do meu filme preferido

Essa é uma das perguntas que exigem uma história para serem respondidas e eu, na verdade, tenho um retrato a oferecer.
Meu pai é um homem alto, gordo, grisalho. É sorridente também, expansivo, tem uma voz forte, olhos expressivos. Meu pai ocupa muito espaço, e não apenas fisicamente. Ele preenche o lugar em que está, ele não gosta de silêncio, não gosta de seriedade, não há nada (nada, acredite) que ele não possa transformar em piada e zombaria. Meu pai é inteligente, mas pouco afeito à sutilezas. Ele é desses que usam a palavra “frescura” pra uma porção de coisas, incluse várias que eu amo.  Meu pai faz contas de cabeça mais rápido do que qualquer pessoa que eu conheço, ele é capaz até de calcular porcentagens e frações em números quebrados assim, como se fosse fácil. Enfim, pra ele é fácil mesmo. Meu pai senta no sofá pra assistir tv e eu amo – amo – me aconchegar nele, apoiando a cabeça em seu peito, abraçando a barriga. Meu pai é fofo, sabe.

Aí em 2003  estávamos assistindo As horas, só eu e ele. Eu comprei o dvd sem ter visto o filme, ele por acaso entrou na sala na hora em que eu coloquei no aparelho e ficou pra assistir. Ao longo do filme, muito emocionada, comecei a pensar no quanto ele devia estar entediado com toda aquela “frescura”. Aquelas questões do filme, você provavelmente se lembra. A angústia da Juliane Moore. Da Virginia Woolf. Da amada Meryl. A festa de aniversário do marido. A festa de homenagem ao poeta. Aliás, o poeta. Ed Harris me fez chorar tanto. A felicidade que escapa, a juventude, o nada. A morte – pior, o suicídio. Eu me afundava lacrimosa na barriga fofa do meu pai, e ele impassível. Aí o filme acabou. Ele ficou em silêncio por uns segundos, olhando pros créditos. Olhou pra mim de canto e disse: vamos ver de novo?
Senhoras e senhores, As horas emocionou até meu matemático e pragmático pai. Aconcheguei-me melhor na barriga dele, protegida mesmo, e apertei play novamente. E esse é meu filme preferido.

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19 Respostas

  1. Ei, você! \o/

  2. Olá, Aline.

    Só quero dizer que fiquei bem feliz por você voltar a escrever um blog. Sabe, na verdade ler o que você escrevia – e escreve, thanks God! – foi bem inspirador, e eu comecei a seguir o “Jusqu’ici” pouco antes de você decidir fazê-lo “subir no telhado”. É claro que eu nem sei falar dos meus pontos de vista, e eu escrevo pseudo-ficção barata, mas te agradeço por ter voltado, ok?

    Grande bj. Welcome back!

    • Oi Patricia

      Eu não sei se alguma vez vc chegou a comentar no Jusqu’ici (além de fazer tempo que ele fechou, minha memória é um lixo). Então, pra todos os efeitos, oi :)

      Eu fiquei tocada com esse seu comentário, pq o tempo todo eu me pergunto pra que manter um blog, o que escrever, o quanto me expor, o qto me envolver. E apesar das evidências em contrário, vale a pena ter um espaço, conhecer outras pessoas, bater papo e escrever – que eu gosto demais, não adianta. Então eu agradeço muito o carinho, o incentivo.

      Outro beijo, e seja bem vinda =)

      • Nossa, eu “super-acho” que você deve continuar escrevendo. For my sake, for everybody’s sake.. Eu tenho o link pro teu ex-blog na barra de favoritos do meu explorer do trabalho e várias vezes por semana clicava ali para ver se havia esperanças de rahabilitação do recém-caído-do-telhado. Mas nunca havia nada.
        Até que um dia vi a mensagem que esperava. Estou muito feliz de ter você de volta nas minhas leituras matutinas. Não desapareça. Escreve o dobro. Sabia que um bloguero que se preze deve abastecer o cosmos virtual com entretenimento?

        Um beijo grande. Não some.

  3. errata: reabilitação

    • Oi, querida :)

      Assim que eu fechei o blog o Paulo disse que provavelmente eu voltaria ou abriria outro quando acabasse meu “luto” pelo Jusqu’ici. E foi assim mesmo. Fiquei feliz em abrir esse e linkar o blog antigo, anguns textos lá me são caros. É bom ter vc or aqui tbm! \o/
      Olha, eu fico envaidecida de receber um comentário desse, je rougis, mal-e-mal sei como responder. Obrigada, etc, etc

      un gros bisou

  4. Atualizou a margarida, que alegria! E falando de um dos meus filmes preferidos tambem… como chorei com esse filme, nossa.
    Nao, nao pare de escrever, viu?
    Beijos!

    • hahaha
      é que eu tava com preguiça mesmo pra escrever as coisas mais simples. mas comprei um abstrech personal writer na polishop e tou aqui, toda trabalhada nas novas postagens \o/

      beijos (eu vi qdo vc mudou de casa e nem comentei… uma lágrima discreta pelo layout mais lindo do blogspot :,)

  5. quase morri de saudades

    é quase desnecessário dizer que sua presença na net é um presente pra todos os que apreciam textos genuinamente inteligentes

    abraços, abraços…

    • oooh, querido. vc é sempre tão gentil! muito obrigada.

      abraço forte :)

  6. it’s been 11 days already… don’t abandon us again, pleeeease! have a nice weekend!

    • hahahaha calma flor!

      to recebendo visita de mamãe aqui em casa… fica difícil escrever. mas to pra postar um logo logo =D

  7. oi Aline, surpresa boa te reencontrar nesse ´mundo´. Se voltou é porque vale a pena né? E vc já chega emocionando a gente toda, esse filme é tão tocante, delicado. Faz um tempão que vi e deu vontade de ver de novo.
    Que fofo é seu pai. Eu admiro homens que fazem conta rápida de cabeça. Meu pai também idem. Ele tinha um ábaco na mente dele. Estou pensando em ter aulas de ábaco? rs.
    Adorei reencontrá-la, querida por demais vc.
    um forte abraço.
    madoka

    • oi madoka!

      que legal que vc achou esse meu outro blog… estou igualmente feliz em te ter por perto de novo:)
      esse filme já é ótimo por si só, mas a maneira como eu o conheci foi tão bacana que marcou, né? não vou esquecer nunca, e vou gostar de contar como foi etc.
      seu pai tbm é um homem de números? eu entendo. meu pai e meu irmão são assim, eu acho divertido.

      um abração, querida

  8. Conta como foi, então! :P

  9. hahahahahahahahaha

    só vc, aline!

    ri um tanto…

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