.: Vou chamar de estranhamento a implicância que eu sinto quando ouço aquelas piadas e comentários sobre casamento. Por “aquelas piadas” eu quero dizer a repetição de lugares comuns que determinam que, com o tempo, a vida a dois se torna enfadonha, dispendiosa, pragmática, desconfiada. Não sei, por exemplo, como alguém pode achar engraçado que o marido use apelidos como vaca velha ou jararaca, patroa, dona encrenca, pior, como alguém acha que essas expressões, ditas com doçura, provam intimidade.
Na última reunião de família e amigos da família, estava lá uma dona esposa a censurar, em tom de brincadeira, o entusiasmo com que o senhor marido assistia à novela – na verdade, ele assistia à Deborah Secco – e a lhe fazer suaves e improvavéis ameaças caso, um dia, ele a trocasse por “um modelo mais novo”. Tenho preguiça desse ciuminho só-bebo-socialmente, acomodado, protocolar, que parece ter menos a ver com o medo de perder o companheiro do que com um deboche, algo incrédulo, pelos desejos e fantasias do outro, mas que se manifesta, apesar de todo teatro da estabilidade emocional, como uma vigília dos supostos ímpetos poligâmicos ou infiéis.
.: Piadas e falas batidas, assim como a boa audiência que elas costumam encontrar, revelam uma percepção bem árida e ressentida do que seja o casamento. Relacionamentos que, sob uma veste de sacrifício mútuo pela vida em comum, garantem o soterramento dos desejos que eventualmente surjam, me fazem pensar no García Márquez, que descreveu a lógica fundamental desses casais; ele disse que gente assim “não ousaria magoar os encantos do hábito“, e que “precisavam de uma comoção nacional para perceber, ao mesmo tempo, o quanto se haviam odiado, e com quanta ternura, durante tantos anos“.
Essa citação, a propósito, vem de um de seus contos mais brilhantes e sensíveis. Chama-se Maria dos Prazeres, que é também o nome da protagonista, uma velha e pobre prostituta que, intuindo a chegada da morte, se apressa em arranjar o próprio funeral e treinar seu cachorro para visitar seu túmulo, tal é o medo que sente em desaparecer do mundo e das lembranças dos vivos. E embora os preparativos fúnebres pareçam estar no centro da narrativa, o que se vê é muito mais a história de uma mulher que experimenta, em vida, todo o esgarçamento das relações, o esvaziamento de paixão e sentido – não porque ela espera e se dedica à morte, mas porque a correnteza habitual da vida a levou a uma solidão aterradora. Com que surpresa, portanto, ela e nós descobrimos, já no fim do conto, que suas palpitações e pressentimentos não anunciavam a morte, mas a vida, novamente, que lhe batia à porta e a convidava para mais um amor, mais um corpo entregue, mais um gozo – talvez o maior deles.
.: Andei pensando muito nesse conto pois acompanhei a dissolução de um casamento que já durava alguns anos, e foi mesmo preciso “uma comoção nacional” para que os dois envolvidos tivessem coragem de reconhecer que aquele relacionamento alicerçava-se, justamente, numa espécie de “amor com sentimento de desastre“. O marido trai a esposa, ela descobre e tudo rui sob os pés deles. Não que traições não machuquem e que nesse campo as coisas sejam simples e fáceis; mas a impressão que me causou tudo isso é que, neste caso, a traição em si – o interesse, o encontro, o sexo com uma terceira pessoa – é o menor dos males. Pairava por ali um modo de pensar que geralmente cristaliza as dinâmicas dos casais convencionais, estipulando que depois de uns anos não só o amor está cansado como os corpos devem acompanhar a perda do vigor; e apesar de não desejarem-se muito mais, estavam ambos impedidos, por pura convenção, de desejar quem ou o que quer que fosse.
É bem triste, se você presta atenção nesse tipo de coisa: há quem pense que um casamento fracassado quase sempre resulta num cinquentão disposto a um novo casamento com uma jovem e numa cinquentona abandonada pelo marido, pela sociedade e até pela natureza, que não lhe devolve a beleza nem o frescor. Machismo é coisa que facilmente se aponta em comerciais de cerveja, nas estratégias de paquera e seus objetivos, nos uniformes das atletas, e contudo eu o considero tão mais óbvio e indigesto ali, onde ele fixa os espaços e as possibilidades afetivas das pessoas, dizendo sutilmente que cabe à esposa vigiar, com doçura e bom humor, o tesão do marido, e à ex-esposa esperar a morte, como a solitária Maria dos Prazeres.
