer. que precisa de um aparato, de profissionais e etc pra garantir que ela aprenda e viva um conjunto x de experiências. vc diz que é um problema de geração sem limites. mas diz tbm que o indisciplinado deve ser expulso. não fecha a equação, pq o problema não pode ser geracional e a solução individual. até pq o aluno expulso vai pra algum outro lugar. irritar outro professor igualmente cansado. e vai crescer completamente fora da instituição e se subjetivar de outras maneiras. se há mesmo um problema insolúvel entre as crianças de hoje e as escolas de hoje, quem tem que se reinventar são as escolas. ou, pelo menos, achar um meio termo. mas é impossível educar um menino que nasceu em 98 da mesma forma que alguém que nasceu em 80, ou 60, ou 30. simplesmente não dá. esse menino nasceu em outro mundo, com outras referências. ele não tem um plano de acabar com a vida do professor e etc.
      todos os professores que eu conheço tiveram uma vida escolar feli~. é inerente da relação professor – aluno o confronto. senão, é opressor ou irrelevante.

      vc está supondo um contexto que não existe no post. do aluno ser advertido muitas vezes antes de queimar a carteira e do desânimo. o contexto de verdade eu conheço, não preciso supor. sei que a diretora rouba dinheiro da apm. sei que os alunos não tem material didático. sei de inspetores que fingem que não veem traficante vendendo droga. sei de duas professoras de 2a série que são analfabetas funcionais. sei que enquanto eles deviam estar trabalhando, eles deixaram a molecada sozinha pra ver futebol. sei que deu tempo de uma carteira pegar fogo antes de aparecer um adulto. fechou, né?

  3. “vc diz que é um problema de geração sem limites. mas diz tbm que defende que se expulse o indisciplinado. não fecha a equação, pq o problema não pode ser geracional e a solução individual.”
    Eu acredito que todas as grandes mudanças acontecem com o primeiro passo. Ou você faz com que haja exemplo, ou não há forma de controlar a turba.
    A expulsão de um aluno é como o “sacrifício de um só pelo resto”, ainda que não seja por escolha própria. Ou sim. Se você decide pôr limites, deve haver consequencias e elas devem ser cumpridas. Se não, não funciona porque o adolescente aprende que são apenas ameaças.
    É um problema geracional, na minha opinião, sim. E a solução começa no individual, sim.

    Eu entendo que você quis criticar a posição de um professor, mas não há maneira de não contextualizar o teu post. Porque eu vejo todo o post como “defender o indefendível”. Este professor em particular (quem eu nem conheço, ainda que dele tenha certa dó), na minha opinião, tem todos os motivos para sentir-se assim. E realmente não creio que tenha nada a ver com gostar pouco das crianças, não ter vocação ou não ter previsto que chegaria o apocalipsis da rebeldia no futuro…

    Sabe aquilo de que à medida que uma pessoa cresce, ela vi entendendo os motivos que tinham os pais dela cada vez que faziam algo que ela não gostava? Hoje eu vou entendendo e revisitando meu passado.

    Acredito que a maioria desses adolescentes/crianças tivessem a oportunidade de viver um dia de sus vidas no futuro (bem lance viagem do tempo, flashforward), voltariam de outra cor.

    Essa é só uma opinião. Eu sei que é difícil aguentar a típica pessoa “chatona/retrógrada” com suas idéias conservadoras. Mas eu sou assim pra muitas coisas. “Só quis dizer…”. Eu gosto de opinar, mas também não quero transfomar isso numa partida interminável de ping-pong porque jamais haverá um ganhador. Sei que disso não se trata, mas para mim a “educação de sempre” é o alicerce básico do ser humano. E muitas vezes isso inclui um “Pedrinho, até aqui cheguei. Acabou, pra fora!”.

    • Professor não precisa do medo dos alunos pra trabalhar. A sala de aula abre tantos recursos e possibilidades de conseguir um contrato pedagógico. O Wisnick disse uma vez que professor é a profissão mais livre que existe. Eu concordo com ele.

      Fica tranquila. Discordamos diametralmente nesse ponto e ok. Nada grave :)