.: Felizmente há García Márquez no mundo, sem nenhuma inclinação para a piedade, pronto a interromper a ordem naturalizada das coisas e reformular o nosso imaginário – com ele, há sempre amantes jovens e encantadores para as putas velhas se fartarem do bão da vida.

demais, aline.
obrigada, carol.
Eu imagino que escrever pensar e escrever bem dêem muito trabalho e sejam extremamente doloridos por vezes, mas nesses tempos gentes que possam fazer isso são extremamente necessárias. Isso é um elogio à postagem toda e a esse pedacinho específico:
“Machismo é coisa que facilmente se aponta em comerciais de cerveja, nas estratégias de paquera e seus objetivos, nos uniformes das atletas, e contudo eu o considero tão mais óbvio e indigesto ali, onde ele fixa os espaços e as possibilidades afetivas das pessoas”
Eu sei que você tem mais o que fazer e coisas muito mais importantes pra cuidar, mas é que o feminismo do óbvio é muito mais forte e prolífico, trabalha com spam, exército e blogs famosos; pega para si menininhas com oito anos e faz com que para sempre seja essa a idade emocional de suas vítimas e perpretantes… ops, faço digressões em demasia… eu dizia que você tem mais o que fazer, mas suas intervenções fazem falta.
Longe de querer impor ritmo industrial à sua produção bloguística, mas comandasse eu capital, teríamos pelo menos uma postagem diária e uma Aline reclamando do abuso de seus direito trabalhistas.
putz, se blogar desse dinheiro eu não reclamaria de nada, não hahahaha
sempre muito querido, vc, emil. =*****
excelente…triste e realista.
que post lindo, que blog do caralho!
parabéns
quero ler esse conto… vc pode dar o nome do livro?
obrigada :)
o livro é doze contos peregrinos.
ótimo post, mas o *fardo* do casamento não se resume aos interditos monogâmicos…
outros pepinos, como contas a pagar, expectativas profissionais disparatadas, e irritaçõezinhas cotidianas várias tb cobram seu preço.
sou casado há dez anos, numa relação q desde o início foi aberta, não-monogâmica.
e, se nessa parte nunca tivemos problemas, todo o resto se mostrou muitas vezes complicado.
continuamos juntos, na labuta, mas às vezes é impossível não pensar: oh, tudo seria tão mais fácil se eu fosse sozinho e independente nesse mundo – poderia tomar as decisões da minha vida sem precisar consultar e nem convencer ninguém…
enfim. apenas uns pitacos de um casado ranzinza e talvez mais convencional do q gosta de se imaginar. ;-)
Oi!!!
O machismo é cultural. Tão irraigado nas pessoas que até o óbvio passa despercebido. Mas o pior é que em geral as mulheres reclamam de forma externalizada mas praticam internamente. Para os homens isso é extremamente confortável. Em qualquer aniversário de criança quando se dá roupa para menina é rosa, pois é delicada e princesesca, pois ela tem que esperar ser salva pelo príncipe encantado; ou seja, reafirma o papel de que mulher é fraca e tem que ser passiva em tudo (que atire o primeiro sutiã quem nunca fez isso). E dessa forma o machismo continua alimentado por mulheres-mães, pois ela, apanhar e ser humilhada não deve, mas ensinar (mesmo sem querer) o filho a ser exatamente esse tipo de babaca, pode.
Não sei se o rosa tem a ver com machismo…
Creio que nos anos 30/40 o machismo era maior e, vejam só, rosa era cor de menino, azul de menina:
http://andrewgelman.com/2011/05/when_did_girls/
Aline, pra mim essa falta de graça toda tem a ver com senso estético. Muito, demais.
Am… Outro dia eu contava qe tinha sido noiva, o menino (vinte e poucos anos, cineasta): “Toda mulher qer casar, né?” Não. A noivinha da história era o cara etc. Sim; depois: “Casamento acaba com o sexo.” Eu falei: ‘Tão novo, tão cheio de certezas… Cineasta?’ e falei qe acho qe de tanto repetirem essas idiotices (breguices), a gente acredita, viram verdades. Mas há qem se safe. E contei qe outro dia, ‘as véia bêbada’ se acabando de rir, eu cheguei, pararam. “O qe foi?” “Nada, Gabriela.” Diante da minha insistência: “Sabe o qe é qe é? É qe eu falei qe se seu tio qisesse ‘mais’, eu ia chamar uma coleguinha.” e mais gargalhadas, hahah
Tá. Nunca sei se o comentário ‘rolou’.
Abraço.