  4. Aline,
    Como já disse, existem professores que não deveriam exercer tal profissão em qualquer repartição pública ou privada, pelo seu total desleixo, descomprometimento, descompasso, falta de postura, de conteúdo, etc…etc… Mas, e os bons? Os excelentes? São colocados impiedosamente numa mesma panela. Gente séria, estudiosa, cumpridora dos deveres, exigente está fora de moda… Exija, seja altamente comprometido e você será execrado.
    Sim, a área da educação é apaixonante. Gera debates intensos ,amplos e instigantes. Acho que justamente por isto é pouco objetiva. Profissionais da área adoram discursar, sugerir, opinar. Mas, sabemos que aquelas discussóes acaloradas e utópicas se atem as quatro paredes da universidade. A prática e dura realidade de quem enfrenta, principalmente, a periferia é outra, muito outra.
    Interessante, Aline que li a pouco tempo, não me recordo onde, que os vestibulares para as faculdades da área de educação tem sido os com menor índice de aluno por vaga e com o pior nível de aproveitamento. Bombando????
    Quanto ao precipício entre professores ”véios de guerra” e os atuais ele inexiste. Uma porque antigos professores assim como eu, já se aposentaram a tempos. Outra porque ninguém permanece nesta profissão, nos dias de hoje; a não ser por extrema e premente necessidade, nunca vindo a ser, portanto, “véio de guerra”. A rotatividade é enorme e isto compromete, mais uma vez, a qualidade.
    Concordo, nossas escolhas, são verdadeiramente nossas com todas as consequências que delas advierem mas, é premente a necessidade de intervenção de órgãos competentes para que jovens professores possam exercer sua profissão sem precisar abandoná-la por falta de condições mínimas de trabalho.
    Quanto ao professor em questão, não posso rotulá-lo de bom ou mau. Não conheço seu desempenho. O que defendo é o seu divino direito de indignar-se frente a tanta balbúrdia. Ou será que até isto nos será vedado?

    • Divino direito? Não dou nem ao Papa. Aliás, principalmente a ele :)

  5. Oi, Aline! Eu estava bem atrasadinha com a leitura do seu blog e acabei de ler esse post – o melhor, pra mim! Acho que me toca porque quero ser professora… Decidi fazer Pedagogia; espero começar no ano que vem. Concordo com suas ideias sobre a educação. Penso que não podemos culpar o professor pela falência da educação e sim que se trata de múltiplos fatores, alguns comentados já por você… Mas é ele sim o responsável por algumas coisas, a escolha de ser professor, especialmente. E ser professor é mudar algo, transmitir conhecimentos, “reinventar” maneiras para dar conta dos meninos; não fazer com que tenham medo dele (óbvio!). E nunca consegui entender a lógica de expulsar alunos de uma escola… Pra mim, isso é muito deixar pra outro o que você deveria fazer, fora as consequências de uma expulsão na vida de uma pessoa… Esse papo também de que as coisas não são mais as mesmas, que na nossa época era assim e assado e, que na época dos nossos pais e avós, as crianças eram ainda mais disciplinadas e blá blá blá não rola! Ainda bem mudou!!! Não estamos mais vivendo ditadura no país… Agora, com certeza, há muitos professores em sala de aula hoje que não sabem o conteúdo a ser transmitido (parte responsabilidade dele, parte de outros muitos fatores que o levaram a estar em sala de aula nessas condições). O fato é que dessa forma não há educação. O mínimo que se espera de um professor é que ele saiba o conteúdo pra poder ensinar alguém. Se não, a escola vira depósito de crianças, que vão sim inventar inúmeras brincadeiras em horário de aula, rebeldias, queimar carteiras, ver a instituição como local para comer e passar tempo. Beijos.

    • Oi Sil

      Uma vez eu li algo assim: o problema da educação é que temos escolas do século XIX com professores do século XX e alunos do século XXI. Eu discordo quanto à datação dos métodos escolares, eles não são do século XIX, mas da primeira metade do século XX, enquanto os professores, oriundos, em sua maioria, da classe média, foram educados na segunda metade do XX, durante a ditadura, como você disse, ou numa época ainda próxima o bastante para aprenderem a sacralizar a “autoridade” do professor.
      Em todo lugar discute-se o quanto a noção de autoridade e disciplina está em frangalhos. Da polícia, dos pais, dos professores, dos patrões… Nas empresas, pois a iniciativa privada tem muita pressa em evitar desastres, já são comuns cantinhos de descanso, flexibilização de horários, aumento da autonomia dos empregados. Nas esferas públicas, mil debates sobre o que fazer com a polícia, e percebe-se que a situação da corporação tem tudo a ver com o aumento da criminalidade e da violência. No caso de pais e professores, curiosamente, discute-se “essa nova geração”, como se as crianças que nasceram na virada dos anos 90 para os 00 tivessem um gene da indisciplina, da rebeldia, etc. Fala-se com horror que as crianças aprendem a digitar antes de escrever, que escrevem internetês, que preferem usar msn a empinar pipa, que são agressivas, que não querem aprender. é tanto clichê. como se elas não recebessem exatamente esses estímulos através dos mesmos pais e professores, diretamente, indiretamente ou por omissão. como se não houvessem novas maneiras de aprendizado, novos sinais de inteligência com a informática, a internet, os meios de comunicação web. não dá pra exigir dessas crianças amor por um mundo que foi nosso e que já não existe. esse amor só cabe a nós.

      não me conformo com professores que esquecem quais são os ônus de seu próprio ofício e ficam querendo que o mundo se arranje antes que eles fracassem de vez. gente assim tem que ficar num escritório, fazendo qualquer trabalho burocrático que não envolva enfrentamento e criatividade. coisa que o professorado exige.
      beijos

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